Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Vida em vida — Autores diversos


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Encontro inesquecível

  1 A nossa reunião em preces começara.

  Em derredor, a névoa densa…

  Éramos oito irmãos, ante a presença

  Da inteligência rara

  De antigo delinquente,

  Que precisava rumo diferente.


  2 Finda a nossa oração,

  O Instrutor exclamou, emocionado:

  — Escuta, meu irmão,

  Agora, és nosso convidado

  Para a escola do amor.

  Em nome de Jesus, cuja paz nos alcança,

  Rogamos-te esquecer os gestos de vingança

  Que exerces sobre humilde lar terreno,

  Hoje quase desfeito

  Sem que a piedade te penetre o peito,

  Semelhante a motor sustentado a veneno…


  3 Uma estranha e estridente gargalhada

  Ecoou, sob a névoa desolada.


  4 — Nunca! — disse o infeliz, mal disfarçando a ira,

   — Não me faleis de amor, essa eterna mentira,

  Farei justiça pelas próprias mãos.

  Estou cansado de preceitos vãos.

  Ingênuos pregadores, que dizeis

  De tudo o que sofri no relho da injustiça?

  Das mistificações de vossas duras leis,

  Das crenças que ostentais com virtude postiça?

  Ninguém me arrancará do ódio que me escolta,

  Quero ser a vingança, o rebate, a revolta…


  5 Pobre órfão de mãe, sem pai que me quisesse,

  Para sobreviver doente, exausto e roto,

  Fiz-me rato de esgoto,

  Embora o homem, meu pai, amplamente soubesse

  Que eu tinha sob os pés o abismo por destino…

  Fui ladrão e assassino,

  Temível salteador

  Respondendo a sarcasmo o fel de minha dor!…


  6 Ante a pausa pequena,

  O Instrutor indagou em voz serena:

  — E Deus, irmão? Que fizeste de Deus?

  — Eu preferi trilhar a estrada dos ateus

  — Replicou, apressado, o Espírito infeliz —

  — Se há Deus também é um Pai que não me quis;

  Sei que saí da morte e existo em outro Plano,

  Mas não quero ilusões do pensamento humano!…


  7 — E o bem? Não queres crer na prática do bem? —

  — Disse o Orientador, paciente e amigo —

  — Não desejamos obrigar-te,

  Quanto possas, porém, modifica-te e vem

  Ao caminho do amor que é sempre o nosso abrigo,

  A doar-nos socorro em qualquer parte.


  8 — Tolice!… — proclamou a rebelde entidade

  O bem aduba o mal em toda a Humanidade,

  A prática do bem sugere desacatos,

  É a galinha a sofrer na desova de ingratos.


  9 Notando-lhe a feição empedernida,

  O nosso grupo em prece ao Criador da Vida

  Pediu por ele apoio e proteção.

  Assim que terminou a singela oração


  10 Que o nosso Condutor em pranto formulara,

  Veio do Azul Imenso uma luz rosicler

  Que se fez, entre nós, simpática mulher…

  Abraçou-nos sorrindo, em júbilo e tristeza,

  Dirigindo-se após ao rude sofredor,

  Falou-lhe em doce voz, repassada de amor:

  — Filho, Deus te abençoe!… — E o pobre a ouvi-la,

  Qual se atendesse, enfim, a invencível comando,

  Cambaleou sem força e gritou, soluçando:

  — Mãe, generosa mãe, rever-te me aniquila…

  Não me retenhas, mãe! A treva me reclama,

  Fita-me o peito em fel, a converter-se em lama…

  Sou apenas um monstro, acusado e infeliz!…


  11 Ela, porém, sentou-se, linda tal qual era,

  Colocou-lhe a cabeça no regaço

  E parecendo um anjo, acalmando uma fera, a lhe

[apontar a imensidão do Espaço:

  — Filho, és meu ideal, o mais belo e o mais santo;

  Não te sintas a sós, eu nunca te amei tanto

  Quanto agora que estás desolado e sozinho.

  Não te creias no mal, és um filho dos Céus,

  Deus não cria em ninguém o estigma dos réus.

  A vida nos fará renovado caminho.

  12 Erraste, filho meu, mas as faltas que tens

  Resgataremos nós com nossos novos bens.

  Retornarei à Terra e seguirás comigo,

  Viveremos num lar singelo, claro e amigo;

  Conforme a proteção de Afetos Imortais,

  Terás comigo o amor de meus futuros pais…

  13 No tempo em que eu dormir e pequenina for

  Serás junto a meu berço,

  Meu fiel companheiro e maior defensor…

  E, em regressando a ser a menina-criança,

  Estarás junto a mim por meu sonho-esperança.

  14 Nos bebês que eu tiver, em brinquedos do lar,

  Sei que te embalarei com canções de ninar;

  E ao tornar-me mulher, sem qualquer empecilho,

  Serás, então, de novo,

  Ante a bênção de Deus, meu tesouro e meu filho…

  Não chores mais. Agora, é o fim da longa espera,

  Raiará para nós a nova primavera…

  Não te importem a luta, o esforço, a prova e a dor!…

  Todo lugar é Céu onde está nosso amor!…


  15 Calou-se a mãe sublime. E, entre nós, em seguida,

  Ergueu-se a sustentá-lo com ternura,

  Qual se o pobre lhe fosse a própria vida.

  Depois, a despedir-se, a nobre criatura,

  Na carícia de luz, que das mães se descerra,

  Partiu a carregá-lo, em direção da Terra.


  16 Nosso Mentor, em voz pausada e enternecida,

  Agradeceu aos Céus a tarefa cumprida.

  E, qual se me encontrasse, em reunião qualquer,

  Exclamei, a chorar, em êxtase profundo:

  — Sê louvado, meu Deus, porque deste à mulher

  A chave para a vida e a redenção do Mundo!…


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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