Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Somente amor — Maria Dolores / Meimei


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Drama no mundo

  1 O cavalheiro de renome e brilho,

  Quarenta e dois dezembros de existência,

  Tinha consigo um filho,

  Irrequieto rapaz de vinte primaveras…


  2 Viúvo, ele encontrara uma jovem bonita,

  De maneiras sinceras,

  Com quem se reuniria em casamento…

  Mas conduzindo o filho de visita

  Ao lar da noiva, em doce entendimento,

  Eis que o rapaz por ela se apaixona

  E, moço inteligente,

  Ante a afeição que lhe transborda à tona

  Do coração ardente,

  Dá-se, de todo, à treva que o invade…

  E, tão astuto quanto desumano,

  Friamente executa um lamentável plano

  De indescritível crueldade…


  3 Notando, em certo dia, o pai acometido

  Por resfriado leve,

  Ministra-lhe o rapaz um forte entorpecente,

  O genitor caído,

  Em tremendo torpor, delira estranhamente,

  E, de dose a outra dose, parecia

  Mais doente e cansado, a cada novo dia.


  4 O rapaz busca a jovem para vê-lo

  E a moça foge amedrontada,

  Fitando o descontrole e o desmazelo

  Daquele que não mais conseguiria

  Conceder-lhe migalha de alegria

  Da ventura sonhada…


  5 O resto da ocorrência

  Qualquer pessoa pode imaginar:

  O fazendeiro se afastou do lar,

  Quase que inconsciente,

  E, recolhido a um pensionato

  Para enfermos da mente,

  Muito longe de casa,

  Eis que todo o equilíbrio se lhe arrasa,

  Ante um texto legal que o destitui

  Da regência de tudo o que possui.


  6 O filho conseguira ilhá-lo em supremo desgosto,

  O pai tanto reclama e tanto se tortura,

  Que apresenta, rebelde e descomposto,

  Um quadro indiscutível de loucura.

  Não se descuida o moço… Mês a mês,

  Envia ao pensionato o justo numerário

  Para o custeio necessário

  Das despesas do pai

  Que deixara de vez..


  7 Tempo vem, tempo vai

  E, ao termo de dois anos,

  De pesados e rudes desenganos,

  Certa noite, o doente

  Abandona a pensão e foge sem destino…


  8 O jovem na cidade interiorana

  Finalmente conquista

  A ex-noiva do pai que acredita, inocente,

  Na morte imaginária

  Do homem bom que adorara, ternamente,

  Através de uma carta simulada

  Que o moço sedutor lhe expõe à vista.


  9 O casal prosperou, vivendo agora

  Na metrópole grande, em formosa mansão,

  Um filho se lhe fez a base da união

  E marido e mulher viviam, de hora à hora,

  Em constante alegria…

  De lembranças do pai nenhum sinal

  Que lhes turvasse a vida

  No azul do céu mental…

  Festas, viagens, luxo, fantasia…

  O menino — seis anos de ternura

  Vive ligado à ama que o não solta,

  Ambos sob a atenção de um guarda que os escolta,

  Era o garoto um gênio de doçura…


  10 Quase todos os dias,

  Quando descia ao pátio ajardinado,

  Via a criança um velho embriagado

  A sorrir-lhe, por trás das grades de um portão.

  — “Uma esmola, meu filho” — ele pedia,

  Mostrando o rosto magro em desconsolo.

  Ia o menino à ama e, em breve, aparecia,

  Trazendo-lhe, feliz, grande porção de bolo.

  — “Deus te abençoe, meu anjo!…” — O velho abençoava.

  11 Curioso, o pequeno perguntava:

  — “Onde é que você mora?”

  O pedinte dizia: — “Aqui por fora,

  Moro no Sítio da Calçada…”

  A ama, compreendendo a alusão do mendigo,

  Endereçava aos dois um olhar piedoso e amigo,

  Sabendo com bondade e simpatia

  Que a cena, no outro dia,

  Seria renovada.


  12 Certa noite em que os pais se afastaram mais cedo

  Para uma longa festa em chácara distante,

  Dois ágeis salteadores

  Prendem o guarda num recanto escuro,

  Depois, transpondo o muro,

  Penetram na mansão… A dupla alcança

  O aposento onde jaz a tranquila criança…

  13 A ama é silenciada com mordaça,

  O pequeno a gritar, segue sob a ameaça

  Das mãos armadas dos sequestradores;

  A dupla arrasta, a esmo, o menino que chora,

  Mas, atingindo os três o portão de saída,

  Alguém surge com fúria desmedida,

  Um homem que se agarra ao pequeno indefeso

  E clama em alta voz: “Sou da polícia!…

  Sereis mortos, ladrões!… Meu carro aceso

  Chegará neste instante…”


  14 Ouvindo aquela voz tonitroante,

  Um deles grita ao outro: — “Apague o velho tonto…

  Depois, é dar no pé, nosso carro está pronto!…”

  Enquanto o homem semi-embriagado

  Guarda o pequeno ao lado,

  Ouve-se um tiro e o pobre tomba e geme…


  15 Despertam servidores,

  Distanciam-se os dois sequestradores.


  16 No piso do jardim, faz-se enorme alarido.

  A governanta chega… O velho é conhecido,

  É o mendigo que ali espera esmola,

  O mesmo que a criança alivia e consola…


  17 Nisso, o casal regressa à casa.

  Um empregado descreve o acontecido

  Enquanto a jovem mãe abraça o filho amado,

  O dono da mansão busca ver o ferido,

  Depois, grita ao mordomo:

  “Temos aqui um herói, um amigo leal,

  Ele salvou meu filho, o anjo que conheço…

  Quero agora salvar-lhe a vida, a qualquer preço,

  No melhor hospital…”

  18 Mas o homem caído

  Nele pousou o olhar profundo

  E vendo-se a morrer, de segundo a segundo,

  Disse, calmo e sereno:

  “Meu filho, agora é tarde…

  Se algo posso pedir, guarde o nosso pequeno…”

  Depois, como quem vê nas Telas do Invisível

  Acrescentou com a voz a elevar-se de nível:

  — “Maria Clara veio… É a despedida…

  Devo hoje segui-la em outra vida…


  19 Ouvindo ali o nome

  Da mãezinha que, há muito, falecera,

  O dono da mansão, mais pálido que a cera,

  Bradou, atormentado:

  — “Quem é você? Alguém do meu passado?”


  20 O velho sente o fim,

  Estirado a gemer, no piso do jardim…

  E, no esforço supremo a que se atira,

  Na tremenda exaustão, em que ele expira,

  Diz, ainda, no pranto que lhe cai:

  — “Graças aos Céus, cumpri o meu desejo,

  Ver você junto a mim é a luz maior que eu vejo…

  Deus o abençoe, meu filho!… Eu sou seu pai!…”


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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