Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos


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Guerra Junqueiro

Abílio Guerra Junqueiro, poeta português, nascido em 1850 e desencarnado em 1923, é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras, mas o fulgor das ideias. Notável, sobretudo, pela sua veia combativa e satírica, vemos, por sua produção de agora, que os anos do além-túmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade, nas mesmas diretrizes. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romanismo se ufana de uma irreal conversão in extremis.


O PADRE JOÃO

  1 Tombava o dia:

  A luz crepuscular

  Mansamente descia

  Inundando de sombra o céu, a terra, o mar…

  O meigo padre João,

  Um puro coração,

  Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal,

  Sonhava ao pé da igreja — um templo envelhecido

  Ao lado de um vergel, esplêndido e florido —

  Sentindo dentro dalma um frio sepulcral.

  O firmamento

  Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa,

  A noite era de sonho e névoa luminosa.


  2 Padre João meditava, orando ao Deus de amor:

  Revia em pensamento

  Uma luz singular nas dobras do passado;

  Era um vulto sublime, excelso, imaculado,

  Que fazia descer o amor às multidões,

  Inflamado de fé, desatando os grilhões

  Que prendiam a alma à carne putrescível,

  Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível,

  Iluminando o mundo, iluminando a vida,

  Pensando docemente a pútrida ferida

  Da imperfeição que rói a torva Humanidade,

  Oferecendo amor em flores de bondade,

  Aos pecadores dando amigas esperanças,

  E aumentando nos bons as bem-aventuranças.

  Era o meigo Pastor irradiando a luz,

  Era o Anjo do Bem, o imáculo Jesus.


  3 O sacerdote, então,

  Comparou, meditando, a fúlgida visão

  Com aquele Cristo nu, de pau, inerte e frio,

  Imóvel dominando o âmbito vazio;

  Notando a diferença enorme, extraordinária,

  Daquela igreja fria, a ermida solitária,

  Da igreja de Jesus,

  Feita de amor e luz,

  De paz e de perdão,

  O farol da verdade ao humano coração.


  4 E viu da sua igreja o erro tão profundo,

  Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo

  Em trevas persistentes,

  Por anos inclementes

  Em séculos sem fim.

  Conhecendo no padre o gêmeo de Caim,

  Afastado da luz, fugindo aos irmãos seus,

  Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus,

  Padre João meditou nas lutas incessantes

  Sustentadas na Terra em prol da evolução,

  E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes

  De trabalho, de amor, de eterna perfeição.


  5 Sentiu seu coração em dores lacerado,

  E no sonho da luz fulgente do passado,

  Penetrou soluçando a ermida então deserta.

  Teve medo e receio, o espírito gelado,

  Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado…

  E fugindo a correr da porta semi-aberta,

  Com o coração sangrando em úlceras de dor

  Encaminhou-se ao campo, à natureza em flor.


  6 Fitou extasiado a natureza em festa,

  As árvores, a flor, os mares, a floresta,

  E como se o animasse uma chama divina,

  Despiu-se do negrume espesso da batina,

  E fitando, a chorar, o céu estrelejado,

  Encheu a solidão com as vozes do seu brado:


  7 «O Igreja! não tens a ideia que eu sonhava,

  A luz radiosa e bela, a luz eterna e rara

  Que nos vem de Jesus;

  Tua mão não conduz

  Às plagas da verdade,

  Mantendo inutilmente a pobre Humanidade

  No mal da ignorância, túrbida e falaz,

  Crestando a fé, roubando a luz, matando a paz.


  8 Torturas a verdade, endeusas a matéria,

  E transformas o padre em trapo de miséria,

  Num farrapo de sombra, exótica e execrável,

  Num fantasma ambulante em treva interminável!


  9 É um blasfemo quem crê que em teus nichos

  Guarda-se a essência pura e imácula de Deus;

  Eu vejo-O, desde a flor às luzes estelares,

  Na piedade, no amor, na imensidão dos céus!

  Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro,

  E eu quero abandonar a noite da prisão;

  Prefiro a liberdade e a vida no futuro,

  Guiando-me o farol da fúlgida Razão.

  Desprezo-te, ó torreão de séculos trevosos,

  Ruínas de maldade estúltica a cair,

  Eu quero palmilhar caminhos luminosos

  Que minhalma entrevê na aurora do porvir!»


  10 E o padre emudeceu. Submergido em pranto,

  Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo.


  11 Pairava na amplidão estranho resplendor.

  A Natureza inteira em lúcida poesia

  Repousava, feliz, nas preces da harmonia!…

  Era o festim do amor,

  No firmamento em luz,

  Que celebrava

  A grandeza de uma alma que voltava

  Ao redil de Jesus. [v. Padre João de Deus Macario]


CARIDADE

  1 Caía a noite em paz. Crepúsculo. Horas quedas.

  Horas de solidão. Pelas planícies ledas,

  A asa ruflando inquieta, os meigos passarinhos

  Recolhiam-se à pressa, em busca dos seus ninhos!

  Repousavam, tremendo, os colibris doirados;

  Pipilavam febris no beiral dos telhados,

  Reunidas no lar caricioso e terno,

  Andorinhas gentis, tardígradas do inverno.

  As árvores senhoris, despidas dos seus galhos,

  Como braços em cruz, sangrentos nos trabalhos,

  Elevavam-se ao céu silenciosas, mudas,

  Sentinelas da dor nas regiões desnudas;

  Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas;

  Os risos dos aldeões e as orações das crianças

  Casavam-se formando, em rimas soberanas,

  Os poemas de luz, que nascem das choupanas,

  Canções de oiro e de sol das almas virginais,

  Exalando, a sorrir, o aroma dos trigais;

  Almas puras, em flor, relicários da essência

  Da verdade e do amor, do amor e da inocência,

  Almas feitas de luar, de cândida frescura,

  Vivendo a vida doce, imaculada e pura,

  De quem ama a existência plácida da aldeia,

  Cujo sonho é candura e a vida uma epopeia

  De louvores à dor, de exaltações, de prantos!…

  Caía a noite em paz, por entre os negros mantos

  De espessa escuridão. Sinistramente, a Lua

  Rolava na amplidão como cabeça nua,

  Como poça de sangue, horrendamente informe…

  O silêncio pesava impressionante e enorme!


  2 Nevava quase e a treva espessa e fria,

  Era bem a visão da mágoa e da invernia;

  Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço,

  Que vibrasse, cortando, a imensidão do espaço.


  3 E eu pedia ao Criador da imensidade etérea,

  Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria,

  Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo

  Um frangalho de pão e um momento de abrigo;

  Que pusesse suas mãos benévolas e puras

  Sobre o abismo voraz de tantas amarguras;

  Que levasse o amor onde faltasse o lar,

  Onde sobrasse a angústia, onde andasse o penar.


  4 Em mim, sentia a dor dos que não têm carinhos,

  Que se vão de longada ao longo dos caminhos,

  Sem temer a hediondez das negras horas mortas,

  Pedindo a soluçar um caldo negro às portas!

  E sondava o amargor dos operários rudes,

  Filhos da obediência, anhos de mansuetudes,

  Que vão cedo ao trabalho, à lide que os consome,

  Deixando a casa entregue às penúrias da fome…

  Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre,

  O castelo real e a cabana do pobre,

  A dor que faz da Terra um ninho de infelizes,

  Que palpita nos reis, que anda nas meretrizes;

  A dor que dobra e vence as multidões ignaras,

  Que derruba os casais e come o pão das searas,

  Quando vi resplender nas bandas do ocidente

  Uma excelsa visão, que andava mansamente:

  Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios

  E no olhar a expressão de todos os martírios;

  Digna como um juiz, fulgente como a luz

  Que dimana do amor divino de Jesus!

  Seu luminoso olhar, esplêndido e profundo,

  Era como a piedade iluminando o mundo;

  Suas faces e a fronte, alvas como alabastros,

  Pareciam do alvor das estrias dos astros…

  Emitia esplendor sua túnica de arminhos,

  Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!…


  5 Quem és tu? — murmurei.

  — «Meu nome é Caridade,

  Emissária de Deus a toda a Humanidade:

  Pairo por sobre um ser resplandecente e puro,

  Como pairo a sorrir por cima de um monturo;

  Desço das vastidões dentro das horas mudas,

  Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas.

  Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas,

  Ando por toda a terra, ando por sobre as ondas

  Do oceano a rugir sob meus pés de névoa,

  Para levar a luz, e com ansiedade levo-a

  A quem, nas aflições, chama-me em altos brados

  No turbilhão de horror de todos os pecados.

  Para mim, não existe a classe, a seita e as gentes;

  Abranjo em meu amor a alma dos continentes,

  Atravesso o oceano e atravesso os países,

  Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes;

  Sou o farol da legião dos pobres sofredores,

  Levo sol, pão e luz, balsamizando as dores;

  Conduzo com avidez o lúcido estandarte

  Do bem, que ampara a dor e vela os sonhos d’arte.

  Amo o labor da ciência e amo a existência honesta

  Do ingênuo lavrador, que, em vez do sono à sesta,

  Enche com o seu trabalho as lindas manhas claras,

  E quando a tarde chega, engendra a paz das searas.

  Amo o trabalhador, como adoro as boninas

  Que se entreabrem na estrada, adornando as campinas;

  As rosas festivais das frescas alamedas,

  Que abarrotam de olor as primaveras ledas.

  Amo o goivo e o lilás, como amo o luto e a festa,

  Amo a fera bravia e as aves da floresta;

  Guardo comigo a dor, as mágoas e esperanças,

  Idolatro os senis, como idolatro as crianças.

  Vivo fora do plano imundo da matéria,

  Confortando o amargor, consolando a miséria;

  É por isso, talvez, que, comovida, eu ouço

  Do palácio o carpir e os ais do calabouço;

  Visito os hospitais, creches e orfanatos,

  Sem toques de clarins e sem espalhafatos;

  Vou ao cárcere escuro, entro nos palacetes,

  Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes.

  Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos,

  Ao pé do altar da fé, no sopé dos patíbulos;

  Oro em qualquer lugar, nas ermidas, nos montes,

  Subo da Terra ao Céu. Não conheço horizontes.

  Não conheço nações, corro do brejo aos sóis,

  Beijo um cadáver nu, como osculo os heróis.

  Nunca a lisonja fiz, nem recebo homenagens,

  Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens.

  Jamais pude escolher entre Roma e Paris,

  Não me regem as leis que regem um país.

  Minha missão é amar. Amo o templo e amo a escola,

  Amo o bem que alivia, amo o bem que consola.»


  6 «Caridade! — tornei. — Porque volves ao mundo?

  O mundo é o mesmo caos, o mesmo charco imundo.

  A Humanidade é a mesma, alma de fariseus,

  Que não te quer, nem quer o amor do próprio Deus!

  O homem não se mudou. E a tola sociedade

  É o nojento paul da criminalidade,

  Lodo fenomenal de descrença e malícia.

  Vai! consulta as prisões e consulta a polícia.

  Onde puseste a luz onde fundaste a escola,

  O homem pôs o missal, as batinas e a estola.

  Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras,

  O homem fez barregãs que se vendem nas feiras!

  Onde andaste a criar a cidade e os impérios,

  Ele fez podridões de imundos cemitérios;

  Onde criaste o ideal e a inspiração divina,

  Fez a bomba explosiva, a forca e a guilhotina.

  A sociedade vil é quase a mesma Impéria,

  Rindo na podridão, transudando a miséria.

  Morre o bem, morre o amor, causa nojo a política,

  Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica,

  Que brada sem cessar: — «Inda grita a canalha?

  Abra-se-lhe a prisão, jogue-se-lhe a metralha.

  E se alguém reclamar, há canhões na Alemanha;

  Se o canhão não chegar, há mosteiros na Espanha,

  Onde existe o grilhão dentro de escuras celas,

  Celas que são prisões, cheias de sentinelas.

  E se o povo chorar, que se açoite esse povo!

  Alguém, que reclamar, pague um tributo novo.

  Mate-se a mocidade, asfixie-se a infância,

  Propague-se impiedade, espalhe-se ignorância,

  De nada serve o livro a um povo sempre cego.

  E se a fome vier, ponha-se a honra ao prego.

  Para que se não veja a ruína e os cemitérios,

  Se o estrangeiro chegar — Bailes nos ministérios!

  Músicas sobre a dor, flores sobre os lameiros,

  Girândolas ao ar, honras aos forasteiros!

  Cubram sedas a lepra, aromas os fedores,

  Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!…

  Ao raiar a manhã, toque-se para a missa,

  Que esta plebe é de cães, que esta plebe é submissa.

  E esse povo infeliz dorme pelas calçadas,

  Almoça e ceia o luar, morre sob pauladas —

  E à podre sociedade é igual a religião,

  Que encarcera o ideal dentro da Inquisição!

  Principalmente Roma, a esta nada escapa,

  Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa:

  Jesus amava a luz, o Papa o oiro vil,

  Jesus amava o pobre, o Papa a Rotschild!

  Que queres, Caridade? o mundo é sempre assim,

  Sacrifica um Abel para aceitar Caim!»


  7 — «Antes de tudo, amigo, eu não sei, não discuto:

  Eu só quero saber onde há miséria e luto.

  Raciocina, poeta!


  8 A alma da caridade

  Abomina o rumor que alimenta a vaidade;

  Para o seu labutar, toma vestes singelas;

  Para fazer o bem, corre o fecho às janelas.

  Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas;

  Não reconhece a lei que emana dos monarcas.

  Nunca soube notar, nem sabe discernir

  Qual deles foi maior, se Goethe ou Shakespeare;

  Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo,

  Se Calígula quis endeusar um cavalo;

  Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet,

  Se houve no tempo antigo uma arca de Noé;

  Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas,

  Se viveram maus reis, entre más soberanas;

  Não entende Voltaire, nem más literaturas,

  Somente lhe interessa a sorte das criaturas.

  Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas,

  Sabe somente ver as dores infinitas.

  Não vai a Roma ver o Papa que se cobre

  De fulgentes milhões para humilhar o pobre.

  Não vai à Terra Santa em peregrinações,

  Jamais toma lugar para fazer sermões.

  Passa no mundo a pé, jamais anda de sege,

  Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie.

  Nunca aos concílios foi dar suas opiniões,

  Nunca reza em latim, nunca fez procissões.

  Jamais focalizou questões eleitorais,

  E não vai desfolhar misérias nos jornais.

  Entra no lupanar, não lhe estorva a política,

  Não lhe pode abalar a opinião da critica.

  Nunca viu povoléus, nem divisa a ralé,

  Nem problemas sociais, nem dogmas de fé!

  Rejeita a excomunhão, jamais amaldiçoa,

  Sabe somente que ama e também que perdoa.

  Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos,

  Que falta o amor e o pão, água e calor nos ninhos.

  Corre, sem se cansar, desde o nascer da aurora,

  Para buscar a dor da orfandade que chora.

  Reconhece na treva a fonte dos pecados

  E abraça com carinho os grandes torturados.

  Sabe onde falta sol, onde escassa é a saúde,

  Onde se mete a flor excelsa da virtude.

  Olha sem se anojar, mágoas, misérias, dor,

  Não conhece opinião, segue a Nosso Senhor!

  Anda no Novo Mundo, corre por toda a Europa,

  Mendigando uma luz e um bocado de sopa,

  Luz para desfazer a baixeza de instintos,

  Sopa para matar a fome dos famintos.

  Foge da discussão, não está nas pelejas,

  Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas.

  Sabe amar e querer flores e passarinhos,

  Os mendigos e os reis, os palácios e os ninhos!

  Tem abnegação. Sabe rasgar o peito,

  E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito!

  Sabe o amor. Sabe o bem. A alma da caridade

  Sabe endeusar a luz e adorar a verdade.

  Vai a todo lugar, recôndito e diverso.

  Não existe num mundo. Existe no Universo.


  9 Poeta amigo, adeus! Há muito que me espera

  A imensidão da dor. Procuro a pomba e a fera.

  Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas,

  Que ouvem as tentações do beiral das estradas.

  É preciso que eu vá visitar os covis,

  Amparar o chacal, as aves e os reptis;

  Necessário é que eu siga em minhas romarias,

  Procurando os pardais, melros e cotovias.

  Vou subir a colinas e descer aos valados,

  Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados.

  Chama-me o sofredor, chama-me a orfandade,

  Necessário é lhes leve a vida e a liberdade.

  Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia,

  Desce ao antro sem paz, donde foge a alegria;

  Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda,

  Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda.

  Vai às roças louçãs nas alvoradas claras…

  Estou com o lavrador na tarefa das searas,

  Como do seu farnel, tomo o arado e a charrua,

  Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua,

  Para guiar os maus, para guiar felizes;

  Minha missão é amar os vermes e os países!…»


  10 Muito tempo passara e a noite inda era escura.

  Noite de neve atroz, noite de desventura!

  Foi-se a linda visão, dissipando as neblinas,

  Repartindo o seu pão de carícias divinas.


  11 Tudo voltou à paz silenciosa e calma!…

  O inverno e o pesar; e aos olhos da minhalma,

  O mundo famulento, a Terra, parecia

  O planeta da sombra e a mansão da agonia!


ROMARIA

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  1 Não sabeis, não sabeis, filhas que adoro tanto,

  Calcular a extensão de tantas amarguras,

  Existências em flor, fustigadas de pranto,

  Lírios no lamaçal das grandes desventuras…


  2 Almas na escuridão da noite sem aurora.

  Corpos de podridão, urnas de lama e pus,

  Anjos açucenais que a miséria devora,

  Pobrezitos sem pão, esquálidos e nus.


  3 No entanto, há aroma e luz na beira dos caminhos,

  Cantos de rouxinóis, árvores, fruto e flor,

  Harmonias sutis, que se evolam dos ninhos

  Dourados pelo sol d’alvorada do amor!


  4 Mocidade no Abril resplandecente e loiro

  De noivado e canção das almas virginais;

  Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro,

  Como as aves gracis em voos nos trigais.


  5 A alegria taful das manhãs harmoniosas

  Em que Maio desfolha os cravos e os jasmins,

  Espargindo dos céus as glicínias formosas,

  Na esmeraldina cor do colo dos jardins!


  6 E Deus que fez o Sol e a candura das crianças,

  Fez também o soluço e a lágrima dorida,

  E se fez a bondade envolta de esperanças,

  Criou a dor clareando a escuridão da vida.


  7 Há risos e esplendor e há prantos, filhas minhas,

  Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes

  De almas torvas e vis, misérrimas, mesquinhas,

  Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!…


  8 A lágrima da dor é estrela que transluz,

  Um coração que sofre é chama que se eleva

  Da túrbida hediondez dos pantanais da treva,

  Às regiões da glória intérmina da luz.


  9 Sobre o escuro, porém, das lepras mal cheirosas,

  Paira o clarão do amor, edênico e sem par,

  Que liga o verme ao mar, que une a pomba às rosas,

  Que o grão de areia une ao roble secular.


  10 O amor que fraterniza, o amor que dá saúde,

  Que irmana a fera e a rosa, as aves e os chacais,

  Que faz da Caridade a flama da Virtude,

  Que sublime conduz aos planos celestiais.


  11 Filhas que Deus me deu, vinde alegres, comigo,

  Vinde comigo ver a dor dos desgraçados

  Que chorando se vão, sem pátria e sem abrigo,

  Cheios de sânie e pus, com os corpos cancerados.


  12 Aproveitemos, pois, esta hora calma e mansa,

  Em que há músicas no ar e olores nas estradas,

  Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança,

  Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas.


  13 Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas,

  Perpassam colibris, chilreia a passarada,

  Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas,

  Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada!


  14 Partamos nós, também, por este mundo afora,

  Nutrindo o coração na fonte da esperança,

  Dando consolo à dor, à treva a luz da aurora,

  A paz à guerra e à luta os lírios da bonança.


  15 Conduzamos conosco a luz da Caridade,

  Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos,

  Ofertando com amor a toda a Humanidade

  Esse pão divinal que é dos trigais divinos.


  16 Espalhemos a Fé, a Caridade e a Crença,

  Tenhamos a noss’alma em delubros de luz,

  E acharemos no fim da romaria imensa,

  O sol primaveril da graça de Jesus!


ETERNA VÍTIMA

  1 Na silenciosa paz do cimo do Calvário

  Ainda se vê na cruz o Cristo solitário.


  2 Vinte séculos de dor, de pranto e de agonia,

  Represam-se no olhar do Filho de Maria.


  3 Abandonado e só na aridez da colina,

  Sofre infindo martírio a vítima divina;


  4 Açoitado, traído e calmo, silencioso,

  Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso.


  5 Dois mil anos de dor, e os seus cruéis algozes

  Passaram sem cessar como chacais ferozes.


  6 Caravanas de reis nos tronos passageiros,

  Exaltados na voz das trompas dos guerreiros;


  7 Os lendários heróis no dorso dos corcéis,

  Inscrevendo com fogo as máximas das leis.


  8 Cavalheiros gentis, valentes brasonados,

  Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados,


  9 Viram-no seminu, na cruz, ensanguentado,

  E puseram-se a rir do louco supliciado!


  10 O Cristo continuou, humilde e silencioso,

  Espraiando na Terra o seu olhar piedoso.


  11 Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos

  Olharam-no também, partindo como tantos.


  12 Artistas e histriões, poetas e trovadores,

  Castelãs juvenis, turbas de gozadores.


  13 Inda vieram; depois, aqueles que em seu nome

  Espalharam a treva, o pranto, a guerra e a fome.


  14 Desolação e horror, mataram-se os irmãos,

  Lobos, tigres, chacais, na capa dos cristãos.


  15 Contemplaram Jesus no cume da colina,

  Multiplicando a guerra, as lutas e a chacina.


  16 O Mestre prosseguiu, sublime e silencioso,

  Espraiando na Terra o seu olhar piedoso.


  17 E na época atual a caravana estranha

  Estaca no sopé da árida montanha;


  18 Mas os soberbos reis e césares antigos,

  Hoje mais nada são que míseros mendigos;


  19 Os nobres doutro tempo, agora transformados

  Nos párias do amargor, nos grandes desgraçados,


  20 Agora veem, sim, no topo do Calvário,

  O sacrifício e a dor do eterno visionário,


  21 Bradando com furor: — «Socorre-nos Jesus!

  Que possamos vencer a dor em nossa cruz.


  22 Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição,

  Temos fome de paz e sede de perdão!»


  23 E o Mestre da bondade, o anjo da virtude,

  Estende o seu perdão cheio de mansuetude.


  24 E do cimo da cruz, calmo e silencioso,

  Consola a multidão com o seu olhar piedoso.


A UM PADRE

(Versos a um agressor do Espiritismo)


  1 Ó padre lutador, procurai santamente

  Apregoar ao mundo herético e descrente

  Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja!


  2 A árvore do progresso, esplêndida, viceja.

  A Ciência caminha a passos de gigante

  Para se unir à Fé, operosa e triunfante.

  É preciso instalar a Inquisição de novo,

  Contendo a aspiração indômita do povo,

  De saber a verdade acerca do Destino.


  3 Proclamai, proclamai o dogma divino!

  Fazei bulas, torcei as leis, trazei Loiolas,

  Ensinai catecismo em todas as escolas;

  Ponde sobre a esperança o inferno que flameja,

  Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja!

  Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa

  Que enviou para o mundo os bergantins do papa,

  Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno.

  Comei Jesus no pão refogado em falerno;

  Formai sob a batina as gerações vindoiras,

  Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras,

  Cortai a asa de luz de toda liberdade,

  Afogai na descrença a pobre Humanidade,

  Multiplicai no mundo as vossas benzeduras,

  Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras!


  4 Teologicamente, anatematizai

  Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai,

  Ponde em cada recanto um novo Torquemada,

  E um trapo de batina ao pé de cada estrada;

  Fazei autos-de-fé, pregai probabilismos

  Dentro das ilações e dos anacronismos,

  Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos,

  Esquecei sobre a lama os pobres indefesos.


  5 Transformai todo templo em balcão de bentinhos,

  Com representações em todos os caminhos;

  Interpretai Jesus no prisma do interesse,

  Traficai com o altar, vendei o ensino e a prece,

  Anatematizai todas as heresias;

  Aprovai, aplaudi as grandes simonias,

  Porque, em verdade, são como crimes sagrados

  E a estola de um sacrista é isenta de pecados.


  6 Incensai Harpagões, absolvei magnatas,

  Entre encomendações, discursos, sermonatas;

  Lembrai a Inquisição e a história do papado,

  Retende na memória os erros do passado.


  7 Lede com desassombro o intrépido Barônio,

  Sem o medo pueril do inferno e do demônio,

  E vinde proclamar ao mundo fariseu

  Que somente na Igreja há sendas para o Céu;

  Só a Igreja possui a santa autoridade,

  Dentro das presunções da infalibilidade.


  8 Sobre o luxo gritai no púlpito florido,

  Gritai que o mundo está perverso e corrompido.

  Escrevei com furor contra as guerras tigrinas,

  A abençoar fuzis, metralhas, carabinas,

  A discórdia infundi! Nutri regionalismos.

  Incentivai com ardor os rubros fanatismos.


  9 Se puderdes, irmão, armai nova fogueira

  A quem asseverar que o Papado é uma feira

  Onde Deus é um cifrão e onde se negocia

  A bênção de Jesus, e a bênção de Maria;

  Onde a verdade está sob as cavilações

  Dos círculos hostis de torpes convenções!

  Praticai e afirmai ainda mais do que isto.

  Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo…


  10 Mas, ouvi minha voz impávida e serena!…

  Fazendo-vos ouvir, tomando a vossa pena,

  Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro.

  Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro

  Da calúnia que fere o coração mais rude,

  Da mentira que, enfim, não alcança a virtude,

  Que traz, porém, consigo o vírus que envenena!…


  11 Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena.


  12 A luta da verdade, a luta das ideias,

  É feita nos clarões das grandes epopeias,

  Abrindo o coração ao nobre sacrifício;

  Cada gesto leal é sublime interstício

  Por onde a luz penetra em jorros cristalinos,

  Clareando o porvir ignoto dos destinos.


  13 Criar uma ficção e excomungar de oitiva,

  É próprio das paixões e próprio da inventiva.

  Nunca vos entregueis a tanto despautério,

  Jamais enxovalheis o vosso ministério.


  14 Acostumai-vos, pois, ao sol que tudo aclara;

  Deixai a insensatez dos clérigos, da tiara,

  Abandonai a treva e vinde para a luz!

  Aprendei muito mais do exemplo de Jesus.


  15 Olvidai convenções, congregações, papado,

  Que a Verdade jamais se vende no mercado.


“UM QUADRO DE QUARESMA”

  1 Entre lamentações e estrídulas matracas,

  Num cenário infantil, feito de gesso e lacas,

  Representa-se a peça antiga da quaresma…


  2 O pobre Senhor-Morto, um pálido abantesma,

  Talhado de encomenda, em tinta espessa e forte,

  Dorme grotescamente o sono dessa morte

  De teatro burlesco, anual, que se repete,

  Como as grandes funções do entrudo e do confete.


  3 Imóvel, sob a luz esdrúxula das tochas

  Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas,

  É o ator da paixão, a vítima e comparsa

  Do Papa, o explorador santíssimo da farsa,

  Paródia de uma dor sublime e incomparável,

  Filha da estupidez bisonha e condenável,

  Que a Igreja representa, arrecadando esmolas,

  Com latim, cantochãos, bandeiras e sacolas.


  4 A função quaresmal prossegue. A multidão

  Espera com ansiedade o clássico sermão.

  Numa fantasmagoria esplêndida de aroma

  Dos incensos do altar, sobre o púlpito assoma

  Uma figura heril de abade gordo e enorme

  Coquelin tonsurado, obeso, desconforme,

  Que grita com estentor:


  5 «Caríssimos irmãos!

  Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos.

  Fora das concepções altíssimas da Igreja,

  Existe tão somente o Inferno que despeja

  O mal e as tentações no espírito perdido;

  Rezai! que atualmente o mundo pervertido

  Pretende esfacelar os dogmas romanos,

  Sentinelas da fé, há quase dois mil anos!


  6 Não busqueis progredir nas coisas transcendentes,

  Porque o Papa é senhor de céus e continentes

  E o Sílabus proíbe a evolução de tudo!


  7 Eu só vos peço a fé, porquanto a fé é o escudo

  Que vos há-de livrar dos gênios tentadores.

  Evitai conviver com os livres pensadores!

  A análise conduz à escuridão do Averno,

  Voltaire e Galileu são ministros do Inferno,

  Calvino, Comte, Wesley, seus embaixadores;

  Das chamas infernais, criaturas inferiores

  Dirigem, certamente, o espírito moderno.


  8 Precisais cultivar o nosso dogma eterno,

  De eterna submissão ao Papa que é infalível.

  Toda ordem de Roma é boa e indiscutível.

  É preciso antepor, a toda a Humanidade,

  Sentimentos de fé e catolicidade.


  9 Necessário se faz prender quem raciocine.

  Reformistas quaisquer?… Satanás que os fulmine.

  A falta de fervor tem feito heresiarcas,

  Tem até corrompido os padres e os monarcas.

  Obedecei a Igreja em sua Santidade,

  Que é o traço de união do arcano da Trindade.


  10 O dogma é uma lei benigna e sublime,

  Sofismá-lo, enformá-lo, é cometer um crime.


  11 A Humanidade está sob o império do demo;

  Oremos pelo mundo em desconforto extremo.


  12 Vivei, caros irmãos, em santa penitência;

  As mortificações recebem da indulgência

  Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude.

  Sede firmes na fé, contentes na virtude,

  Amando a caridade, a humilde singeleza,

  Como Jesus amou a glória da pobreza!»


  13 Condenando a Ciência, a Luz, a Liberdade,

  E abominando o Cristo, o Senhor que ele esquece,

  Terminou a oração, rogando que se desse

  Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade.


  14 Com um aceno abençoou, segundo o gesto em uso,

  Resmungando um latim exótico e confuso;

  E depois de exercer seu santo ministério,

  Procurou lestamente o calmo presbitério.

  Aguardava-o o jantar de finas iguarias:

  Pratos de ostentação, recheios, ambrosias,

  Licores, moscatéis, confeitos, doces raros,

  Opíparo jantar regado a vinhos caros.


  15 E após se abastecer pantagruelicamente,

  Em paz sacramental, seu cérebro indolente

  Desejou meditar nas cenas do Calvário…


  16 Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário.

  Terminada que foi a sacra pantomima,

  Esquecido Jesus, olvidou-lhe a doutrina.


  17 Sereno, adormeceu sem pensar que pusera

  Em cada coração um coração de fera,

  Com o seu rubro sermão, cavando um negro abismo,

  Propagando a cegueira, a guerra e o fanatismo.


  18 Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo,

  Dos atos a lição, da caridade o templo,

  Sem artigos de fé, sem bispo e vaticano.

  Não se lembrou que houvera o bom samaritano,

  Porque a verdade pura, o lídimo evangelho,

  Era um livro escurril, inadequado e velho.


  19 Da doutrina cristã, a sacrossanta essência

  Ficou em pregação de mágica eloquência.

  Jesus apenas fora a máscara piedosa,

  Para tanta extorsão impune e criminosa.


  20 Por isso, ó meus irmãos do altar e da batina,

  A Igreja que foi pura e que já foi divina,

  Morre sem remissão de horrível carcinoma,

  Nos pântanos letais e lúgubres de Roma,

  Lá onde a cupidez fatídica se entrapa

  E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa!


Guerra Junqueiro


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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