Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Nos domínios da mediunidade — André Luiz


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Dominação telepática

(Sumário)

1. Dispúnhamo-nos à despedida, quando simpática senhora desencarnada abeirou-se de nós, cumprimentando o Assistente com respeitosa afetividade.

2 Áulus incumbiu-se da apresentação.

— É a irmã Teonília, uma de nossas diligentes companheiras no trabalho assistencial.

3 A nova amiga correspondeu-nos às saudações com gentileza e explicou ao nosso orientador o objetivo que a trazia.

4 Contou, então, que Anésia, devotada companheira da instituição em que nos achávamos, sorvia o fel de dura prova.

Além das preocupações naturais com a educação das três filhinhas e com a assistência imprescindível à mãezinha doente, em vésperas de desencarnação, sofria tremenda luta íntima, de vez que Jovino, o esposo, vivia agora sob a estranha fascinação de outra mulher. Esquecera-se, invigilante, das obrigações no santuário doméstico. Parecia, de todo, desinteressado da companheira e das filhas. Como que voltara às estroinices da primeira juventude, qual se nunca houvesse abraçado a missão de pai.

Dia e noite, deixava-se dominar pelos pensamentos da nova mulher que o enlaçara na armadilha de mentirosos encantos.

Em casa, nas atividades da profissão ou na via pública, era ela, sempre ela a senhorear-lhe a mente desprevenida.

Transformara-se o mísero num obsidiado autêntico, sob a constante atuação da criatura que lhe anestesiava o senso de responsabilidade para consigo mesmo.

5 Não poderia Áulus interferir?

Não seria justo afastar semelhante influência, como se extirpa uma chaga com o socorro operatório?

6 O Assistente ouviu-a com calma e falou, conciso:

— Conheço Anésia e nela estimo admirável irmã. Há meses, não disponho de oportunidade para visitá-la como venho desejando. Decerto, não me negarei ao concurso fraterno, entretanto, não será conveniente estabelecer medidas drásticas sem uma auscultação do caso em si. 7 Sabemos que a obsessão entre desencarnados ou encarnados, sob qualquer prisma em que se mostre, é uma enfermidade mental, reclamando por vezes tratamento de longo curso. 8 Quem sabe se o pobre Jovino não estará na condição de um pássaro hipnotizado, não obstante o corpanzil que lhe confere aparências de robustez no Plano físico?

9 — Do que posso perceber, — anotou a interlocutora, — vejo tão somente um homem comprometido em trabalho digno, ameaçado por perversa mulher…

— Oh! não! — Atalhou o nosso instrutor condescendente, — não a classifique com semelhante adjetivação. Acima de tudo, é imperioso aceitá-la por infeliz irmã.

10 — Sim, sim… concordo, — exclamou Teonília, reajustando-se. — De qualquer modo, rogo-lhe a caridosa intercessão. Anésia tem sido uma colaboradora providencial em nossa tarefa. Não me sentiria satisfeita, cruzando os braços…

— Faremos quanto se nos afigure viável no círculo de nossas possibilidades, contudo, é imprescindível analisar o passado para concluir sobre as raízes da ligação indébita a que nos reportamos.

11 E, imprimindo grave tonalidade à voz, o Assistente enunciou:

— Estará descendo Jovino a impressões do pretérito? Não será uma provação que o nosso amigo terá traçado à própria consciência, com finalidade redentora, e à qual não sabe agora como resistir?

12 Teonília esboçou um gesto de humildade silenciosa, enquanto Áulus rematava, afagando-lhe os ombros:

— Guardemos otimismo e confiança. Amanhã, à noitinha, conte conosco no lar de Anésia. Sondaremos, de perto, quanto nos caiba fazer.

Nossa amiga, expressou reconhecimento e despediu-se sorrindo.


2. A sós conosco, durante o regresso ao nosso templo de trabalho e de estudo, Áulus salientou a nossa oportunidade de prosseguir observando. 2 O assunto prendia-se naturalmente a problema de influenciação e teríamos ensejo de examinar fenômenos mediúnicos importantes, na esfera vulgar da experiência de muitos.

3 Com efeito, em momento preestabelecido, reunimo-nos no dia seguinte para a excursão programada.

Atingimos a estação de destino ao anoitecer.

Teonília aguardava-nos no pórtico de domicílio confortável, sem ser luxuoso.

Pequeno roseiral à entrada dizia sem palavras dos belos sentimentos dos moradores.

Guiados por nossa amiga, alcançamos o interior doméstico.

4 A família entregava-se à refeição.

Uma senhora jovem servia atenciosamente a um cavalheiro maduro e bem-posto, ladeado por três meninas, das quais a mais moça revelava a graça primaveril dos catorze a quinze anos.

5 Claro que o entendimento da véspera dispensava novas informações. Áulus, no entanto, esclareceu, minucioso:

— Anésia e Jovino acham-se aqui com as filhinhas Marcina, Marta e Márcia.

6 A palestra familiar desdobrava-se afetuosa, mas o dono da casa parecia contrafeito. Doces apontamentos das meninas não lhe arrancavam o mais leve sorriso. Contudo, enquanto o genitor timbrava em mostrar-se aborrecido, a mãezinha se fazia mais terna e mais contente, incentivando a conversação das duas filhas mais velhas que comentavam episódios humorísticos do bazar de quinquilharias em que trabalhavam juntas.

7 Findo o jantar, a senhora dirigiu-se à mais moça e recomendou com carinho:

— Márcia, minha filha, volte à vovó e espere por mim. Nossa doente não deve estar a sós.

A pequena obedeceu de bom grado e, transcorridos alguns instantes, Marcina e Marta demandaram sala próxima, em palestra mais íntima.

8 Dona Anésia reajustou a copa e a cozinha, operando em silêncio, enquanto o marido se esparramava numa poltrona, devorando os jornais vespertinos. Reparando, todavia, que o esposo se levantara para sair, endereçou-lhe olhar inquieto e indagou, delicadamente:

— Poderemos, acaso, esperar hoje por você?

— Hoje? Hoje?… — Redarguiu o interlocutor, sem fixá-la.

9 E o diálogo prosseguiu, animadamente.

— Sim, um pouco mais tarde; faremos nossas preces em conjunto…

— Preces? Para que isso?

— Sinceramente, Jovino, creio no poder da oração e suponho que nunca precisamos tanto como agora de usá-la em favor de nossa tranquilidade doméstica.

— Não concordo com a sua opinião.

10 E, sarcástico, a exibir estranho sorriso, continuou:

— Não disponho de tempo para lidar com os seus tabus. Tenho compromissos inadiáveis. Estudarei, junto de amigos, excelente negócio.

11 Nesse instante, contudo, surpreendente imagem de mulher surgiu-lhe à frente dos olhos, qual se fora projetada sobre ele a distância, aparecendo e desaparecendo com intermitências.

Jovino fez-se mais distraído, mais enfadado.

Fitava agora a esposa com indiferença irônica, demonstrando inexcedível dureza espiritual.

12 Intrigados com o fenômeno sob nossa vista, ouvimos Anésia que, enlaçada por Teonília, dizia quase suplicante:

— Jovino, você não concorda que temos estado mais ausentes um do outro, quando precisamos estar mais juntos?

— Ora, ora! Deixe de pieguices! Sua preocupação seria própria, há vinte anos, quando não éramos senão tolos colegiais!

13 — Não, não é bem isso… Inquietam-me nosso lar e nossas filhas…

— De minha parte, não vejo como torturar-me. Creio que a casa está bem provida e não estou dormindo sobre nossos interesses familiares. Meus negócios estão em movimento. Preciso de dinheiro e, por essa razão, não posso perder tempo com beatices e petitórios, endereçados a um Deus que, sem dúvida, deve estar muito satisfeito em morar no Céu, sem lembrar-se deste mundo…

14 Anésia dispunha-se a revidar, no entanto, a atitude do marido era tão flagrantemente escarnecedora que, decerto, julgou mais oportuno silenciar.

O chefe da família, depois de apurar o nó da gravata vivamente colorida, bateu a porta estrepitosamente sobre os próprios passos e retirou-se.

15 A companheira humilhada caiu em pranto silencioso sobre velha poltrona e começou a pensar, articulando frases sem palavras:

— “Negócios, negócios… Quanta mentira sobre mentira! Uma nova mulher, isso sim!… Mulher sem coração que não nos vê os problemas… Dívidas, trabalhos, canseiras! Nossa casa hipotecada, nossa velhinha a morrer!… Nossas filhas cedo arremessadas à luta pela própria subsistência!”


3. Enquanto as reflexões dela se faziam audíveis para nós, irradiando-se na sala estreita, vimos de novo a mesma figura de mulher que surgira à frente de Jovino, aparecendo e reaparecendo ao redor da esposa triste, como que a fustigar-lhe o coração com invisíveis estiletes de angústia, porque Anésia acusava agora indefinível mal-estar.

2 Não via com os olhos a estranha e indesejável visita, no entanto, assinalava-lhe a presença em forma de incoercível tribulação mental. De inesperado, passou da meditação pacífica a tempestuosos pensamentos.

3 — “Lembro-me dela, sim, — refletia agora em franco desespero, — conheço-a! É uma boneca de perversidade… Há muito tempo vem sendo um veículo de perturbação para a nossa casa. Jovino está modificado… Abandona-nos, pouco a pouco. Parece detestar até mesmo a oração… Ah! que horrível criatura uma adversária qual essa, que se imiscui em nossa existência à maneira da víbora traiçoeira! Se eu pudesse haveria de esmagá-la com os meus pés, mas hoje guardo uma fé religiosa, que me forra o coração contra a violência…”

4 À medida, porém, que Anésia monologava intimamente em termos de revide, a imagem projetada de longe abeirava-se dela com maior intensidade, como que a corporificar-se no ambiente para infundir-lhe mais amplo mal-estar.

5 A mulher que empolgava o espírito de Jovino ali surgia agora visivelmente materializada aos nossos olhos.

E as duas, assumindo a posição de francas inimigas, passaram à contenda mental.

Lembranças amargas, palavras duras, recíprocas acusações.

A esposa atormentada passou a sentir desagradáveis sensações orgânicas.

O sangue afluía-lhe com abundância à cabeça, impondo-lhe aflitiva tensão cerebral.

Quanto mais se lhe dilatavam os pensamentos de revolta e amargura, mais se lhe avultava o desequilíbrio físico.

6 Teonília afagou-a, carinhosa, e informou ao nosso orientador:

— Há muitas semanas diariamente se repete o conflito. Temo pela saúde de nossa companheira.

7 Áulus deu-se pressa em aplicar-lhe recursos magnéticos de alívio e, desde então, as manifestações estranhas diminuíram até completa cessação.

8 Efetivado o reajustamento relativo de Anésia e percebendo-nos a curiosidade, o Assistente esclareceu:

— Jovino permanece atualmente sob imperiosa dominação telepática, a que se rendeu facilmente, e, considerando-se que marido e mulher respiram em regime de influência mútua, a atuação que o nosso amigo vem sofrendo envolve Anésia, atingindo-a de modo lastimável, porquanto a pobrezinha não tem sabido imunizar-se com os benefícios do perdão incondicional.


4. Hilário, intrigado, perguntou:

— Examinamos, porém, um fenômeno comum?

2 — Intensamente generalizado. É a influenciação de almas encarnadas entre si que às vezes, alcança o clima de perigosa obsessão. 3 Milhões de lares podem ser comparados a trincheiras de luta, em que pensamentos guerreiam pensamentos, assumindo as mais diversas formas de angústia e repulsão.

4 — E poderíamos enquadrar o assunto nos domínios da mediunidade?

— Perfeitamente, cabendo-nos acrescentar ainda que o fenômeno pertence à sintonia. Muitos processos de alienação mental guardam nele as origens. 5 Muitas vezes, dentro do mesmo lar, da mesma família ou da mesma instituição, adversários ferrenhos do passado se reencontram. Chamados pela Esfera Superior ao reajuste, raramente conseguem superar a aversão de que se veem possuídos, uns à frente dos outros, e alimentam com paixão, no imo de si mesmos, os raios tóxicos da antipatia que, concentrados, se transformam em venenos magnéticos, suscetíveis de provocar a enfermidade e a morte. 6 Para isso, não será necessário que a perseguição recíproca se expresse em contendas visíveis. Bastam as vibrações silenciosas de crueldade e despeito, ódio e ciúme, violência e desespero, as quais, alimentadas, de parte a parte, constituem corrosivos destruidores.


5. Finda ligeira pausa, o Assistente continuou:

2 — O pensamento exterioriza-se e projeta-se, formando imagens e sugestões que arremessa sobre os objetivos que se propõe atingir. n 3 Quando benigno e edificante, ajusta-se às Leis que nos regem, criando harmonia e felicidade, todavia, quando desequilibrado e deprimente, estabelece aflição e ruína. 4 A química mental vive na base de todas as transformações, porque realmente evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles encarnados ou desencarnados que se afinam conosco.


6. — E como solucionar o problema da antipatia contra nós? — Indagou meu companheiro com interesse.

2 Áulus sorriu e respondeu:

— A melhor maneira de extinguir o fogo é recusar-lhe combustível. 3 A fraternidade operante será sempre o remédio eficaz, ante as perturbações dessa natureza. 4 Por isso mesmo, o Cristo aconselhava-nos o amor aos adversários, o auxílio aos que nos perseguem e a oração pelos que nos caluniam, ( † ) como atitudes indispensáveis à garantia de nossa paz e de nossa vitória.

5 Nesse instante, porém, Anésia consultara o relógio e reerguera-se.

Vinte horas.

Era o momento preciso de suas preces junto da mãezinha doente, e acompanhamo-la, atenciosos, a fim de igualmente orarmos.


André Luiz



[1] [Vide: Formas-pensamentos.]


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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