Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

Índice Página inicial Próximo Capítulo

Cartas de uma morta — Maria João de Deus


5


A Terra, obscuro planeta de exílio e de sombra, vista do Além

(Sumário)

1 Após adaptar-me mais ou menos a essa nova vida, ocorreu-me como vos poderia rever e solicitei de um instrutor informação a respeito.

— “Sabes em que direção está a Terra?” — perguntou ele com bondade.

Diante da minha natural ignorância, apontou-me com a destra um ponto obscuro que se perdia na imensidade, recomendando fitá-lo atentamente. Afigurou-se-me vê-lo crescer dentro de um turbilhão de sirocos indescritíveis. Parecia-me contemplar a impetuosidade de um furacão a envolver grande massa compacta de cinzas enegrecidas.

Tomada de inusitado receio, desviei o olhar; porém, o meu solícito guia, exclamou com brandura:

— “Lá está a Terra com os seus contrastes destruidores; os ventos da iniquidade varrem-na de pólo a pólo, entre os brados angustiosos dos seres que se debatem na aflição e no morticínio. O que viste é o efeito das vibrações antagônicas, emitidas pela humanidade atormentada nas calamidades da guerra. Lá alimentam-se as almas com a substância amargosa das dores e sobre a sua superfície a vida é o direito do mais forte. Triste existência a dessas criaturas que se trucidam mutuamente para viver.

“São comuns, ali, as chacinas, a fome, as epidemias, a viuvez, a orfandade que aqui não conhecemos… Obscuro planeta de exílio e de sombra! Entretanto, no universo, poucos lugares abrigarão tanto orgulho e tanto egoísmo! Por tal motivo é que esse mundo necessita de golpes violentos e rudes.

“Busca ver naquelas regiões ensanguentadas o local em que estiveste. Pensa nos que lá deixaste, cheios de amargurosa saudade! Deus permite e eu te auxilio.”


O regresso espiritual ao lar terreno


2 Delineei, então, na mente, tudo quanto se relacionava com a minha derradeira existência. Primeiramente, vi-me à margem de uma encantadora paisagem marítima avistando um caminho longo, através do qual fui impelida a seguir.

Sentia-me na posse das faculdades volitivas, que obtivera com o meu desprendimento da vida carnal, e, numa fração infinitésima de tempo, estava ao vosso lado.

Ah! Como vos abracei a todos, emocionada e recolhida! Como achei pequenino o nosso antigo lar e como me penalizou o quadro das vossas dores e dificuldades!

Chorei amargamente vendo a miséria do mundo que vos compele ao sofrimento e a uma batalha sem tréguas!…

Então misturei, com a prece dos encarnados, sofredores e aflitos, a oração de minha alma amedrontada, rogando ao Pai Celestial que vos fortificasse na luta redentora, onde, ao lado dos inúmeros prantos e das alegrias mascaradas, esvoaça o bando das mil tentações que assediam os Espíritos no ambiente obscuro da vida carnal, obrigando-os ao esquecimento de seus deveres e de suas austeras obrigações morais.


Os desencarnados na guerra


3 A grande dificuldade dos desencarnados, para se fazerem compreendidos no tocante às modalidades da nova existência com todos os seus pormenores, reside justamente na ausência de termos comparativos: falta-lhes, em se manifestando nesse sentido, a lei analógica a fim de que se possa assimilar devidamente o que digam.

Para darmos a ideia do que seja a nossa vida e os detalhes da nossa habitação, muitas vezes é preciso que recorramos às imagens que a Terra nos oferece, a tudo quanto o homem, em sua situação temporária, tem guardado na retina.


Construções e ambientes de transição que lembram os da Terra


4 Nos Planos adjacentes ao mundo, contudo, a vida espiritual transcorre em ambiente semelhante ao da vida terrena.

Suas construções, à base de uma substância para nós desconhecida, têm, mais ou menos, as disposições que aí se observam; todavia, nas menores coisas, há um caráter de transição, obrigando o Espírito a elevar suas aspirações e seus interesses para o Alto.

Nos locais em que me encontrava temporariamente, muitos departamentos haviam que se preparavam às pressas. Decorações, ornamentos, objetos, tudo ali se achava e se confundia, dando perfeita ideia de grandes estabelecimentos hospitalares cuidadosamente organizados.


A chegada, no Além, dos desencarnados na guerra


5 Surpreendida, vim a saber que os preparativos se destinavam aos recém-desencarnados da última grande guerra; n e não foi ainda sem surpresa que vi chegarem os primeiros ocupantes daqueles alvos leitos, que se perdiam nas vastas enfermarias, graciosas e confortáveis, não sabendo explicar por que razão havia necessidade daquele cenário, mundano em demasia, onde nada faltava, nem mesmo os instrumentos de técnica operatória.

De instante a instante eis que chegava uma leva de macas, conduzidas por almas solícitas e devotadas.

Se muitos hospitais de sangue são preparados na Terra, nos infaustos dias de lutas fratricidas, mais ainda são as organizações congêneres nos Planos da erraticidade. Nem todos, porém, que desencarnam, abrigam-se em semelhantes lugares, havendo situações especiais, privativas àqueles que a elas fizeram jus.


A carinhosa recepção


6 Admirei a delicadeza com que os seres espiritualizados recebiam os seus irmãos egressos dos combates, onde centenas de vidas jovens foram ceifadas impiedosamente. Eram, assim recolhidos com a maior bondade, como se fossem feridos penetrando nos hospitais comuns da Terra.


O derradeiro apelo da vida material


7 Muitos dos que ali ingressavam, manifestavam o seu pavor à morte, rogando em altos brados que os livrassem de perecer. Solicitavam aos que os assistiam socorro e auxílio, suplicando que lhes prolongassem a vida em favor da noiva idolatrada, dos pais carinhosos e queridos, dos seres inesquecíveis que haviam ficado à mercê do abandono e do infortúnio.

Era para mim, singularmente interessante, ouvir-lhes essas rogativas, porquanto desconhecia ainda todo o poder somático sobre a inteligência recém-desencarnada.


A convalescença dos desencarnados


8 Eram todos tratados com inexcedível carinho e as suas amargas queixas obtinham réplicas afetuosas e animadoras promessas.

Alimentação e tratamento tudo se assemelhava estritamente ao que se pode verificar na face do orbe, até mesmo certas bagatelas que constituíam motivos de prazer para alguns, como o uso do tabaco ou de beberagens preferidas.

Tudo ali era confeccionado por entidades zelosas a fim de que se preparassem convenientemente para o conhecimento do que ocorria. Paulatinamente recuperavam suas forças perdidas; e os que se mantinham num estado, que podemos classificar como o de convalescença, eram separados dos demais companheiros.


Primeiras noções do Além


9 Recebiam, então, vaga noção da verdade, observando fenômenos interessantes, operados por sua vontade sobre as matérias circunstantes, cuja maleabilidade os assombrava.

Esclarecidos mestres, frequentemente, lhes dirigiam a palavra como apóstolos da paz, em excursão nos departamentos militares.


Que é a vida senão amor?


10 Lembro-me de que, certa vez, quando elevado mentor espiritual exaltava os benefícios da fraternidade, um dos ouvintes interpelou-o:

— “Não se pode pregar a paz em tempo de guerra!”

— “Que é a vida, meu filho, senão amor? E poderá haver amor sem paz?” — replicou-lhe docemente o apóstolo. “Foi a maldade dos homens que engendrou a guerra, dizimadora dos ideais e das existências. As fúrias da impiedade varrem quase todas as extensões da Terra e os corações se dilaceram ao sopro frio da adversidade!… Poderia Deus, em sua misericórdia, sancionar esses crimes nefandos? Para sua infinita bondade não existem franceses ou alemães: há filhos bem amados da sua sabedoria e do seu amor.”


Os mortos anônimos, o soldado desconhecido


11 Houve, porém, na grande assembleia, que ouvia aquela voz estranha, um surdo clamor de protesto.

— “Serenai o vosso ânimo!”— objetou-lhes calmamente. “Em vão levantais o vosso clamor de protesto… Ouvi-me. Tendes vós preparado convenientemente para saber a verdade. Já não podeis integrar as fileiras de combatentes que fornecem mão forte à nefasta política da incompreensão das leis divinas. Para a Terra, em cuja face presumis continuar, sois mortos anônimos, sois o soldado desconhecido. Aprouve à magnanimidade da Providência que aqui fôsseis acolhidos suavemente, sem abalos prejudiciais. Vossos corpos estão muito distantes, no regaço da Terra benfazeja, estraçalhados por forças cegas e assassinas!

“Ingressastes em outra vida. Compete-vos, portanto, esquecer os vossos dias, aniquilados pelo ódio execrando!

“Considerai a lei de amor que deve unir todas as almas como laço eterno e sacrossanto!”


Glorificação do Espírito imortal


12 Então, como se estivesse em ação um misterioso poder, a atmosfera transmutou-se, afigurando-se-me haver se rasgado grande nuvem.

Uma paisagem maravilhosa desenhou-se na imensidade: muitas mães estendiam seus braços amorosos aos filhos sempre lembrados; muitos seres caros, chorando de emoção e alegria, vinham ao encontro daqueles corações tomados de espanto e de receio.

Uma estrada florida desdobrou-se sobre as nossas cabeças e um hino vibrante se ouviu nas vibrações do éter. Era a glorificação de ventura do Espírito imortal, onde haviam sonoridades indescritíveis.

“Oh, Senhor do Universo, vós, que criaste todas as coisas, concedeste-lhes a beleza da imortalidade.

“Sede bendito por todos os séculos dos séculos, pela dor que nos redimiu e nos lavou todas as culpas, pelas lutas onde adquirimos experiência e denodo moral, pelo vosso amor intraduzível que nos legou todas as felicidades imorredouras!

“Como é grande, Senhor, o júbilo do nosso último dia na Terra, se só em vós buscávamos amparo e consolação, repouso e fortaleza, carinho e proteção!”


A suprema homenagem


13 Todas as vozes então se reuniram num coro inigualável e, naquele dia, presenciando o esclarecimento de algumas almas que daquela hora em diante, se tornaram em ativas colaboradoras da beneficência sideral, assisti uma das mais comovedoras homenagens prestadas à bondade do Criador.


.Maria João de .Deus



Nota — Referências sobre a guerra de 1914.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir