Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Caderno de mensagens — Autores diversos


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Companheiro de viagem n

(Chico fala da importância da PRIMEIRA EDIÇÃO de O Livro dos Espíritos, de 1857)

.Francisco Cândido Xavier

São Paulo, 7 de outubro de 1958.


Companheiro de viagem:
Paz, saúde e alegria.

Hoje principiei a escrever-lhe. Interrompi por motivo urgente. Mas, pouco depois, recebi sua carta registrada de 23/09/1958, com as fichas de Deolindo Guimarães e uma preciosa cópia da mensagem de EMMANUEL (20/09/1958), solicitada por mim e tão gentilmente atendida por você.

E li seu bilhete, encantador na forma, comovente no fundo, cheio de lições nas entrelinhas e de vibrações santas nas letras. Não sei como agradecer. Em mim, o agradecer é quase sempre mudo. Ante as gentilezas sem conta, os sacrifícios sem medida feitos, por você a mim, na minha estada a seu lado, como poderia o mendigo retribuir a caridade senão pela lágrima seca que se afoga no coração?

Mando-lhe pela mesma via postal, dois livros de poesias de NEYDE BONFIGLIOLI TRUSSARDI: ‘Lotus de Sete Pétalas’ e ‘Cone de Luz’. Tenho certeza que a sua sensibilidade ultrafânica pelas vibrações harmoniosas entenderá o misticismo superior dessa moça, poetisa desde menina, incompreendida pela família, isolada em si mesma, embora rodeada de fortuna e conforto pelo nascimento e casamento. Agora, médium, crente, aspirante. Quer aproximar-se do verdadeiro Mundo. Procura uma via. Ela ficaria (estou certo) encantada se você puder enviar-lhe algumas expressões depois de ‘impressionado’ pela leitura. Posso servir, gostosamente, de intermediário (caixa postal 1500).

Não devo roubar-lhe tempo, eis que é o único e mais estimável patrimônio do amigo. Dir-lhe-ei apenas que tome na melhor conta o conselho relativo ao destino ou, melhor, destinação para o arquivo confiado a mim. Desde os quinze anos eu me consagro ao Espiritismo, ao qual dou as melhores horas de minha vida. Há, portanto, meio século. E que fiz eu até hoje de útil a meu semelhante? Para não exagerar, apenas o óbolo do homem que passa pela multidão. Todos os projetos jazem em seus túmulos, pelas minhas gavetas de papéis velhos, amarelecidos pelo tempo. Às vezes impotente para aproveitar as ideias postas nas folhas envelhecidas, tenho saudades do Futuro…

Escrevi ao Mário d’Aguiar sobre os exemplares de ‘O Primeiro Livro dos Espíritos de ALLAN KARDEC, 1857’ [Le Livre des Esprits] que ainda se encontram em poder dele, em Belo Horizonte. Ser-lhe-ão enviados oportunamente para venda, na Livraria, destinando-se o produto, na totalidade, aos fins humanitários a seu cargo. Ser-lhe-ão remetidos gratuitamente. O preço de capa, em São Paulo, é de Cr$ 200,00. Tratando-se de obra preciosíssima (é de KARDEC e de o Espírito VERDADE), creio que não convém relaxar o preço, que é de ‘custo’.

Repare que é quase na metade feito de clichês caros e bilíngues. Na França, o preço de catálogo corresponde ao dobro. Essa obra, que é a verdadeira ‘revelação espírita’, ditada mecanicamente por virgens de menor idade, revista pelos Guias e controlada pelo Espírito VERDADE, ainda não foi compreendida pelos confrades que se puseram à frente do Movimento Espírita em nossa terra. ‘Doutores em Israel’, repetem Nicodemos diante do Espírito VERDADE: Desconhecem-no. Escondem o livro santo, com vergonha de o encontrar diferente daquele que veio depois, em 1860, obra codificante [que codifica] do Mestre (preciosa e utilíssima, mas simples ‘paráfrase’ do texto ‘revelado’). Para lhe citar um exemplo, na exposição dos ‘Livros Espíritas’, quer em São Paulo, quer em Curitiba, quer em Belo Horizonte, quer no Rio (para só falar das que ‘vi’ e ‘viram’ amigos meus) a obra basilar do Espiritismo foi ‘intencionalmente’ afastada, como ‘bastarda’.

De aí a razão por que hesito em escrever o segundo tomo, quase todo preparado, contendo a tradição histórica e esotérica desse LIVRO. Não ouso dizer que seria pérola em lama, mas confesso meu temor de expor a VERDADE ao apedrejamento dos que estão prontos a gritar em frente ao Pretório: — Crucifica-o!

Ainda há poucos dias, li um esplêndido trabalho de nosso ilustre confrade Zêus Wantuil, historiando o Espiritismo e ali vi transcrito, sem maldade, uma adulteração intencional da verdade para tirar de KARDEC o caráter de Missionário e furtar ao Espiritismo o seu valor substancial de ‘Revelação’. Escrevi ao autor, que não tem culpa de dar crédito a cronistas pouco escrupulosos. Mas é doloroso ver perpetuada na imprensa uma inverdade clamorosa contra o Mestre e a obra do Espírito VERDADE. O livro certamente será conhecido de você. Se a memória não me falha, a passagem errada vem à página 57, onde se fala de 50 cadernos de anônimos como base de uma ‘revelação’ que foi ditada ao Mestre diretamente.

Estou abusando de seu tempo. Perdoe-me.

Queira recomendar-me a André Luiz e à sua bondosa irmã, e receber os cumprimentos de Luce (muito grata), de Luiz, Dona Cleo, Duarte e Pedro Granja.

Sou eu mesmo, neste pensamento de leal amplexo.



[1] O original datilografado dessa correspondência encontra-se sob a custódia do Dr. Eurípedes Higino, filho adotivo do Chico.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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