Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Caminhos do amor — Maria Dolores


21


Missão de mulher

  1 Jovem prendada e linda, era a própria beleza,

  Rosa de inteligência e natureza,

  Viera de remoto povoado,

  Com tarefas de estudo e sonhos de noivado,

  E conquistara enorme simpatia…

  Fizera-se modelo e se reconhecia

  O ponto alto das exibições,

  Favorita do brilho em passarela,

  Pisando corações…


  2 Ela encontra, por fim, num jovem rico e nobre

  A cortina de ouro em que se encobre.

  Quatro anos de luxo nos salões

  Tornaram-na famosa e cada vez mais bela.


  3 Certo dia, no entanto, inesperadamente,

  Uma carta lhe chega… Vem da vila

  Em que passara a infância humílima e tranquila,

  É da mãezinha que se diz doente…

  Falecera-lhe o irmão, seu único parente,

  Declarava-se triste e desolada,

  Incapaz de ganhar o próprio pão…

  Rogava à filha proteção,

  Sentia-se sozinha e fatigada

  E, sobretudo, estava em luta insana,

  Pois era agora triste hanseniana.


  4 A moça treme revoltada

  E, às súbitas, planeia

  O que admite por melhor medida;

  Não quer aquela mãe que a desnorteia;

  Detestaria ver-se diminuída

  Perante o homem que ama.

  Age arbitrariamente,

  Adita ao próprio nome um nome diferente

  Na rude inquietação que ela própria extravasa…

  E, mudando de casa,

  Permaneceu na expectativa…


  5 Realmente, depois de algum tempo passado,

  Senhora hanseniana morta-viva

  Bate-lhe à porta, em tom desesperado;

  Servidores atendem, entretanto

  Ela quer ver a filha que ama tanto,

  Colhendo reiterada negativa.

  Mas sabendo-a sentada sobre o piso

  Que dava acesso ao grande apartamento,

  A própria moça surge, de improviso,

  A gritar lhe, de ânimo violento:

  — Saia daqui, depressa! Vá-se embora!…

  Não conheço a senhora

  E caso aqui persista,

  Tenho a polícia à vista!…


  6 — Filha, dize por que… —

  Exclamou a mulher agoniada,

  Estarei eu assim tão deformada

  Que o seu olhar já não me vê?

  Não ficarei aqui, não lhe trarei perigo,

  Mas não vês que a mãezinha está contigo?


  7 — A senhora não passa de embusteira, —

  Falou a moça, a gestos desumanos.

  — Minha mãe já morreu, há muitos anos…

  Velha tonta,

  Não sei como se fez aventureira,

  Mas a polícia vai tomar lhe a conta…


  8 Minutos decorridos,

  Enquanto a pobre mãe chorava, angustiada,

  Uma ambulância veio em disparada

  E conduziu-a para um sanatório.


  9 Trinta anos passaram sobre a cena,

  A filha desposara o jovem que a queria.

  O casal conjugava a fortuna e a alegria,

  Ele, o industrial, ela, a nobre senhora,

  E um filho nobre e forte

  Surgiu-lhes a brilhar

  Por tesouro do lar.


  10 Quanto à pobre mulher deixara a enfermaria,

  Conseguira curar-se,

  Mas não mostrava mais a face antiga,

  Era triste velhinha sem disfarce,

  Desditosa mendiga…

  Conhecida por velha hanseniana,

  Já sofrera de sobra a zombaria humana…

  Morava numa furna abandonada,

  Não distante da fábrica de tubos

  E outros artigos de eletricidade

  De que o neto distinto era dono e gerente…


  11 Sabendo-se que fora humilhada e doente,

  Cobria-se com capa esburacada

  E, lembrando uma sombra a pervagar na estrada,

  Pedia aqui e ali, um socorro qualquer…

  Mas em torno da fábrica era o ponto

  Em que a infeliz mulher

  Parecia um rondante, atento e pronto,

  A observar o que passasse…

  Se encontrava o gerente, face à face,

  Dizia, constrangida: — Uma esmola, doutor!…

  Intrigado o rapaz notava aqueles olhos

  Que o miravam, mostrando imenso amor…

  Dava-lhe algum dinheiro, atento a isso,

  Depois seguia adiante

  Mergulhando a atenção em seu próprio serviço…


  12 Seguia o tempo em marcha regular,

  Quando veio a estourar

  Na fábrica tranquila

  Um grande movimento

  De protesto violento,

  Que englobava, por si, todo o operariado…

  A gerência estudava ação conciliadora

  E os conflitos surgiam, lado a lado.


  13 No ápice da luta,

  A velhinha cansada, dia a dia,

  Observa a extensão da rebeldia,

  Mantendo-se, de guarda, ao pé das oficinas,

  Qual um posto de escuta.


  14 Certa noite, enxergou dois delinquentes

  Quando os vigias cochilavam fora,

  Agiam, sem que a vissem trêmula e calada…

  Uma porta se arromba

  E os dois, dentro da fábrica isolada

  Colocam grande bomba,

  No intuito de gerar perturbação,

  E fogem, assustados, do recinto…


  15 Ela entra em ação,

  Obedecendo ao próprio instinto…

  O estopim fumegava… Ela, porém,

  Sem o concurso de ninguém,

  Toma nas mãos o engenho destruidor.

  Avança sem temor,

  Sai pela porta afora,

  Correndo sem a mínima demora,

  Mas, antes que atirasse a bomba ao chão;

  Dá-se a grande explosão.

  A fábrica salvara-se.

  Ela, porém, tombara

  Mortalmente ferida…


  16 Faz-se tumulto, em torno…

  Eis o chefe a chegar…

  Reconhece a velhinha e determina

  Que ela seja tratada

  Por valente heroína…


  17 Foi no hospital a derradeira cena.

  Finava-se a velhinha devagar,

  Mostrando no semblante a beleza serena

  De quem transmite a paz no próprio olhar…


  18 Eis que, em dado momento,

  Ela percebe vozes e alarido;

  Ao formoso aposento

  O gerente trouxera os pais com garbosa alegria;

  Deviam ver a pobre que morria

  E que o amara tanto…


  19 O casal aproxima-se… A senhora

  Treme ao reconhecer a mãe que rejeitara outrora…

  Enquanto filho e pai conversam à distância

  Ajoelha-se a filha; ante a mulher que morre…

  Ela pede perdão no pranto que lhe escorre

  Dos olhos espantados…

  Contudo, a agonizante ao percebê-la,

  Ciciou as palavras: — Minha estrela!…

  Ouvindo-a soluçar,

  Consegue novamente sussurrar:

  — Filha do coração, Jesus a trouxe aqui…

  Depois disse ao cair, em profundo torpor:

  — Não chores, meu amor,

  Eu nunca te esqueci…


  20 Lá fora, o Sol, em tudo, era vida e esplendor,

  Parecendo dizer na própria chama,

  Que, desde a luz dos Céus aos abismos da lama

  Deus, em todo o Universo, é a Presença do Amor.


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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