Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


14n

Da Costa e Silva


1

RESSURREIÇÃO

  1 Ressurreição! A madrugada flórea!…

  O céu brilhando, em mágica oferenda…

  Estranho à nova luz que se desvenda,

  Vejo as telas antigas da memória.


  2 É minha mãe, contando velha história,

  A corrente do rio a fazer renda,

  A cana soluçando na moenda

  E a pátria serra olhando a altura inglória!…


  3 O caminho estrelado principia…

  A morte abriu as fontes da alegria,

  Na taça da amplidão que se descerra!


  4 Fulge o carro da vida renascente,

  Mas volvo à sombra e choro a dor pungente

  Da saudade sem fim de minha terra!…


2

REENCARNAÇÃO

  1 De cimo a cimo, a ideia viva esbarro…

  Luzem constelações… O Céu rutila…

  Estrelas resplendentes fazem fila,

  Multicores vagões do Etéreo Carro.


  2 Mas revejo, enlevado, o sol da vila…

  O regaço materno, ansioso, agarro;

  Ouço meu pai de crônico pigarro

  E a voz do lar por música tranquila.


  3 Fito a mesa singela, o caldo, a broa;

  O velho cão rafeiro geme à toa…

  Ah! Saudades! Sois tudo quanto exerço!… n


  4 Preces a Deus, em lágrimas, transponho…

  Aspiro a refazer a vida e o sonho,

  Quero chorar nos júbilos do berço!… n


3

VERSOS À MINHA MÃE

  1 Pássaro preso no recinto escasso

  Do velho canavial, beirando o rio, n

  Quis ver o mundo vasto e conheci-o,

  Varando, em pleno voo, o azul do espaço…


  2 Lembro-me agora… Enceguecido, abraço

  A exaltação, a glória e o poderio…

  Mas tudo, minha Mãe, era vazio

  Fora do amor que brilha em teu regaço.


  3 Vi mil chagas de dor que a fama incensa

  Nos nervos de ouro da cidade imensa,

  E prazeres em trágico desmando…


  1 Mas no colo a que, em sonho, me recostas,

  Tenho apenas teu vulto de mãos postas,

  Que teu filho recorda, soluçando…


3-A

O BERÇO

  1 Em êxtase, contemplo os sóis em bando,

  Arcturo, Aldebarã, Sírius, Antares,

  E o caminho onde os anjos tutelares

  Passam ébrios de júbilo, cantando…


  2 Bebo a vida imortal em que me expando,

  Nos perfumes e cores de outros ares.

  Surgem novos impérios estelares,

  Na glória do Universo, fulgurando?…


  3 Mas ouve, Mãe, em pleno Lar Celeste,

  Recordo o berço humilde que me deste,

  Ao pranto de alegria em que me inundo…


  4 Muito mais que na luz do imenso Espaço

  Pulsa, no imenso amor de teu regaço,

  O próprio coração de Deus no mundo…


Antônio Francisco DA COSTA E SILVA — Depois de fazer o curso primário e os preparatórios em Teresina, transferiu-se Da Costa e Silva para o Recife, onde, somente em 1913, veio a bacharelar-se em Direito. Foi funcionário público do Ministério da Fazenda, ascendendo a altos postos. Durante quase dez anos viveu o poeta em Belo Horizonte, mudando-se, posteriormente, para o Rio, onde desencarnou. “A sua poesia” — escreveu Andrade Muricy — “trazia uma exaltação luminosa, um inebriamento comunicativo. Era alguém que cantava, mas com uma virtuosidade harmoniosa e forte, um belo ímpeto arrebatado.” (Amarante, Piauí, 28 * de Novembro de 1885 — Rio de Janeiro, Gb, 29 de Junho de 1950.) — (*) Andrade Muricy (Pan. Mov. Simb. Bras., III, pág. 27) dá 23 como o dia de nascimento.

BIBLIOGRAFIA: Sangue; Zodíaco; Verhaeren; Verônica; etc.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] Note-se a apóstrofe.

[3] Falando sobre a poesia de Da Costa e Silva, afirmou Fernando Góes (Pan. V, pág. 146): “Foi bem o cantor da saudade ele confessava ter vindo ao mundo para ter saudade.” E como não poderia deixar de ser, o artista de “Saudade” continua sendo o cantor da saudade, ansioso, agora, por ver novamente paisagens terrestres em novo corpo de carne…

[4] Leia-se ca-na-vial, com sinérese.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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