Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


12n

Pereira da Silva


1

ÚLTIMA HORA

  1 A noite avança. À luz do olhar nevoento,

  Escuto o alarme… A rude voz do instinto

  Fala da morte. Em lágrimas pressinto

  A lividez do trágico momento.


  2 Espantado, atravesso o labirinto

  Dos delírios e sonhos que apascento.

  Vencido, o coração pulsa violento,

  Ave apresada ao peito semi-extinto.


  3 Tristeza, sombra — e pó… Cinza e canseira…

  A ideia tomba. É a hora derradeira,

  Na exalação dos últimos instantes.


  4 Desço de todo ao caos que me agonia,

  Mas livre enfim, soluço de alegria,

  No caminho dos astros cintilantes.


2

ÚLTIMO DIA

  1 Não era mais o lume de Aladino

  Que trazia na mão dorida e pasma,

  Era a tremura de um doente de asma,

  Ouvindo, inerme, o choro do destino.


  2 O leito igual ao chão de lodo e miasma

  Fez-se lousa de gelo em Sol a pino…

  Quero gritar em vão, quanto um menino,

  Amedrontado à sombra de um fantasma.


  3 Divago. Embalde movo os lábios perros.

  Varo — errante viajor — impérvios serros…

  Meu sonho é um velho cão ladrando à lua…


   4 Tudo — silêncio pálido de esfinge… n

  É o nada… A dor do nada que me atinge

  Mal sabendo que a vida continua…


Antônio Joaquim PEREIRA DA SILVA — No Rio de Janeiro, Pereira da Silva foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios, ingressando, depois, na Escola Militar. Transferido, mais tarde, para o Estado do Paraná, aí se tornou dedicado amigo de Dario Veloso e de outros poetas da sua estirpe. Deixando o Exército, voltou ao Rio. Estudou Direito e aderiu ao grupo simbolista da Rosa-Cruz. Foi redator da Cidade do Rio, colaborando em outras publicações da imprensa carioca, como crítico literário. Em 1933 ingressou na Academia Brasileira de Letras, cadeira n° 18. Luís Murat considerou Pereira da Silva um dos maiores poetas da sua geração, “homem que possui uma grande cultura, a par de uma grande inspiração” (apud Pereira da Silva, Beatitudes, pág. 228). (Araruna, Serra da Borborema, Paraíba, 9 de Novembro de 1876 — Rio de Janeiro, Gb, 11 de Janeiro de 1944.)

BIBLIOGRAFIA: Væ Soli!; Solitudes; O Pó das Sandálias; Alta Noite; etc.


Nota. Observe-se a frequência com que o poeta usa o vocábulo pálido e seus cognatos. No soneto “À minha mãe” (apud Pan. IV, pág. 117), o último terceto, por exemplo:


“E me atirando uma porção de lírios

Transfigurou-se pálida e apiedada

Dos meus soluços e dos meus Martírios…


Cf., ainda, a 2ª estrofe de “Sóror Mágoa” (apud Op. cit., pág. 118). Na 4ª estância desse poema, encontramos isto:


“Como se ajusta bem a palidez à fome

E o tédio ao dissabor do espírito de alguém.”


Interessante, também, o último terceto de “Sol poente” (apud Op. cit., pág. 119).



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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