Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


1n

Cruz e Souza


1. ALMA DO AMOR

  1 Alma do Amor, cansada, erma e fremente,

  Arrastando o grilhão das próprias dores,

  Sustenta a luz da fé por onde fores,

  Torturada, ferida, descontente…


  2 Nebulosas, estrelas, mundos, flores

  Rasgam, vibrando, excelso trilho à frente…

  Tudo sonha, buscando o lume ardente

  Do eterno amor de todos os amores?


  3 Alma, de pés sangrando senda afora,

  Humilha-te, padece, chora, chora, n

  Mas bendize o teu santo cativeiro…


  4 Não esperes ninguém para ajudar-te,

  Ama apenas, que Deus, em toda a parte,

  É o sol do amor para o Universo inteiro.


2

CORPO

  1 Carne! Vaso de dor, sinistro e belo,

  Estruturado em grânulos de escória,

  Relicário de lama transitória,

  Tugúrio estreito e fúlgido castelo!


  2 Assinalas, em lúgubre duelo,

  O bem e o mal na cinza merencória;

  Mas elevas o lodo para a glória,

  Da sombra à luz, em trágico flagelo.


  3 Louvor à encarnação que te sustenta,

  Lâmpada de amargura ansiosa e lenta,

  Ergástulo do amor puro e profundo!…


  4 És a humana e arcangélica fornalha,

  Templo e gleba onde Deus sonha e trabalha

  Santificando as lágrimas do mundo!… n


3

SOB A NOITE

  1 Alma triste, cansada, insatisfeita,

  Dentro da noite espessa que te alcança,

  Ergue o facho sublime da esperança

  Ante os golpes da treva que te espreita.


  2 Entre pedras e lágrimas avança,

  Na sarça que domina a senda estreita,

  E sonha a luz da Imensidade Eleita,

  Aprisionada à extrema insegurança.


  3 Segue, arrostando em glória, por sofre-los, n

  Turbilhões, agonias, pesadelos,

  Nos assombros de longa tempestade…


  4 E, além da pavorosa travessia,

  Encontrarás, chorando de alegria,

  O amanhecer da Grande Liberdade!


4

ESCALADA

  1 Louva o suplício da matéria escrava,

  No turbilhão de cárceres e algemas.

  E canta, coração, inda que espremas

  O fel da própria dor em pranto e lava.


  2 Chora e avança cansado, mas não temas;

  Sangrem-te embora os pés na urtiga brava,

  Caminha imune ao lodo que deprava,

  Purificado em lágrimas supremas.


  3 Indiferente às cóleras e às fúrias, n

  Apaga o fogo das paixões espúrias,

  Sofre humilde e sereno por vencê-las…


  4 Peregrino de trágico deserto,

  Um dia, subirás, enfim liberto,

  Gema solar em túnica de estrelas!…


4-A

ALÉM DO AZUL

  1 Além, além do humano sorvedouro,

  Cornucópia mirífica desata

  Orbes luzindo em flórida cascata,

  Onde a vida cinzela o céu vindouro…


  2 Constelações e sóis… Ancoradouro

  Da excelsa luz dos séculos sem data…

  Almos ninhos em pétalas de prata,

  Coroados de acanto, mirto e louro…


  3 Por cerúleas alfombras estelares,

  Flâmeos jardins e edênicos solares,

  O coração do amor pulsa disperso…


  4 Entre esferas de cálidos fulgores,

  Domicílios das almas superiores,

  Freme a glória divina do Universo. n


João da CRUZ E SOUZA — Filho de pais escravos, Cruz e Souza é a figura mais expressiva do Simbolismo no Brasil e, ao lado de Mallarmé e Stefan George, um dos grandes nomes do movimento simbolista no mundo, segundo Roger Bastide. “Tinha” — escreveu seu grande amigo Virgílio Várzea (apud A. Muricy, Pan. Mov. Simb. Bras., I, pág. 98) — “uma grande paixão pelas ideias humanitárias, e serviu-as sempre, como um fanático, sem se poupar sacrifícios, na tribuna, em praça pública e principalmente no jornalismo.” Tendo sofrido acerbas provações, naturalmente dentro das dívidas cármicas, o grande poeta continua, hoje, em afanosa luta pela difusão das “ideias humanitárias”, entre as quais agora incluiu o Espiritismo e o Esperanto, a corroborar que a vida, com efeito, não cessa no túmulo. Principalmente no setor esperantista, o artista de Faróis é uma personalidade atuante na Espiritualidade. Em 1961, ano em que se comemorou, em todo o Brasil, o primeiro centenário de seu nascimento, os mais representativos centros culturais do País lhe tributaram mil e uma homenagens, culminando com a publicação de suas Obras Completas, organizadas por Andrade Muricy, em primorosa apresentação, pela Editora José Aguilar Ltda. A extraordinária produção do genial poeta provocou, dos que o rodeavam, os epítetos de “Cisne Negro”, “Dante Negro”, “Poeta Negro”, epítetos — diz A. Muricy (op. cit., pág. 101) “compreendidos no senso mais elevado e consecratório de tais expressões”. (Desterro, hoje Florianópolis, SC, 24 de Novembro de 1861 — Sítio, atual Antônio Carlos, Minas Gerais, 19 de Março de 1898.)

BIBLIOGRAFIA: Broquéis ; Evocações; Faróis; Últimos Sonetos; etc.


Nota. Se dispuséssemos de bastante espaço, transcreveríamos numerosos sonetos do grande simbolista para que pudéssemos observar a semelhança de estilo, não apenas no que tange ao esquema rimático preferido pelo poeta, desde Broquéis aos Últimos Sonetos, mas, também, pela temática e pela presença das palavras-chaves do vate. Assim, de escantilhão, vamo-nos limitar a rápidas considerações e citações ligeiras. Ninguém ignora que Cruz e Souza, em quase todos os seus inimitáveis sonetos, se referia a pelo menos uma parte do corpo humano, exaltando-a, quase sempre. Cf., por exemplo, “Antífona”, “Em Sonhos…” “Braços”, “Encarnação”, “Tulipa Real”, “Serpente de Cabelos” e tantos outros poemas de Broquéis. Em Faróis, bastaria que citássemos a série de sete sonetos — o primeiro “Cabelos” e o último — o VII — “Corpo” que, ainda, ostenta o adjetivo “arcangélica”, tão familiar ao poeta. A propósito, cf. o 9º verso de “Satã” e o 14º de “Livre!”. Aliás, neste último soneto, encontramos algumas rimas de que se serviu o simbolista no “Escalada”. As demais, “suprema” e “algema”, encontramo-las nos dois quartetos de “O Assinalado”.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] Ricochete: “…chora, chora.” Aliás, a repetição enfática de chorar sugere um pranto capaz de desabafar a alma, suscetível, no entanto, de insuflar ideias novas para que se possa bendizer o “santo cativeiro” das provações terrenas…

[3] por sofre-los. Cf. a nota 3-4 do poema Desobsessão.

[4] Com relação a “fúrias”, por simples curiosidade, cf. o 5º verso de “Afra”, o 11º de “Dança do Ventre” e, finalmente, em “Demônios”, o oitavo verso: “Só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria!”

[5] Atentemos nas palavras de M. Cavalcanti Proença, em seu já citado livro (Ritmo e Poesia, pág. 81); “Em Cruz e Souza, no poema “Antífona”, em 12 versos entre 44 (25%) se observa a mesma acentuação; note-se, entretanto, que, nos primeiros vinte versos, há nove cuja tônica em 6ª coincide com a de um proparoxítono.” Dos 70 decassílabos participantes desta Antologia, encontramos um total de 18 vocábulos proparoxítonos de acentuação na 6ª (26,7%), número, como se vê, bastante expressivo.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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