Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


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Alceu Wamosy


A TI QUE ME OUVES

  1 Como o dia ao findar, o decesso não trunca

  O poder do ideal e a corrente da vida…

  Nem ancinho a morder, nem mão em garra adunca…

  A morte? Apenas sonho embalando a partida…


  2 Se o caminho em que vais é trilha que se junca

  De farpas, lama e fel, sem clareira ou saída,

  Sê compaixão somente e não sentirás nunca

  A sombra da tristeza ou a esperança perdida.


  3 Se a agonia envenena o pranto de teus olhos,

  Qual rocio letal no lodo que te banha,

  Não te fira a visão de tremedais e abrolhos.


  4 O amor é como o sol ante o charco profundo…

  Amando, entenderás que a dor mais rude e estranha

  É sempre a Lei de Deus que se move no mundo… n


AGORA

  1 Eis o tempo que passa… Um juiz onde fores,

  Espírito da Lei que a tudo envolve e doma.

  Ontem, do Nilo em festa à grandeza de Roma,

  Era a glória do mundo em cinzas e esplendores.


  2 Hoje, carro triunfal dos sonhos redentores,

  Em que a bênção do dia é celeste redoma,

  Onde a vida se alteia e, pura, se retoma

  Para erguer-te a alegria e suprimir-te as dores.


  3 Amanhã será sol em pleno trilho escuro,

  Almenara de amor a indicar-te o futuro

  No horizonte da paz, onde a esperança mora.


  4 Mas do tempo que é sombra, anseio, plano e anelo,

  Nos caminhos do Tempo, eis que o Tempo mais belo

  É o momento imortal que chamamos “agora”.


ANTEVISÃO

  1 E um dia chegará, de segundo a segundo,

  A vitória imortal… Tiranias ultrizes

  Dobrarão para sempre as trágicas cervizes

  Ante o reino do amor a espraiar-se, fecundo!


  2 A impiedade revel, o ódio a rir-se iracundo, n

  A usura de Harpagão e o gládio de Cambises

  Serão restos crostais de velhas cicatrizes,

  Temerárias lições no semblante do mundo!


  3 Não mais fome ou nudez… O arado, a escola e o malho

  Entoarão sobre a Terra as canções do trabalho

  Em trompas e clarins de concerto bendito!


  4 E os homens, céus além, ao tato incontroverso,

  Descobrirão, por fim, nos portais do Universo,

  A bússola de Deus no timão do Infinito!


ALCEU de Freitas WAMOSY — Poeta e jornalista, A. Wamosy trabalhou ativamente na imprensa, principalmente depois que fixou residência em Livramento, tendo sido diretor de O Republicano. Patrono da cadeira n° 40, na Academia Sul-Riograndense de Letras. Sua poesia é essencialmente subjetiva, com impressões de vida interior. Prefaciando-lhe a obra póstuma Poesias, Mansueto Bernardi afirmou: “Alma de eleição, um dos mais finos temperamentos artísticos do Rio Grande, uma das belas vozes da poesia, no Brasil.” E mais adiante, observava: “Ao mesmo tempo que o pensamento do amor, o pensamento da morte o acompanha sempre. (… ) Foram eles, por assim dizer, o amor e a morte, assim como a luz e a sombra dos seus olhos, o mel e a cicuta dos seus lábios, a sístole e a diástole do seu coração.” (Uruguaiana, Rio Grande do Sul, 14 de Fevereiro de 1895 — Livramento, Rio Grande do Sul, 13 de Setembro de 1923.)

BIBLIOGRAFIA: Na Terra Virgem; Coroa de Sonhos; etc.


Nota ao 1º soneto. Este soneto é, sem dúvida, uma resposta ao poema que Alceu Wamosy escreveu pouco antes de sua desencarnação, “Idealizando a Morte” (apud Col. Poetas Sul-Riogr., pág. 302), do qual vamos transcrever o último quarteto, grifando as rimas que se repetem no soneto de hoje:


“E morrer… e levar com a vida que se trunca,

Tudo que de doçura e amargor teve a vida:

O sonho enfermo, a glória obscura, a fé perdida,

E o segredo de amor, que eu não te disse nunca!”



[1] Leia-se com sinérese: im-pie-da-de.


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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