Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


8

Lívio Barreto


PÁGINA DE AMOR

  1 Quiseste renascer, alma querida,

  Disseste haver falido quando amaste…

  E, estrela, desprezando o etéreo engaste,

  Desceste para as mágoas de outra vida.


  2 Hoje, nas sombras, sofres esquecida,

  E eu sofro, por tristíssimo contraste,

  No refúgio de sol que me deixaste

  Entre afagos de dor, à despedida…


  3 Livre, prendo-me a ti, no mar das horas…

  Penso, meditas… Sonho, rememoras…

  Meu coração no teu pulsa, violento. n


  4 Embora em pranto, segue, que eu prossigo…

  Choras, mas cantarás, enfim, comigo

  Na Castália de amor do firmamento.


ESPERA, ESPERA…

  1 Sorve a taça de pranto a descoberto,

  Minha doce rainha desterrada;

  Se a neblina da noite ensombra a estrada,

  A luz da aurora fúlgura vem perto…


  2 Choras de olhar cansado no deserto,

  Choro fitando a abóbada estrelada, n

  Sofres, alma querida, reencarnada,

  Meus anseios de Espírito liberto…


  3 Clamas por fé… Minhalma te responde…

  Ouves a minha voz não sabes de onde,

  — Clarão de amor na névoa fugidia!…


  4 Vence a grande aflição… A primavera

  Chegará vitoriosa… Espera, espera…

  Esperar é o meu pão de cada dia.


LÍVIO BARRETO — De origem humilde, caixeiro e, mais tarde, modesto guarda-livros, Lívio Barreto foi um artista emérito do verso. Era, segundo Mário Linhares, “o de mais viva originalidade” do grupo da “Padaria Espiritual”, famosa entidade literária de Fortaleza, da qual foi ele, L. Barreto, um dos fundadores, tomando o pseudônimo acadêmico de Lucas Bizarro. Artur Teófilo (in O Pão, órgão da Padaria Espiritual, 15 de Outubro de 1895) informa que LB teve na vida uma paixão que o acompanhou, mais e mais insistente, até à morte. E acrescenta: “Toda a obra literária de Lívio Barreto não é mais que o diário escrito dessa infeliz paixão, que tão implacavelmente o torturou, impressionando-o muito, roubando-lhe a energia…” No Libertador, de Fortaleza, estampou “formosíssimos versos de uma suave melancolia a que decerto não era estranha essa por quem, longe da Pátria, ele ansiava ardentemente” (idem, ibidem). Era funcionário da “Companhia Maranhense de Navegação a Vapor” quando, moço ainda, desencarnou fulminado por uma congestão cerebral. É patrono, na Academia Cearense de Letras. (Distrito de Ibuaçu, Município de Granja, Ceará, 18 de Fevereiro de 1870 — Camocim, Ceará, 29 de Setembro de 1895.)

BIBLIOGRAFIA: Dolentes.



[1] Leia-se vio-len-to, com sinérese.

[2] Poliptoto: “Choras… / Choro…”


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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