Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 1ª Parte


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Júlia Cortines


COLOMBINA

  1 Mascarada mulher o rabecão trouxera.

  Morrera em pleno baile a frágil Colombina

  E, no egrégio salão de culto à Medicina,

  O professor leciona, em voz veemente e austera: n


  2 — “Rapazes, contemplai! É rameira e menina.

  Tombou ébria no vício e com certeza era n

  Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,

  Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.” n


  3 Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,

  Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,

  Afasta, indiferente, as flores de rendilha…


  4 No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,

  O mestre cambaleia e chora junto dela…

  Encontrara na morta a sua própria filha.


ROMANCE

  1 No vetusto solar da longínqua Provença,

  Ao pajem disse a dama, ante pálida lua:

  — “Nunca te esquecerei!… Sou tua, sempre tua!…” n

  No outro dia, porém, deu-lhe escárnio e descrença.


  2 Relegado no campo ao suor da charrua,

  Entre a mágoa do amor e a humilhação da ofensa,

  O jovem busca a morte… A morte, em sombra imensa, n

  Endoidece-lhe o sonho e a vida continua…


  3 Mais tarde, a castelã parte igualmente e, ao vê-lo,

  Desgrenhado e infeliz, no infeliz pesadelo, n

  Implora outra existência à Bondade Divina…


  4 Hoje, mãe triste e pobre, em lágrimas no arado,

  Aconchega no colo um menino entrevado

  Que a doença consome e a loucura domina.


JÚLIA CORTINES Laxe — “Júlia Cortines” — diz Péricles Eugênio da Silva Ramos (Pan. III, pág. 246) — “é uma das poetisas selecionadas por Valentim Magalhães para figurarem na parte antológica de A Literatura Brasileira (1870-1895). Sua poesia afigura-se realmente parnasiana, de um comedimento e boleio de frase semelhante ao de Francisca Júlia.” É ela, segundo afirma o poeta e ensaísta Darcy Damasceno (in A Lit. no Brasil, III, t. 1, pág. 376), quem “abre o desfile dos epígonos parnasianos”. Sentimento, emoção, cuidado da forma, beleza expressional e correção métrica caracterizam-lhe os poemas, levando José Veríssimo a compará-la à célebre poetisa italiana Ada Negri (apud E. Werneck, Ant. Brasileira, Pág. 507). (Rio Bonito, Estado do Rio, 12 de Dezembro de 1868 — Desencarnou em 19 de Março de 1948.)

BIBLIOGRAFIA: Versos; Fragmentos; Vibrações.



[1] Ler com sinérese: vee-men-te.

[2] Leia-se com hiato: com/ cer/te/za/ e/ra.

[3] Para que possamos observar o gosto da poetisa para a alusão a nomes célebres, quer mitológicos quer da vida real, cf. o soneto “A Vingança, de Cambises” (apud Pan. III, págs. 246-247).

[4] Epímone — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.

[5] Epizeuxe — “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete a mesma palavra, sem intervalo,…” (Geir Campos, Op. cit.)

[6] Epímone — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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