Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 1ª Parte


6

A. Branco *


DIANTE DA VIDA

  1 Encarcerado, enfim, nas grades da memória,

  Tudo tresanda em mim o sinistro bafio

  Da torva escuridão a que me sentencio,

  Na câmara de fel da sombra merencória.


  2 Mocidade, ilusão, tudo é lodo e vanglória

  Esbarrando na morte — horrendo desafio:

  Para a descida ao caos ignoto, imenso, frio,

  E ser lama pensante, escória sob a escória.


  3 Ó minhalma infeliz, porque assim te sublevas? n

  Corvo triste da mágoa a crocitar nas trevas, n

  Volve em prece a dormir na paz inerme do ovo!


  4 Sepulta, coração, no tremedal medonho,

  A aflição derradeira e o derradeiro sonho n

  Para tudo esquecer e começar de novo!


(*) Não se identificando por óbvias razões, ensina-nos o poeta que, após a desencarnação, se carregamos frustrações e culpas, debalde procuraremos fugir às “grades da memória”. Só a reencarnação, com efeito, representa a terapêutica ideal, quando teremos de “começar tudo de novo”.



[1] Notem-se os adjetivos usados pelo vate: sinistro, torva, merencória, horrendo, ignoto, frio, infeliz, inerme, medonho — indicativos todos de profundo sofrimento. Aliás, os próprios substantivos e verbos de todo o soneto dão-nos ideia do estado de espírito do aedo que, felizmente, está convicto de que, muito em breve, voltará ao educandário físico.

[2] “corvo triste da mágoa” — bela imagem, conquanto negativa do ponto de vista espiritual.

[3] “A aflição derradeira e o derradeiro sonho”: Poliptoto — “Nome dado à FIGURA que resulta da repetição da mesma palavra em vários casos, graus, tempos e pessoas, etc.” (Geir Campos, Op. cit.)


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir