Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Alma e Vida — Maria Dolores


31

Amor e vida

   1 Na sala extensa da delegacia,

  Estavam de plantão

  O chefe e um escrivão

  Agindo atentamente.


   2 Diante deles se reconhecia

  Um nobre advogado em companhia

  De um filho adolescente.


   3 Algo distantes, lado a lado,

  Erguia-se um soldado,

  Guardando a prisioneira, uma doente,

  Triste e pobre mulher, maltratada e abatida

  Que, conquanto sentada,

  Parecia a visão da dor, ansiosa e conformada,

  Entre a ronda da morte e a presença da vida.


   4 — Doutor, — falou o chefe vigilante,

  Dirigindo a palavra ao visitante,

  — Embora o furto confessado,

  Não sei o que fazer da velha, aqui detida,

  Todo o processo-crime está formado,

  Mas a infeliz não tem qualquer defesa…

   5 Já nomeei um bacharel amigo

  Que lhe proteja a causa

  De mulher sofredora, em extrema pobreza,

  Mas a doença dela é de febre sem pausa,

  Segundo o nosso médico em serviço,

  É um caso grave de pneumonia…

   6 Que fazer? Conservá-la na prisão?

  Aguardar do juiz alguma decisão?

  Recolhê-la em asilo hospitalar?

  Ou guardá-la em custódia no seu lar?


   7 O causídico explode em tom severo:

  — Absolutamente, não a quero;

  Trata-se aqui de ladra astuta e estranha

  Que desde a meninice me acompanha…

   8 Lavadeira na casa de meus pais,

  Confesso que em meus tempos de menino

  Ela foi ama generosa e boa,

  Ajudou-me e serviu-me em pequenino,

  Algum tempo de amparo, cousa à-toa…

  Mas foi sempre um trambolho em meu caminho.

  Desorientada e analfabeta,

  Sempre me pareceu a burrice completa…


   9 Minha mãe, há dez anos, falecida,

  Pediu-me, antes da morte, agasalhar-lhe a vida.

  Tornei-a lavadeira em minha residência…

   10 Infelizmente agora,

  Furtou minha senhora

  Em joias no valor de alguns milhões!…

   11 Fale, pois, Excelência.

  Como ampará-la com paciência,

  Se esta velha se fez agora simples ladra?

  Resguardá-la em meu lar? Isso não quadra.


   12 Ouvindo a acusação, a pobre estarrecida,

  Caiu, desfalecida…


   13 Enternecido, o próprio delegado

  Fitou o advogado,

  Como a lhe perguntar de que modo agiria;

   14 Ele apenas, porém, respondeu friamente:

  — Que se lhe dê qualquer enfermaria…

  Desmaio de gatuno é antigo expediente…

  Depois, erguendo mais a voz:

  — Pode espantar aos tolos, não a nós…

   15 Nada posso fazer,

  Devo esperar meu pai que volta ainda hoje

  De uma visita a Portugal.

  Coloquem esta ladra no hospital,

  A Polícia dispõe de ação segura e pronta,

  A despesa será por minha conta.


   16 Pai e filho, no carro, a deslizar lá fora,

  Eis que o rapaz revela, enquanto chora:

  — Papai, ao ver a Tia Lina desmaiada,

  (Lina era o nome da acusada),

  Já não devo ocultar o erro que fiz,

   17 Num momento infeliz,

  Roubei todas as joias da mãezinha,

  Tenho-as todas em minha escrivaninha;

  E Tia Lina me viu quando as furtei,

  Sabe o erro que fiz

  E porque se calou, realmente não sei…


   18 Pálido, o genitor espantado e abatido,

  Colhe das mãos do filho o tesouro escondido…

  Quer gritar, acusar, mas a hora é de ação;

  O pai estava à porta,

  Regressando feliz da ditosa excursão.


   19 Depois das manifestações de amor e de alegria,

  Ambos se trancam numa sala;

  O velho escuta a história e, ao registrá-la,

  Tanto mais chora, quanto mais a ouvia…


   20 Em silenciando o filho, o distinto senhor,

  Sem poder disfarçar a profunda emoção,

  Falou-lhe, coração a coração:

  — Filho, de qualquer modo, és sempre, o nosso amor,

  Eis chegado, no entanto, o instante justo,

  Em que devo contar-te, mesmo a custo,

  Algo que foi passado…

   21 Minha esposa, depois de nosso enlace,

  Precisava de alguém que lhe compartilhasse

  Os cuidados do lar, a limpeza, o serviço…

   22 Nossa querida Lina

  Surgiu-nos, certo dia… Era quase menina,

  No entanto, estava grávida e solteira.

  Nela encontramos nobre companheira,

  Dela nasceste em nosso próprio lar,

  Minha mulher beijou-te a sorrir e a cantar…

   23 Desde então, tua mãe — tua mãe verdadeira,

  Deu-se, de todo, a nós, de espírito cativo,

  Esqueceu-se por nós, nunca pode estudar,

  Ela era o serviço, o apoio em nosso lar…

   24 Nada nos reclamou, nem mesmo uma só vez,

  Declarava-te o filho de nós três,

  Nunca foste adotivo…

   25 Criança recém-nata, eras fraco e doente;

  Lina te resguardou, constantemente.

  Mãe, servidora, irmã e escrava pelo afeto

  Agora, certamente,

  Aceitou a prisão para salvar o neto…

   26 Sufocado de pranto, acompanhando o pai,

  O advogado na delegacia

  Apagou toda a queixa

  Que já não mais vigoraria…

  Perguntou por notícias da acusada,

  Soube que Lina fora transportada

  Para uma enfermaria de indigentes.


   27 Correm os dois, ansiosos e impacientes,

  Querem Lina de volta, por sinal;

  Mas sobre o leito humilde do hospital,

  Acham-na muda e inerte… Esclarece a enfermeira

  Que a doente chegara à hora derradeira…


   28 Põem-se os visitantes a chorar,

  Mas Lina lhes dirige um último olhar…

  E nesse último olhar que envolve os três

  A verdade se fez…


   29 Descem-lhe grossas lágrimas na face,

  Qual se a pobre ao vertê-las,

  Por elas encontrasse

  Um caminho de luz para a luz das estrelas…


   30 O filho a soluçar, sem conforto e sem voz,

  Reconheceu, por fim, de alma abatida,

  Que a mais simples mulher, em renúncia na vida,

  Pode ser nossa mãe, junto de nós…


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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