Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano XII — Agosto de 1869

(Édition Française)

VARIEDADES


O ópio e o haxixe

1 — Escrevem de Odessa  †  a um dos nossos assinantes da Rússia, neste momento em Paris:  † 

“Se assistirdes a uma sessão espírita na casa do Sr. Allan Kardec, proponde, eu vos peço, a questão tão interessante sobre os efeitos do ópio  †  e do haxixe.  †  Os Espíritos aí têm uma participação qualquer? Que se passa na alma, cujas faculdades parecem triplicar-se? Supõe-se que se separe quase inteiramente do corpo, desde que basta pensar numa coisa para vê-la aparecer, e sob formas tão distintas que se a tomaria pela realidade. Deve haver aí uma analogia qualquer com a fotografia do pensamento, descrita na Revista Espírita de junho de 1868, e em A Gênese segundo o Espiritismo, capítulo XIV. Entretanto, nos sonhos provocados pelo haxixe, por vezes se veem coisas em que jamais se pensou e, quando se pensa num objeto qualquer, ele vos aparece em proporções exageradas, impossíveis. Pensais numa flor e logo se elevam diante de vós montanhas de flores que passam, desaparecem e reaparecem aos vossos olhos com uma rapidez assustadora, uma beleza e uma vivacidade de cores de que não se pode fazer nenhuma ideia. Pensais numa melodia e ouvis uma orquestra inteira. Lembranças há muito esquecidas vos acorrem à memória como se fossem de ontem.

“Li bastante sobre o haxixe, entre outras a obra de Moreau de Taur. O que mais me agradou foi a descrição que dele dá um sábio médico inglês (o nome me escapa), e que fez experiências consigo mesmo. As que fiz com alguns de meus amigos só foram bem-sucedidas em parte, o que provavelmente se devia à qualidade do haxixe.”


2 — Tendo sido lida esta carta na Sociedade de Paris, o Espírito do doutor Morel Lavallée  †  fê-la objeto da dissertação seguinte:


(Sociedade de Paris, 12 de fevereiro de 1869)

O ópio e o haxixe são anestésicos muito diferentes do éter e do clorofórmio. Enquanto estes últimos, suprimindo momentaneamente a aderência do perispírito ao corpo, provocam um desprendimento particular do Espírito, o haxixe e o ópio condensam os fluidos perispirituais e diminuem a sua flexibilidade, soldando-os, por assim dizer, ao corpo e acorrentando o Espírito ao organismo material. Neste estado, as variadas e numerosas visões que se produzem sob a excitação dos desejos do Espírito, pertencem à ordem dos sonhos puramente materiais. O fumante do ópio adormece para sonhar e sonha como deseja, material e sensualmente. O que vê são panoramas particulares de embriaguez, provocados pela substância que ingeriu. Ele não é livre: está ébrio e, como na embriaguez alcoólica, o pensamento dominante do Espírito, tomando uma forma imutável, distinta, sensível, aparece e varia conforme a fantasia do dorminhoco.

Se a sensação desejada se acha centuplicada no resultado, isto se deve a que o Espírito, não tendo mais a força e a liberdade necessárias para medir e limitar seus meios de ação, age para obter o objeto de seus desejos com uma potência centuplicada, em razão de seu estado anormal. Não sabe mais regular seu modo de ação sobre o fluido perispiritual e sobre o corpo. Daí a diferença de potência entre o efeito produzido e o desejo que o provoca.

Como já se disse, no sonho espiritual o Espírito, destacado do corpo, vai recolher realidades de que muitas vezes não guarda senão uma lembrança confusa. Na embriaguez devida aos elementos opiáceos ele se encerra em sua prisão material, na qual a mentira e a fantasia, materializadas, se dão as mãos.

Desprendimento real, útil, normal, só o é o do Espírito desejoso de avançar na ordem moral e intelectual. Os sonos provocados, sejam quais forem, são sempre entraves à liberdade do Espírito e uma ameaça para a segurança corporal.

O éter e o clorofórmio que, em certos casos, podem provocar o desprendimento espiritual, exercem uma influência particular sobre a natureza das relações corporais. O Espírito escapa do corpo, é certo, mas nem sempre tem uma noção extremamente clara dos objetos exteriores. Na embriaguez devida ao ópio, tem-se um Espírito sadio encerrado num corpo ébrio e submetido às sensações superexcitadas desse corpo. No desprendimento pelo éter, nós nos defrontamos com um Espírito ébrio perispiritualmente e subtraído à ação corporal. O ópio embriaga o corpo; o éter e o clorofórmio embriagam o perispírito; são dois estados de embriaguez diferentes, cada um entravando, de modo diverso, o livre exercício das faculdades do Espírito.


Dr. Morel Lavallée


Observação – Notável sobre vários pontos de vista, tanto pela clareza e pela concisão do estilo, quanto pela originalidade e novidade das ideias, esta instrução nos parece destinada a tornar conhecida uma questão até aqui pouco estudada.

Se se admite facilmente a embriaguez corporal ou sensual, de que os fatos da vida diária oferecem tão numerosos exemplos, o estudo da embriaguez perispiritual, se é que existe, parece, à primeira vista, subtrair-se às investigações dos pensadores. Algumas reflexões a respeito, simples expressão de nossa opinião pessoal, talvez não sejam despropositadas aqui.

Nenhum espírita duvida de que o homem, em seu estado normal, seja um composto de três princípios essenciais: o Espírito, o perispírito e o corpo. “Se, na existência terrestre, esses três princípios estão constantemente frente a frente, eles devem necessariamente reagir um sobre o outro, e de seu contato resultará a saúde ou a doença, conforme haja entre eles harmonia perfeita ou discordância parcial.” (Revista Espírita de 1867: As três causas principais das doenças.)

A embriaguez, seja qual for, aliás, a sua causa e sede, é uma doença passageira, uma ruptura momentânea do equilíbrio orgânico e da harmonia geral que lhe é consequente. O ser todo inteiro, momentaneamente privado da razão, aos olhos do observador apresenta o triste espetáculo de uma inteligência sem direção, entregue a todas as inspirações de uma imaginação vagabunda, que não vem mais governar e moderar a vontade e o julgamento. – Seja qual for a natureza da embriaguez, este será sempre, em todos os casos, o seu resultado aparente.

Sob o império da embriaguez, o homem se assemelha a um aparelho telegráfico desorganizado numa de suas partes essenciais, que só transmite despachos incompreensíveis, ou mesmo não transmitirá absolutamente nada, esteja a causa da desordem no aparelho produtor, no receptor ou, enfim, no aparelho de transmissão.

Se agora examinarmos atentamente os fatos, eles não parecem dar razão à nossa teoria? A embriaguez do homem subjugado pelo abuso dos licores alcoólicos não se parece com as desordens provocadas pela superexcitação ou pelo esgotamento do fluido locomotor, que anima o sistema nervoso? Não é ainda uma embriaguez especial a divagação momentânea do homem ferido subitamente em suas mais caras afeições? Estamos profundamente convictos de que há três espécies de embriaguez no encarnado: a embriaguez material, a fluídica ou perispiritual, e a mental. O corpo, o perispírito e o Espírito são três mundos diferentes, associados durante a existência terrestre, e o homem não se conhecerá psicológica e fisiologicamente senão quando consentir em estudar atentamente a natureza desses três princípios e suas relações íntimas.

Repetimos: estas poucas reflexões são pura e simplesmente a expressão de nossa opinião pessoal, que não pretendemos impor a ninguém. É uma teoria particular que parece basear-se nalgumas probabilidades e que nos deixará contentes se as vermos discutidas e controladas pelos nossos leitores. – A verdade não pode ser privilégio de um só, nem de alguns. Ela emana da discussão esclarecida e da universalidade das observações, únicos critérios dos princípios fundamentais de toda filosofia durável.

Seremos gratos aos espíritas de todos os centros que houverem por bem colocar esta teoria no número das questões a serem estudadas, e nos transmitirem as reflexões e as instruções de que ela poderá ser objeto.




3 O ópio e o haxixe

(2º artigo – Vide a Revista de agosto de 1869)

Conforme o desejo que expressamos no último número da Revista, vários dos nossos correspondentes se dignaram estudar a questão tão interessante concernente às diversas formas de embriaguez a que pode estar submetido o ser humano, e nos transmitiram o resultado de suas observações. Como a falta de espaço não nos permite publicar todos esses documentos, dos quais, todavia, tomamos boa nota, limitar-nos-emos a chamar a atenção dos nossos leitores sobre o Relatório dos trabalhos da Sociedade Espírita de Bordeaux durante o ano de 1867n que, em suas páginas 12 e 13, contém reflexões muito judiciosas e bastante racionais sobre a embriaguez perispiritual provocada nos desencarnados pela absorção dos fluidos alcoólicos.


Reproduzimos igualmente uma instrução obtida sobre o mesmo assunto num grupo de Genebra, por nos parecer encerrar considerações de grande profundeza e interesse geral.


(Genebra,  †  4 de agosto de 1869 – Médium: Sra. B.)

P. – A embriaguez do homem dominado pelo abuso dos licores alcoólicos assemelha-se às desordens provocadas pela superexcitação ou pelo esgotamento do fluido locomotor que anima o sistema nervoso? – Não é também uma embriaguez especial a divagação momentânea do homem ferido subitamente em suas mais caras afeições?

Resposta. – Efetivamente, há três espécies de embriaguez no encarnado: a embriaguez material, a embriaguez fluídica ou perispiritual e a embriaguez mental.

A matéria propriamente dita encerra uma essência que dá vida às plantas, e esta essência circula em seus tecidos por meio de um sistema de fibras e de vasos de extrema delicadeza; poder-se-ia, com toda razão, chamar essa essência de fluido vegetal. Não obstante sua perfeita homogeneidade, ele se transforma e se modifica no corpo que ocupa e, à medida que desenvolve a planta, lhe dá uma forma material, um perfume e qualidades de natureza e potência diversas. Por isso a rosa não se parece com o lírio, nem tem o seu perfume, nem as suas propriedades; a espiga de trigo não tem a forma da videira, nem seu gosto, nem suas qualidades. Pode-se, pois, determinar em três formas bem distintas as relações das plantas com o fluido geral, que as alimenta e transforma conforme a sua natureza e o objetivo a que são chamadas a preencher na escala dos seres animados. Esta mesma lei preside ao desenvolvimento de todas as criações, daí resultando um encadeamento ininterrupto de todos os seres, desde o átomo orgânico, invisível ao olho humano, até a criatura mais perfeita. Em seu estado normal, cada ser possui a quantidade de fluido necessário para constituir o equilíbrio e a harmonia de suas faculdades. Mas o homem, pelo abuso dos licores alcoólicos, rompe o equilíbrio que deve existir entre seus diversos fluidos; daí a desorganização de suas faculdades, a divagação das ideias e a desordem momentânea da inteligência; é como numa tempestade, em que os ventos se cruzam e se elevam turbilhões de poeira, rompendo por um instante a calma da Natureza.

A embriaguez fluídica ou perispiritual é a consequência da infusão na economia [no organismo] dos perfumes das plantas e da absorção da parte semimaterial, eteriforme, dos elementos terrestres. Os narcóticos e os anestésicos estão neste número; por vezes provocam insônia, mas em geral provocam visões, sonos profundos nem sempre com despertar. Poder-se-ia dizer que o perfume é o perispírito da planta e que ele corresponde ao perispírito do homem. O uso excessivo de perfumes dá mais expansão ao laço fluídico, tornando-o mais apto a sofrer as influências ocultas, mas o desprendimento provocado pelo abuso é incompleto, irregular e traz perturbação na harmonia dos três princípios constitutivos do ser humano. Assim, poder-se-ia comparar o Espírito a um prisioneiro que se evade e corre ao acaso, aproveitando mal o momento de liberdade, que teme incessantemente perder. As visões consequentes à embriaguez fluídica não são completas nem contínuas, porque já existe equilíbrio nos fluidos reguladores e conservadores da vida.

A embriaguez mental é provocada por abalos morais violentos e inesperados; a alegria e a dor podem ser os seus promotores. É possível estabelecer uma analogia longínqua entre essa embriaguez e o que se passa na planta que, além da sua individualidade e de seu perfume, possui propriedades, que conserva e que pode utilizar, quando não pertence mais à Terra. Pode curar ou matar. A violeta, por exemplo, acalma as dores, enquanto a cicuta provoca a morte. As plantas venenosas são alimentadas pela parte impura do fluido vegetal. Todo fluido viciado, seja qual for a secção anímica a que pertença, provoca desordens, quer no corpo, quer no Espírito. Uma impressão muito viva de alegria ou de dor pode dar originar à embriaguez mental, e um abalo semelhante pode restabelecer o equilíbrio momentaneamente rompido, assim como a ingestão na economia [no organismo] de um elemento nocivo pode, em certas circunstâncias, ser um contraveneno para um elemento da mesma natureza.

Mas, admitindo a existência dessas três formas de embriaguez – material, fluídica e mental – devemos acrescentar que as três formas jamais se apresentam isoladamente à vista do observador. Um estudo superficial permite, conforme os efeitos produzidos, reconhecer a natureza da causa determinante, mas, em todos os casos, as desordens atingem, ao mesmo tempo e mais ou menos gravemente, o Espírito, o perispírito e o corpo. Talvez se pudesse dizer, com alguma razão, que a loucura moral é uma embriaguez mental crônica.

Em outra parte, voltaremos a esta questão interessante para o médico e para o psicólogo, este médico da alma.


Um Espírito


[A. DESLIENS]



[1] Brochura in-8; preço: 60 c., franco: 70 c. – Paris, Livraria Espírita, 7, rue de Lille.  † 


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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