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Revista espírita — Ano XI — Setembro de 1868

(Édition Française)

A alma da Terra

(Sumário)

1 — A questão precedente [Aumento e diminuição do volume da Terra] nos leva naturalmente à da alma da Terra, várias vezes debatida e diversamente interpretada. [v. Victor Hennequin]

A alma da Terra representa um papel principal na teoria da formação do nosso globo pela incrustação de quatro planetas, teoria cuja impossibilidade material demonstramos, conforme as observações geológicas e os dados da ciência experimental. (Vide A Gênese, cap. VII, nº 4 e seguintes.) No que concerne à alma, apoiar-nos-emos igualmente sobre os fatos.

Esta questão prejulga uma outra: A Terra é um ser vivo? Sabemos que certos filósofos, mais sistemáticos do que práticos, consideram a Terra e todos os planetas como seres animados, fundando-se no princípio de que tudo vive em a Natureza, desde o mineral até o homem. Antes de mais, cremos que há uma diferença capital entre o movimento molecular de atração e de repulsão, de agregação e de desagregação do mineral e o princípio vital da planta; há aí efeitos diferentes, que acusam causas diferentes ou, pelo menos, uma profunda modificação na causa primeira, se esta for única. (A Gênese, cap. X, nº 16 a 19.)

Mas, admitindo, por um instante, que o princípio da vida tenha sua fonte no movimento molecular, não se poderá contestar que seja ainda mais rudimentar no mineral do que na planta; ora, daí a uma alma, cujo atributo essencial é a inteligência, a distância é grande. Cremos que ninguém pensou em dotar um calhau ou um pedaço de ferro com a faculdade de pensar, de querer e de compreender. Fazendo mesmo todas as concessões possíveis a este sistema, isto é, colocando-nos do ponto de vista dos que confundem o princípio vital com a alma propriamente dita, a alma do mineral nele não estaria senão em estado de germe latente, pois que nele não se revela por nenhuma manifestação.

Um fato não menos patente que o de que acabamos de falar é que o desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desenvolvimento do princípio inteligente. O organismo se completa à medida que se multiplicam as faculdades da alma. A escala orgânica segue constantemente, em todos os seres, a progressão da inteligência, desde o pólipo até o homem, e não poderia ser de outro modo, desde que à alma é necessário um instrumento apropriado à importância das funções que deve desempenhar. De que serviria à ostra ter a inteligência do macaco, sem os órgãos necessários à sua manifestação? Se, pois, a Terra fosse um ser animado, servindo de corpo a uma alma especial, essa alma deveria ser ainda mais rudimentar que a do pólipo, pois que a Terra não tem a mesma vitalidade da planta, ao passo que, pelo papel que se atribui a essa alma, sobretudo na teoria da incrustação, dela fazem um ser dotado de razão e do mais completo livre-arbítrio, um Espírito superior, numa palavra, o que nem é racional, nem conforme à lei geral, porque jamais um Espírito teria sido mais aprisionado e pior dotado. A ideia da alma da Terra, entendida neste sentido, tanto quanto a que faz da Terra um animal, deve, pois, ser arrolada entre as concepções sistemáticas e quiméricas.

Aliás, o mais ínfimo animal tem a liberdade de seus movimentos; vai aonde quer e ainda quando lhe apraz, enquanto os astros, esses pretensos seres vivos e animados por inteligências superiores, estariam sujeitos a movimentos perpetuamente automáticos, sem jamais poderem afastar-se de sua rota; seriam, na verdade, bem menos favorecidos que o último pulgão. Se, conforme a teoria da incrustação, as almas dos quatro planetas que formaram a Terra, tiveram a liberdade de reunir os seus invólucros, teriam a de ir aonde quisessem, de mudar à vontade as leis da mecânica celeste. Por que não mais a têm?

Há ideias que se refutam por si mesmas e sistemas que caem desde que se perscrutem seriamente as suas consequências. O Espiritismo seria ridicularizado de forma justa por seus adversários, se se fizesse o editor responsável de utopias que não suportam o exame. Se o ridículo não o matou, é porque só mata o que é ridículo.

Por alma da Terra pode entender-se, mais racionalmente, a coletividade dos Espíritos incumbidos da elaboração e da direção de seus elementos constitutivos, o que já supõe certo grau de adiantamento e de desenvolvimento intelectual; ou, melhor ainda: o Espírito a quem está confiada a alta direção dos destinos morais e do progresso de seus habitantes, missão que somente pode ser atribuída a um ser eminentemente superior em saber e em sabedoria. Em tal caso, esse Espírito não é, propriamente falando, a alma da Terra, porquanto não se acha encarnado nela, nem subordinado ao seu estado material. É um chefe preposto à sua direção, como um general o é ao comando de um exército.

Um Espírito, incumbido de missão tão importante qual a do governo de um mundo, não poderia ter caprichos, ou, então, teríamos de reconhecer em Deus a imprevidência de confiar a execução de suas leis a seres capazes de lhes contravir, a seu bel-prazer. Ora, segundo a doutrina da incrustação, a má-vontade da alma da Lua é que houvera dado causa a que a Terra ficasse incompleta.


2 — Numerosas comunicações, dadas em diversos lugares, vieram confirmar esta maneira de encarar a questão da alma da Terra. Citaremos apenas uma, que em poucas palavras as resume todas.


(Sociedade Espírita de Bordeaux, W abril de 1862)

A Terra não tem alma, que lhe pertença propriamente, porque não é um ser organizado, como os que são dotados de vida; tem-nos aos milhões, que são os Espíritos encarregados de seu equilíbrio, de sua harmonia, de sua vegetação, de seu calor, de sua luz, das estações, da encarnação dos animais, que velam, assim como a dos homens. Isto não quer dizer que tais Espíritos sejam a causa desses fenômenos: eles os presidem, como os funcionários de um governo presidem cada uma das engrenagens da administração.

A Terra progrediu à medida que se formou; progride sempre, sem jamais se deter, até o momento em que tiver atingido o máximo de sua perfeição. Tudo o que nela é vida e matéria progride ao mesmo tempo, porquanto, à medida que se realiza o progresso, os Espíritos encarregados de velar por ela e seus produtos, progridem por seu lado, pelo trabalho que lhes incumbe, ou cedem o lugar a Espíritos mais adiantados. Nesse momento ela chega a uma transição do mal ao bem, do medíocre ao belo.

Deus, criador, é a alma do Universo, de todos os mundos que gravitam no infinito, e os Espíritos incumbidos, em cada mundo, da execução de suas leis, são os agentes de sua vontade, sob a direção de um delegado superior. Esse delegado pertence, necessariamente, à ordem dos Espíritos mais elevados, porquanto seria injusto com a sabedoria divina crer que ela abandonasse ao capricho de uma criatura imperfeita o cuidado de velar pela realização do destino de milhões de suas próprias criaturas.


3 — P. Os Espíritos incumbidos da direção e da elaboração dos elementos constitutivos do nosso globo podem encarnar-se?

Resposta. – Certamente, porque, no estado de encarnação, tendo uma ação mais direta sobre a matéria, podem fazer o que lhes seria impossível como Espíritos, assim como certas funções, por sua natureza, competem mais especialmente ao estado espiritual. A cada estado são conferidas missões particulares.

Os habitantes da Terra não trabalham por sua melhoria material? Considerai, então, todos os Espíritos encarnados como fazendo parte dos que estão encarregados de fazê-la progredir, ao mesmo tempo que progridem. É a coletividade de todas essas inteligências, encarnadas e desencarnadas, inclusive o delegado superior, que constitui, a bem dizer, a alma da Terra, da qual cada um de vós faz parte. Encarnados e desencarnados são as abelhas que trabalham na edificação da colmeia, sob a direção do Espírito-chefe. Este é a cabeça, os outros são os braços.


P. – Esse Espírito-chefe também pode encarnar-se?

Resposta. – Sem dúvida alguma, quando recebe a missão, o que ocorre quando sua presença entre os homens é julgada necessária ao progresso.


Um dos vossos guias espirituais


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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