Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VIII — Junho de 1865.

(Édition Française)

Nova tática dos adversários do Espiritismo.

(Sumário)

1. — Jamais uma doutrina filosófica dos tempos modernos causou tanta emoção quanto o Espiritismo e nenhuma foi atacada com tamanha obstinação. [Vide artigo anterior.] É prova evidente de que lhe reconhecem mais vitalidade e raízes mais profundas que nas outras, já que não se toma de uma picareta para arrancar um pé de erva. Longe de se apavorarem, os espíritas devem regozijar-se com isto, pois prova a importância e a verdade da doutrina. Se esta não passasse de uma ideia efêmera e sem consistência, de uma mosca que voa, não a atacariam com tanta violência; se fosse falsa, haveriam de combatê-la com argumentos sólidos, que já teriam triunfado sobre ela. Mas, desde que nenhum dos que lhe opõem foi capaz de detê-la, é que ninguém encontrou [a falha da couraça] o seu calcanhar de Aquiles. Contudo, nem faltaram boa vontade nem talento aos seus antagonistas.


2. — Neste vasto torneio de ideias, onde o passado entra em liça com o futuro, e que tem por campo fechado o mundo inteiro, o grande júri é a opinião pública; ela escuta os prós e os contras, julga o valor dos meios de ataque e de defesa e se pronuncia pelo que dá melhores razões. Se um dos dois campeões emprega armas desleais, é condenado por antecipação. Ora, existirão armas mais desleais que a mentira, a calúnia e a traição? Recorrer a semelhantes meios é confessar-se vencido pela lógica; a causa que se reduz a tais expedientes é uma causa perdida; não será um homem, nem alguns homens que pronunciarão a sua sentença: é a Humanidade, que a força das coisas e a consciência do bem arrastam para o que é mais justo e mais racional.


3. — Vide, na história do mundo, se uma única ideia grande e verdadeira deixou de triunfar, o que quer que tenham feito para entravá-la. A esse respeito o Espiritismo nos apresenta um fato inaudito e sem paralelo: o da rapidez de sua propagação. Essa rapidez é tal que os próprios adversários ficam estupefatos; por isso o atacam com o furor alucinado dos combatentes que perdem o sangue-frio e se deixam ferir por suas próprias armas.

Entretanto, a luta está longe de terminar; ao contrário, é de esperar que tome maiores proporções e um outro caráter. Seria por demais prodigioso e incompatível com o estado atual da Humanidade que uma doutrina, que traz em si o germe de toda uma renovação, se estabelecesse pacificamente em alguns anos. Ainda uma vez, não nos lamentemos; quanto mais rude for a luta, mais estrondoso será o triunfo. Ninguém duvida que o Espiritismo cresceu pela oposição que lhe fizeram; deixemos, pois, essa oposição esgotar os seus recursos: ele crescerá mais ainda quando ela tiver revelado sua própria fraqueza a todos os olhos. O campo de combate do Cristianismo nascente era circunscrito; o do Espiritismo se estende por toda a superfície da Terra. O Cristianismo não pôde ser abafado sob ondas de sangue; cresceu com seus mártires, como a liberdade dos povos, porque era uma verdade. O Espiritismo, que é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência e isento dos abusos, crescerá do mesmo modo sob a perseguição, porque ele também é uma verdade.


4. — A força aberta é reconhecida impotente contra a ideia espírita, mesmo nos países onde ela é exercida com toda liberdade; aí está a experiência para o atestar. Comprimindo a ideia num ponto, fazem-na brotar de todos os lados; uma compreensão geral levaria a uma explosão. Contudo, nossos adversários não renunciaram; enquanto esperam, recorrem a outra tática: a das manobras surdas.

Já tentaram muitas vezes, e o farão ainda, comprometer a doutrina, impelindo-a por uma via perigosa ou ridícula, para a desacreditar. Hoje é semeando a divisão de modo sub-reptício, lançando o pomo de discórdia, na expectativa de fazer germinar a dúvida e a incerteza nos espíritos, provocar o desânimo, verdadeiro ou simulado e levar a perturbação moral entre os adeptos. Mas não são adversários confessos que assim agiriam. O Espiritismo, cujos princípios têm tantos pontos de semelhança com os do Cristianismo, também deve ter os seus Judas, para que tenha a glória de sair triunfando dessa nova prova. Por vezes o dinheiro é o argumento que substitui a lógica. Não se viu uma mulher confessar ter recebido 50 francos para simular loucura, depois de haver assistido a uma única reunião espírita? [Vide: A guerra surda.]

Não é, pois, sem razão que, na Revista de março de 1863, publicamos o artigo sobre os falsos irmãos; aquele artigo não agradou a todos; alguns queriam que fôssemos mais claros, que abríssemos os olhos dos outros, apertando-nos a mão em sinal de aprovação como se fôssemos tolos. Mas que importa! Nosso dever é premunir os espíritas sinceros contra as armadilhas que lhes são estendidas. Quanto aos que nos abandonaram, para os quais esses princípios eram muito rigorosos, neste como em vários outros pontos, é que sua simpatia era superficial e não do fundo do coração, não havendo nenhuma razão para nos prendermos a eles. Temos que nos ocupar com coisas mais importantes que a sua boa ou má vontade a nosso respeito. O presente é fugidio; amanhã não existirá mais; para nós nada é; o futuro é tudo, e é para o futuro que trabalhamos. Sabemos que as simpatias verdadeiras nos seguirão; as que estão à mercê de um interesse material não concretizado ou de um amor-próprio insatisfeito, não merecem este nome.

Quem quer que ponha o seu ponto de vista fora da estreita esfera do presente não é mais perturbado pelas mesquinhas intrigas que se agitam à sua volta. É o que nos esforçamos para fazer, e é o que aconselhamos aos que querem ter a paz da alma neste mundo. (O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo II, nº 15.)


5. — Como todas as ideias novas, a ideia espírita não podia deixar de ser explorada por gente que, não tendo alcançado êxito em nada por má conduta ou por incapacidade, estão à espreita do que é novo, na esperança de aí encontrar uma mina mais produtiva e mais fácil; se o sucesso não corresponde à sua expectativa, não o atribuem a si mesmos, mas à coisa, que declaram má. Tais pessoas só têm de espíritas o nome. Melhor do que ninguém, pudemos ver essa manobra, tendo sido muitas vezes o alvo dessas explorações, às quais não quisemos dar a mão, o que não nos valeu amigos.


6. — Voltemos ao nosso assunto. O Espiritismo, repetimos, ainda tem de passar por rudes provas e é aí que Deus reconhecerá seus verdadeiros servidores, por sua coragem, firmeza e perseverança. Os que se deixarem abalar pelo medo ou por uma decepção são como esses soldados, que só têm coragem nos tempos de paz e recuam ao primeiro tiro. Entretanto, a maior prova não será a perseguição, mas o conflito das ideias que será suscitado, com cujo auxílio esperam romper a falange dos adeptos e a imponente unidade que se faz na doutrina.

Esse conflito, embora provocado com má intenção, venha dos homens ou dos maus Espíritos, é, contudo, necessário e, ainda que causasse uma perturbação momentânea em algumas consciências fracas, terá por resultado definitivo a consolidação da unidade. Como em todas as coisas, não se deve julgar os pontos isolados, mas ver o conjunto. É útil que todas as ideias, mesmo as mais contraditórias e as mais excêntricas, venham à luz; provocam o exame e o julgamento, e, se forem falsas, o bom-senso lhes fará justiça. Cairão forçosamente ante a prova decisiva do controle universal, como já caíram tantas outras. Foi esse grande critério que fez a unidade atual; será ele que a concluirá, porque é o crivo que deve separar o bom do mau grão, e a verdade brilhará mais quando sair do crisol isenta de todas as escórias. O Espiritismo ainda está em ebulição; deixemos, pois, que a escuma suba à superfície e se derrame: ele apenas ficará mais depurado. Deixemos aos adversários a alegria maligna e pueril de soprar o fogo para provocar essa ebulição, porque, sem o querer, eles apressam a sua depuração e o seu triunfo e eles próprios se queimarão no fogo que acendem. Deus quer que tudo seja útil à causa, mesmo aquilo que é feito com a intenção de prejudicá-la.


7. — Não esqueçamos que o Espiritismo não está acabado; ainda não fez senão fincar balizas. Mas, para avançar com segurança, deve fazê-lo gradualmente, à medida que o terreno estiver preparado para o receber, e bastante consolidado para nele pôr o pé com segurança. Os impacientes, que não sabem esperar o momento propício, comprometem a colheita como comprometem a sorte das batalhas.

Entre os impacientes, sem dúvida alguns há de muito boa-fé e que gostariam que as coisas andassem ainda mais depressa; assemelham-se a essas criaturas que julgam adiantar o tempo adiantando o relógio. Outros, não menos sinceros, são impelidos pelo amor-próprio a serem os primeiros a chegar; semeiam antes da estação e apenas colhem frutos malogrados. Infelizmente, ao lado destes existem outros que empurram o carro a mil por hora, na esperança de vê-lo tombar.

Compreende-se que certos indivíduos, que queriam ter sido os primeiros, nos censurem por termos ido rápido demais; que outros, por motivos contrários, nos reprochem por termos ido muito devagar; mas o que é menos explicável é, por vezes, ver essa dupla censura feita pelo mesmo indivíduo, o que não é dar prova de muita lógica. Quer sejamos aguilhoados por ir à direita ou à esquerda, nem por isso deixaremos de seguir, como temos feito até agora, a linha que nos foi traçada, na ponta da qual está o objetivo que queremos alcançar. Iremos para frente ou esperaremos, apressaremos o passo ou nos retardaremos, conforme as circunstâncias, e não segundo a opinião deste ou daquele.


8. — O Espiritismo marcha em meio a adversários numerosos que, não o tendo podido tomar à força, tentam tomá-lo pela astúcia; insinuam-se por toda parte, sob todas as máscaras e até nas reuniões íntimas, na esperança de aí surpreender um fato ou uma palavra que muitas vezes terão provocado, e que esperam explorar em seu proveito. Comprometer o Espiritismo e torná-lo ridículo, tal é a tática, com o auxílio da qual esperam desacreditá-lo a princípio, para mais tarde terem um pretexto para mandar interditar, se possível, o seu exercício público. É a armadilha contra a qual devemos nos precaver, porque é estendida de todos os lados, e na qual, sem o querer, são apanhados os que se deixam levar pelas sugestões dos Espíritos enganadores e mistificadores.

O meio de frustrar essas maquinações é seguir o mais exatamente possível a linha de conduta traçada pela doutrina; sua moral, que é a sua parte essencial, é inatacável, não se dá ensejo a nenhuma crítica fundada e a agressão se torna mais odiosa. Achar os espíritas em falta e em contradição com seus princípios seria uma boa sorte para os seus adversários; assim, vede como se empenham em acusar o Espiritismo de todas as aberrações e de todas as excentricidades pelas quais não poderia ser responsável. A doutrina não é ambígua em nenhuma de suas partes; é clara, precisa, categórica nos mínimos detalhes; só a ignorância e a má-fé podem enganar-se sobre o que ela aprova ou condena. É, pois, um dever de todos os espíritas sinceros e devotados repudiar e desaprovar abertamente, em seu nome, os abusos de todo gênero que pudessem comprometê-la, a fim de não lhes assumir a responsabilidade. Pactuar com os abusos seria acumpliciar-se com eles e fornecer armas aos adversários.

Os períodos de transição são sempre difíceis de passar. O Espiritismo está nesse período; n atravessa-o com tanto menos dificuldade quanto mais os seus adeptos forem prudentes. Estamos em guerra; lá está o inimigo a espiar, prestes a explorar o menor passo em falso em seu proveito, e disposto a meter o pé na lama, se o puder.

Contudo, não nos apressemos em lançar pedras e suspeições com muita leviandade, sobre aparências que poderiam ser enganosas; a caridade, aliás, faz da moderação um dever, mesmo para os que estão contra nós. A sinceridade, todavia, mesmo em seus erros, tem atitudes de franqueza com as quais não é possível equivocar-se, e que a falsidade jamais simulará completamente, porquanto, mais cedo ou mais tarde, deixa cair a máscara. Deus e os bons Espíritos permitem que ela se traia por seus próprios atos. Se uma dúvida atravessa o Espírito, deve ser apenas um motivo para se guardar reserva, o que pode ser feito sem faltar às conveniências.



[1] [Sobre os seis períodos de estabelecimento do Espiritismo vide: Período de luta.]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir