Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VI — Setembro de 1863.

(Édition Française)

Segunda carta ao Padre Marouzeau.

(Vide o número de julho de 1863.)
(Sumário)

1. — Senhor vigário,

Em minha carta precedente, dei os motivos que me levam a não responder a vossa brochura, artigo por artigo. n Não os lembrarei, limitando-me a destacar algumas passagens.

Dizeis: “Concluímos de tudo isto que o Espiritismo deve limitar-se a combater o materialismo, a dar ao homem provas palpáveis de sua imortalidade, por meio de manifestações de além-túmulo bem constatadas; que, fora deste caso, tudo nele não passa de incerteza, trevas espessas, ilusões, um verdadeiro caos; que, como doutrina filosófico-religiosa, é apenas uma utopia, como tantas outras consignadas na História e da qual o tempo fará boa justiça, a despeito do exército espiritual, de que vos constituístes comandante-em-chefe.”

Antes de mais, senhor vigário, haveis de convir que as vossas previsões praticamente não se realizaram e que o tempo não tem pressa em fazer justiça ao Espiritismo. Se este não sucumbiu, não o foi pela indiferença e pela negligência do clero e de seus partidários. Ataques não faltaram: brochuras, jornais, sermões, excomunhões fizeram fogo em toda a linha; nada faltou, nem mesmo o talento e o mérito incontestáveis de alguns campeões. Se, pois, sob tão formidável artilharia, as fileiras do Espiritismo aumentaram, ao invés de diminuir, é que o fogo virou fumaça. Ainda uma vez, diz-nos uma regra de lógica elementar que se julga uma força por seus efeitos; não pudeste deter a marcha do Espiritismo; portanto ele vai mais depressa que vós; e a razão disso é que ele vai à frente, enquanto vos arrastais na retaguarda, e o século tem pressa.

Examinando os diversos ataques dirigidos contra o Espiritismo, ressalta um ensinamento, ao mesmo tempo grave e triste; os que vêm do partido céptico e materialista são caracterizados pela negação, pela zombaria mais ou menos espirituosa, por brincadeiras geralmente tolas e vulgares, ao passo que – é lamentável dizer – é nos do partido religioso que se encontram as mais grosseiras injúrias, os ultrajes pessoais, as calúnias; é da cátedra que caem as palavras mais ofensivas; é em nome da Igreja que foi publicado o ignóbil e mentiroso panfleto sobre o pretenso orçamento do Espiritismo. Dei algumas amostras na Revista e não disse tudo, por deferência e porque sei que nem todos os membros do clero aprovam semelhantes coisas. É útil, entretanto, que mais tarde se saiba de que armas se serviram para combater o Espiritismo. Infelizmente, os artigos de jornais são fugazes como as folhas que os contêm; mesmo as brochuras têm uma existência efêmera e em alguns anos os nomes dos mais ardentes e dos mais biliosos antagonistas provavelmente estarão esquecidos! Só há um meio de prevenir este efeito do tempo: é colecionar todas as diatribes, venham de que lado vierem, e fazer uma coletânea, que não será uma das páginas menos instrutivas da história do Espiritismo. Não me faltam documentos para esse trabalho e, lamento dizer, são publicações feitas em nome da religião que, até hoje, têm fornecido o mais forte contingente. Constato com prazer que a vossa brochura ao menos constitui exceção no que respeita à urbanidade, se não pela força dos argumentos.

Em vossa opinião, senhor vigário, tudo no Espiritismo não passa de incerteza, trevas espessas, ilusões, caos, utopias. Então confessais que não é muito perigoso, pois ninguém deverá compreendê-lo. O que é que a Igreja pode temer de uma coisa tão absurda? Se é assim, por que essa demonstração de forças? Vendo tão grande fúria, dir-se-ia que ela tem medo. De ordinário não se dá um tiro de canhão contra uma mosca que voa. Não há contradição em dizer, de um lado, que o Espiritismo é temível, que ameaça a religião e, do outro, que nada é?


2. — No trecho supracitado noto, de passagem, um erro, certamente involuntário, pois não suponho que, a exemplo de alguns de vossos colegas, alterais conscientemente a verdade por necessidade de ofício. Dizeis: “A despeito do exército espiritual, do qual vos constituístes comandante-em-chefe.” Antes de mais perguntarei o que entendeis por exército espiritual. É o exército dos Espíritos ou dos espíritas? A primeira interpretação vos levaria a dizer um absurdo; a segunda, uma falsidade, pois é notório que jamais me constituí chefe, seja do que for. Se os espíritas dão-me esse título, é por um sentimento espontâneo de sua parte, em razão da confiança que se dignaram de me conceder, ao passo que dais a entender que me impus e tomei essa iniciativa, coisa que nego formalmente. Aliás, se o sucesso da doutrina que professo me dá uma certa autoridade sobre os adeptos, é uma autoridade puramente moral, que não uso senão para lhes recomendar calma, moderação e abstenção de qualquer represália contra os que os tratam mais indignamente, para lhes lembrar, numa palavra, a prática da caridade, mesmo para com os seus inimigos.


3. — A parte mais importante deste parágrafo é aquela em que dizeis que o Espiritismo deve limitar-se a combater o materialismo e provar a imortalidade da alma por meio de manifestações de além-túmulo. Então o Espiritismo serve para alguma coisa! Se as manifestações de além-túmulo são úteis para destruir o materialismo e provar a imortalidade da alma, não é o diabo que se manifesta. Para chegar a essa prova que, segundo vós, ressalta dessas manifestações, é preciso que nelas se reconheçam os pais e os amigos. Portanto, os Espíritos que se comunicam são as almas dos que viveram. Assim, senhor vigário, estais em contradição com a doutrina professada por vários de vossos ilustres confrades, a saber, que só o diabo pode comunicar-se. É um ponto de doutrina ou uma opinião pessoal? No segundo caso, uma não tem mais autoridade que a outra; no primeiro, proclamais uma heresia.

Há mais: considerando-se que as comunicações de além-túmulo são úteis para combater a incredulidade sobre a base fundamental da religião – a existência e a imortalidade da alma; uma vez que o Espiritismo deve servir para tal fim, então é licito a todos nós buscar na evocação o remédio para a dúvida que a religião, sozinha, não pôde vencer. Por conseguinte, é permitido a todo crente, a todo bom católico, mesmo a todo sacerdote servir-se da evocação para reconduzir ao aprisco as ovelhas tresmalhadas. Se o Espiritismo tem meios de dissipar dúvidas que a religião é incapaz de destruir, é porque oferece recursos que a religião não possui, pois, do contrário, não haveria um só incrédulo na religião católica. Por que, então, ela repele um meio eficaz de salvar as almas? Por outro lado, como conciliar a utilidade que reconheceis nas comunicações de além-túmulo com a proibição formal que a Igreja faz de evocar os mortos? Desde que é princípio rigoroso que não se pode ser católico sem se conformar escrupulosamente aos preceitos da Igreja; que o menor desvio de seus mandamentos é uma heresia, eis o senhor vigário bem e devidamente herético, pois declarais bom aquilo que ela condena. Dizeis que o Espiritismo é apenas caos e incerteza; então sois muito mais claro? De que lado está a ortodoxia, já que uns pensam de um modo, e outros pensam o contrário? Como quereis que se esteja de acordo quando vós mesmos estais em contradição com as vossas palavras? Vossa refutação é intitulada: Refutação completa da Doutrina Espírita do ponto de vista religioso. Quem diz completo, diz absoluto; se a refutação é completa, não deve deixar nada subsistir; e eis que, do próprio ponto de vista religioso, reconheceis uma utilidade imensa àquilo que a Igreja proíbe! Haverá maior utilidade que reconduzir a Deus os incrédulos? Melhor teria sido intitular vossa brochura de: Refutação da doutrina demoníaca da Igreja. Aliás, não é a única contradição que eu poderia apontar. Mas, tranquilizai-vos, pois não sois o único dissidente; de minha parte conheço bom número de eclesiásticos que não creem mais do que vós na comunicação exclusiva do diabo; que se ocupam de evocações com toda segurança de consciência; que não acreditam mais do que eu nas penas irremissíveis e na danação eterna absoluta, pondo-se de acordo, desse modo, com mais de um Pai da Igreja, como vos será demonstrado mais tarde. Sim, muito mais sacerdotes do que se pensa encaram o Espiritismo de um ponto mais elevado; chocados com a universalidade das manifestações e com o espetáculo imponente desta marcha irresistível, nisso veem a aurora de uma nova era e um sinal da vontade de Deus, ante a qual se inclinam em silêncio.

Dizeis, senhor vigário, que o Espiritismo deveria parar em tal ponto, e não ir além. Em tudo é preciso ser consequente consigo mesmo. Para que essas almas possam convencer os incrédulos de sua existência, é necessário que falem. Ora, podemos impedi-las de dizer o que querem? É culpa minha se vêm descrever sua situação, feliz ou infeliz, de modo diverso do que ensina a Igreja? se vêm dizer que já viveram e viverão ainda corporalmente? que Deus não é cruel, nem vingativo, nem inflexível, como o apresentam, mas bom e misericordioso? se, em todos os pontos do globo onde as chamam para se convencerem da vida futura, elas dizem a mesma coisa? Enfim, é culpa minha se o quadro que fazem do futuro reservado aos homens é mais sedutor que o que ofereceis? se os homens preferem a misericórdia à danação? Quem fez a Doutrina Espírita? São suas palavras, e não a minha imaginação; são os próprios atores do mundo invisível, as testemunhas oculares das coisas de além-túmulo que a ditaram e ela só foi estabelecida sobre a concordância da imensa maioria das revelações feitas em todos os lados e a milhares de pessoas que eu jamais tinha visto. Em tudo isto não fiz senão recolher e coordenar metodicamente o ensino dado pelos Espíritos; sem levar em conta opiniões isoladas, adotei as do maior número, afastando todas as ideias sistemáticas, individuais, excêntricas ou em contradição com os dados positivos da Ciência.

Desses ensinamentos e de sua concordância, bem como da atenta observação dos fatos, ressalta que as manifestações espíritas nada têm de sobrenatural, mas, ao contrário, resultam de uma lei da Natureza, até hoje desconhecida, como o foram durante muito tempo as da gravitação, do movimento dos astros, da formação da Terra, da eletricidade, etc. Desde que essa lei está na Natureza, é obra de Deus, a menos que se diga que a Natureza é obra do diabo. Esta lei, explicando uma porção de coisas que, sem ela, seriam inexplicáveis, converteu tantos incrédulos à existência da alma que o fato propriamente dito das manifestações e a sua prova está no grande número de materialistas reconduzidos a Deus só pela leitura das obras, sem nada terem visto. Teria sido melhor que permanecessem na incredulidade, com risco de nem mesmo estarem na ortodoxia católica?

A Doutrina Espírita não é obra minha, mas dos Espíritos. Ora, se esses Espíritos são as almas dos homens, ela não pode ser obra do demônio. Se fosse minha concepção pessoal, vendo seu prodigioso sucesso eu não poderia senão felicitar-me; mas eu não me poderia atribuir o que não é meu. Não, ela não é obra de um só, homem ou Espírito, que, fosse quem fosse, não lhe poderia ter dado uma sanção suficiente; é obra de uma multidão de Espíritos, e é isto que constitui a sua força, pois cada um pode receber a sua confirmação. O tempo, como dizeis, far-lhe-á boa justiça? Para tanto é preciso que deixe de ser ensinada, isto é, que os Espíritos deixassem de existir e de se comunicarem em toda a Terra; seria preciso, além disso, que ela deixasse de ser lógica e de satisfazer às aspirações dos homens. Acrescentais esperar que eu reconheça meu erro. Não o creio e, francamente, não são os argumentos de vossa brochura que me farão mudar de opinião, nem desertar do posto em que me colocou a Providência, no qual tenho todas as alegrias morais a que um homem pode aspirar neste mundo, vendo frutificar o que semeou. É uma felicidade muito grande e muito doce, eu vos asseguro, à vista dos que tornou felizes, de tantos homens arrancados ao desespero, ao suicídio, à brutalidade das paixões e reconduzidos ao bem. Uma só de suas bênçãos me paga largamente de todas as fadigas e de todos os insultos. Não está no poder de ninguém me arrancar esta felicidade; não a conheceis, visto que ma quereis tirar. Eu vo-la desejo de toda a minha alma; tentai e vereis.

Senhor vigário, eu vos concedo dez anos de prazo para ver o que então pensareis da doutrina.

Aceitai, etc.

Allan Kardec.



[1] [Marouzeau (L’abbé) Réfutation complète de la doctrine spirite.]


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