Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VI — Junho de 1863.

(Édition Française)

Orçamento do Espiritismo,

ou exploração da credulidade humana.

Sob esse título, um antigo oficial reformado, ex-representante do povo na Assembleia Constituinte de 1848, publicou em Argel  †  uma brochuran na qual, buscando provar que o objetivo do Espiritismo é uma gigantesca especulação, faz cálculos dos quais resultam para nós rendimentos fabulosos, que deixam muito para trás os milhões com que tão generosamente nos gratificou certo abade de Lyon  †  (Vide a Revista de junho de 1862). [Vide também as explicações de Allan Kardec no item 2 do artigo: Relatório da caixa do Espiritismo.] Para pôr nossos leitores em condição de apreciarem esse interessante inventário, citamo-lo textualmente, bem como as conclusões do autor. Tal extrato dará uma ideia do que pode conter o restante da brochura, do ponto de vista da apreciação do Espiritismo.


“Sem nos determos na análise de todos os artigos que aparentemente dizem respeito às provas do neofitismo e à disciplina da Sociedade, chamamos a atenção do leitor para os artigos 15 e 16. Tudo está lá.

“Aí verá que, sob o pretexto de prover às despesas da Sociedade, cada membro titular paga: 1º – uma entrada de 10 fr.; 2º – uma quota anual de 24 fr.; e cada sócio livre paga uma quota de 20 fr. por ano.

“As quotas são pagas integralmente por ano, isto é, adiantadamente: o Sr. Allan Kardec toma suas precauções contra as deserções.

“Ora, pelo entusiasmo que se nota em toda parte pelo Espiritismo, cremos ser modesto contando apenas 3.000 sócios para Paris, tanto livres quanto titulares. Tais quotas, pois, montariam 63.000 fr. por ano, sem considerar as entradas que serviram para montar o negócio.

“Só contaremos por alto os lucros com a venda de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns. Devem ser consideráveis, pois não conhecemos nenhuma obra em maior voga, voga firmada no insaciável desejo que leva o homem a penetrar o mistério da vida futura.

“Mas, do que precede, ainda não mostramos a mais abundante fonte de lucros. Existe uma revista mensal espírita, publicada pelo Sr. Allan Kardec, coletânea indigesta que ultrapassa de muito as lendas maravilhosas da Antiguidade e da Idade Média, cuja assinatura anual é de 10 fr. para Paris, 12 fr. para as províncias e 14 fr. para o estrangeiro.

“Ora, qual dos numerosos adeptos do Espiritismo que, em falta de 10 fr. por ano (cerca de 90 centavos por mês) se privaria de sua parte de aparições, evocações, manifestações de Espíritos e de lendas? Não se pode pois contar, na França e no estrangeiro, menos de 30.000 assinantes da Revista, produzindo


um total anual de

300.000 fr.

“Os quais, com as quotas de

63.000 fr.

“dão um total de

363.000 fr.

“As despesas a deduzir são:


“1º O aluguel da sala de sessões da Sociedade, salários dos secretários, do tesoureiro, auxiliares de serviços e bom número de médiuns. Julgamos estar acima da realidade calculando essas despesas em


40.000 fr.

“Preço de custo da Revista: Um número de 32 páginas não custa mais de 20 centavos; os doze números do ano custarão 2 fr. 40 c., que, repetidos 30.000 vezes, dão a cifra de


72.000 fr.

“Total das despesas……………

112.000 fr.


Subtraindo esses gastos dos 363.000 fr., resta para o Sr. Allan Kardec um lucro anual líquido de 250.000 fr., sem contar o da venda de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns.

“Do jeito como marcha a epidemia, dentro de pouco tempo a França será espírita, se já não o é de fato; e como não se pode ser bom espírita se ao menos não se for sócio livre e assinante da Revista, é provável que em 20 milhões de habitantes, de que se compõe aquela metade, haja 5 milhões de sócios e igual número de assinantes da Revista. Consequentemente, a renda dos presidentes e vice-presidentes das sociedades espíritas será de 100 milhões por ano, e a do Sr. Allan Kardec, proprietário da Revista e soberano pontífice, 38 milhões.

“Se o Espiritismo ganhar a outra metade da França, esta renda será dobrada; e, se a Europa se deixar infestar, não será mais por milhões, mas por bilhões que deve ser contada.

“Quanta ingenuidade, espíritas! Que pensais dessa especulação baseada em vossa simplicidade? Acaso poderíeis imaginar que do jogo das mesas girantes pudessem sair semelhantes tesouros? E agora estais edificados pelo ardor com que fundam sociedades os propagadores da doutrina?

“Não têm razão os que dizem que a estupidez humana é uma mina inesgotável a ser explorada?

“Examinando agora os meios postos em prática pelo Sr. Allan Kardec, sua habilidade como especulador será a única coisa que não poderá ser posta em dúvida.

“Sabe ele que, na onda do sucesso universal das mesas girantes, acha-se toda feita, e sem custar um centavo, a coisa mais difícil de se conseguir: a publicidade.

“Ora, em tais circunstâncias prometer desvendar, por meio das mesas girantes, os mistérios do porvir e da vida futura, era dirigir-se a uma imensa clientela, ávida por esses mistérios e, consequentemente, disposta a escutar suas revelações. Depois, pensando que os cultos existentes podiam lhe tirar um bom número de adeptos, ele proclama a sua decadência. Lê-se em sua brochura O Espiritismo em sua expressão mais simples (pág. 15): “Do ponto de vista religioso, o Espiritismo tem por base as verdades fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade, as penas e recompensas futuras; mas independe de qualquer culto particular.”

“Esta doutrina, feita por encomenda para seduzir o número sempre crescente de homens que já não querem suportar nenhuma hierarquia social, não podia deixar de surtir os seus efeitos.


(Observação – Em vossa opinião, pois, há muitos para quem o jugo da religião é insuportável!)


“O que nos surpreende extremamente é que autorizando a pregação do Espiritismo, não tenha visto o governo que essa audaciosa tentativa contém o germe da abolição de sua própria autoridade; porque, enfim, quando a epidemia tiver crescido ainda mais, não é possível que, por injunção dos Espíritos, seja decretada a abolição de uma autoridade que pode ameaçar a existência do Espiritismo?

“Poder-se-ia, sem perigo, permitir as sociedades espíritas. Mas não seria uma medida sensata a interdição de suas publicações?

“A seita ter-se-ia limitado ao recinto das sessões e provavelmente jamais ultrapassaria o impacto das representações de Conus ou de Robert Houdin.

“Mas a lei é ateia, disse a filosofia moderna; e é em virtude desse paradoxo que um homem pôde proclamar a derrocada da autoridade da Igreja.

“Este exemplo, diga-se de passagem, demonstraria a olhos menos clarividentes a sabedoria dos legisladores da antiguidade, que não acreditavam pudesse a ordem material coexistir com a desordem moral, ligando tão intimamente, em seus códigos, as leis civis e as leis religiosas.

“Se estivesse no poder da Humanidade destruir as criações espirituais de Deus, o primeiro efeito do Espiritismo seria arrancar a Esperança do coração do homem.

“Que esperaria o homem na Terra, se adquirisse a convicção (não dizemos a prova) de que após a morte terá à sua disposição, e indefinidamente, várias existências corporais?

“Esse dogma, que outra coisa não é senão a metempsicose tirada de Pitágoras, não é capaz de enfraquecer no homem o sentimento do dever e a lhe fazer dizer aqui: Para mais tarde os negócios sérios? A caridade, tão fortemente recomendada pelo Cristo e pela Igreja, e da qual o próprio Espiritismo afeta fazer a pedra angular de seu edifício, não recebe um golpe mortal?

“Outro efeito do Espiritismo é transformar a fé, que é um ato de livre-arbítrio e de vontade, numa credulidade cega.

“Assim, para fazer triunfar a especulação do Espiritismo ou das mesas girantes, prega o Sr. Allan Kardec uma doutrina cuja tendência é a destruição da fé, da esperança e da caridade.

“A despeito disto, que se tranquilize o mundo cristão pois o Espiritismo não prevalecerá contra a Igreja.

“Reconhecer-se-á todo o valor de um princípio religioso (como diz o Sr. bispo de Argel, em sua carta de 13 de fevereiro de 1863, aos vigários de sua diocese), porque basta por si só para vencer todas as hesitações, todas as oposições e todas as resistências.”

“Mas há verdadeiros espíritas? – Não o negaremos, enquanto um homem sentir que a esperança não se extinguiu em seu coração.

“Que, há, pois, no Espiritismo? Nada mais que especuladores e papalvos. E no dia em que a autoridade temporal compreender sua solidariedade com a autoridade moral e apenas se limitar a proibir as publicações espíritas, essa especulação imoral cairá para não mais se levantar.”


O jornal de Argel, Akhbar, de 28 de março de 1863, num artigo tão indulgente quanto a brochura, reproduzindo uma parte dos argumentos, conclui que está devidamente provado, por cálculos autênticos, que o Espiritismo nos dá atualmente uma renda positiva de 250.000 fr. por ano. O autor da brochura vê as coisas ainda mais largamente, pois suas previsões a elevam daqui a poucos anos a 38 milhões, isto é, a uma cifra superior à lista civil dos mais ricos soberanos da Europa. Certamente não nos daremos ao trabalho de combater cálculos que se refutam pelo próprio exagero, mas que provam uma coisa: o pavor que causa aos adversários a rápida propagação do Espiritismo, a ponto de os levar a dizer as maiores inconsequências.

Com efeito, admitamos por um instante a realidade dos números do autor: não seria o mais enérgico protesto contra as ideias atuais, que ruiriam no mundo inteiro ante a ideia emitida por um só homem, desconhecido até seis anos atrás? Não é reconhecer a força irresistível dessa ideia? Dizeis que ela tende a suplantar a religião e, para o provar, a apresentais adotada brevemente por vinte milhões, depois por quarenta milhões de habitantes, só na França; depois exclamais: “Não, a religião não pode perecer.” Mas se vossas previsões se realizarem, que ficará para a religião? Façamos também uma pequena estatística das cifras, conforme o autor: na França, 36 milhões de habitantes; espíritas, 40 milhões; resta para os católicos menos 4 milhões, porque, em vossa opinião, não se pode ser católico e espírita. Se a Igreja é tão facilmente derrubada por um indivíduo com a ajuda de uma ideia extravagante, não é reconhecer que repousa sobre uma base muito frágil? Dizer que pode ser comprometida por um absurdo é fazer pouco caso do poder de seus argumentos e confessar o segredo de sua própria fraqueza. Onde, então, sua base inquebrantável? Desejamos à Igreja um defensor mais forte e, sobretudo, mais lógico que o autor da brochura. Nada é mais perigoso do que um amigo imprudente.

Não se pensa em tudo. O autor não refletiu que, querendo nos denegrir, exalta a nossa importância, embora o meio que emprega vai justo contra seu objetivo. Sendo o dinheiro o deus de nossa época, àquele que o possuir em maior quantidade não faltam cortesãos, atraídos pela esperança do espólio. Os bilhões com que nos gratifica, longe de afastar de nós, poriam até os príncipes aos nossos pés. Que diria o autor se, considerando-se que não temos filhos, o fizéssemos nosso legatário de algumas dezenas de milhões? Acharia a fonte má? Isto seria capaz de fazê-lo dizer que o Espiritismo serve para alguma coisa.

Em sua opinião, uma das fontes de nossas rendas imensas é a Sociedade de Paris, que ele supõe ter ao menos 3.000 membros. Antes de mais, poderíamos perguntar-lhe com que direito vem imiscuir-se nos negócios particulares; mas passamos por cima. Já que se vangloria de tanta exatidão, e esta é necessária quando se quer provar com cifras, se ele se tivesse dado ao trabalho apenas de ler o relatório da Sociedade, publicado na Revista de junho de 1862, poderia ter feito uma ideia mais exata de seus recursos, e do que chama o orçamento do Espiritismo.

Colhendo as informações alhures, e não em sua imaginação, teria sabido que a Sociedade, classificada oficialmente entre as sociedades científicas, não é uma confraria nem uma congregação, mas simples reunião de pessoas que se ocupam do estudo de uma ciência nova, que aprofunda; que, longe de visar o número, mais prejudicial do que útil aos trabalhos, ela o restringe em vez de o aumentar, pela dificuldade de admissões; que, em vez de 3.000 membros, jamais teve cem; que não retribui nenhum de seus funcionários, nem presidentes, vice-presidentes ou secretários; que não emprega nenhum médium pago e sempre se levantou contra a exploração da faculdade mediúnica; que jamais recebeu um centavo dos poucos visitantes que admite e nunca abriu suas portas ao público; que, fora dos sócios contribuintes, nenhum espírita lhe é tributário; que os membros honorários não pagam qualquer quota; que entre ela e as outras sociedades espíritas não existe nenhuma filiação ou solidariedade material; que o produto das cotas jamais passa pelas mãos do presidente; que toda despesa, por menor que seja, não pode ser feita sem a deliberação do comitê; enfim, que seu orçamento de 1862 foi fechado graças a uma reserva de 429 fr. 40 c.

Esse fraco resultado invalida a crescente importância do Espiritismo? Não; ao contrário, prova que a Sociedade de Paris não é uma especulação para ninguém. E quando o autor procura excitar a animosidade contra nós, dizendo aos adeptos que eles se arruínam em nosso proveito, eles simplesmente responderão que é uma calúnia, porque nada se lhes pede e eles nada pagam. Poder-se-ia dizer o mesmo de todo o mundo e não se poderia devolver a outros o argumento do autor, com cifras mais autênticas que as suas? Quanto aos trinta mil assinantes da Revista nós os desejamos. “Caluniai, caluniai – disse um autor – e sempre ficará alguma coisa.” Sim, certamente; sempre restará algo que, cedo ou tarde, recai sobre o caluniador.

Injúrias, calúnias, invenções manifestas, até a intromissão na vida privada, com vistas a lançar a desconsideração sobre um indivíduo e sobre uma numerosa classe de pessoas, essa brochura, que ultrapassou de muito todas as diatribes publicadas até hoje, tem todas as condições exigidas para ser levada à justiça. Não o fizemos, malgrado as solicitações que a respeito nos foram dirigidas, porque é uma sorte para o Espiritismo e não gostaríamos, à custa de injúrias ainda maiores, que ela não tivesse sido publicada. Nossos adversários nada poderiam fazer de melhor para seu próprio descrédito, mostrando a que tristes expedientes se reduziram para nos atacar e a que ponto o sucesso das ideias novas os apavora. E, poderíamos dizer, os faz perder a cabeça.

O efeito dessa brochura foi provocar uma enorme gargalhada em todos os que nos conhecem, e estes são numerosos. Quanto aos que não nos conhecem, ela lhes deve inspirar um vivo desejo de conhecer esse Nababo improvisado, que recolhe milhões mais facilmente do que se recolhem moedas, e a quem basta lançar uma ideia para fazer aderir a população de todo um império. Ora, como, segundo o autor, ele só atrai os tolos, resulta que este império é composto de tolos, de alto a baixo da escala. A História da Humanidade não oferece nenhum exemplo de semelhante fenômeno. Tivesse o autor sido pago para tal resultado e não se teria saído melhor. Assim, não temos de que nos queixar. n [v. também O “Écho de Sétif” ao Sr. Leblanc de Prébois.]



[1] [Louis Leblanc de Prébois – Budget du spiritisme, ou Exploitation do la crédulité humaine In-8°. 1863. Challamel. 75 c.]


[2] Escrevem-nos da Argélia, e o damos com reserva, que o autor da brochura fez parte de um grupo espírita; que seu zelo pela sua causa o tinha alçado à presidência; mas que, mais tarde, por não ter querido renunciar a certos projetos desaprovados pelos outros membros, fora destituído.


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