Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano III — Janeiro de 1860.

(Édition Française)

O Espiritismo em 1860.

(Sumário)

1. — Temos o prazer de anunciar que a Revista Espírita dá início ao seu terceiro ano de circulação, amparada pelos mais favoráveis auspícios. É com satisfação que aproveitamos o ensejo para testemunhar aos leitores a nossa gratidão pelas provas de simpatia que temos recebido diariamente. Só isso já seria motivo suficiente de encorajamento, caso não encontrássemos, na própria natureza e no objetivo de nossos trabalhos, uma larga compensação moral às fadigas que lhes são consequentes. Tal é a multiplicidade desses trabalhos, aos quais nos consagramos inteiramente, que se torna impossível responder a todas as cartas de felicitações que nos chegam. Somos, pois, obrigados a dirigir-nos coletivamente aos seus autores, rogando-lhes que aceitem os nossos agradecimentos. Estas cartas, bem assim as numerosas pessoas que nos dão a honra de com elas conferenciar a respeito desses graves problemas, convencem-nos cada vez mais do progresso do Espiritismo verdadeiro, isto é, do Espiritismo compreendido em todas as suas consequências morais. Sem nos iludirmos quanto ao alcance de nossos trabalhos, o pensamento de haver contribuído, lançando alguns grãos na balança, é para nós uma doce satisfação, porquanto essas poucas sementes terão contribuído para despertar a reflexão.

A prosperidade crescente da Revista é um indício do favor com que é acolhida. Não nos cabe senão continuar a obra na mesma linha, já que vem recebendo a consagração do tempo, sem nos afastarmos da moderação, da prudência e das conveniências que sempre nos orientaram. Deixando aos nossos contraditores o triste privilégio das injúrias e do personalismo, não os seguiremos no terreno de uma controvérsia sem objetivo. Dizemos sem objetivo porque jamais os levaria à convicção; ademais, seria pura perda de tempo discutir com pessoas que não têm a menor noção daquilo que falam. Só temos uma coisa a dizer-lhes: Estudai primeiro; depois veremos. Temos mais que fazer do que falar a quem não quer ouvir. Afinal de contas, o que importa a opinião contrária deste ou daquele? Terá essa opinião tão grande importância que possa deter a marcha natural das coisas? As maiores descobertas encontraram os mais rudes adversários, sem que por isso fossem prejudicadas. Assim, deixando a incredulidade zunir à nossa volta, jamais nos desviaremos do caminho que nos é traçado pela própria gravidade do assunto que nos ocupa.


2. — Dissemos que as ideias espíritas estão em franco progresso. Com efeito, desde algum tempo ganharam imenso terreno. Dir-se-ia que estão no ar; não, certamente, em razão do barulho da grande e da pequena imprensa. Se elas progridem, apesar e contra tudo, não obstante a má vontade encontrada em certas regiões é porque possuem vitalidade suficiente para se bastarem a si mesmas. Quem se der ao trabalho de aprofundar a questão do Espiritismo, nele encontra uma satisfação moral tão grande, a solução de tantos problemas que inutilmente havia pedido às teorias vulgares; o futuro se desdobra à sua frente de maneira tão clara, tão precisa e tão lógica, que a si mesmo confessa a impossibilidade de as coisas realmente não se passarem assim; já que um sentimento íntimo lhe dizia que assim deveria ser, é de causar admiração que não as tenha compreendido mais cedo. Desenvolvida, a ciência espírita nada mais faz que formular, tirar do nevoeiro ideias já existentes em seu foro íntimo; daí por diante o futuro se apresenta com objetivo claro, preciso, perfeitamente definido; já não marcha ao sabor das ondas: vê o seu caminho. Não é mais esse futuro de felicidade ou de desgraça que a razão não podia compreender e que, por isso mesmo, o repelia; é um futuro racional, consequência das próprias leis da Natureza, capaz de suportar o exame mais severo. Eis por que é feliz e como que aliviado de um imenso peso: o da incerteza, porquanto a incerteza é um tormento. Mau grado seu, o homem sonda as profundezas do futuro e não pode deixar de vê-lo eterno; compara-o à brevidade e à fragilidade da existência terrestre. Se o futuro não lhe oferece nenhuma certeza, ele se atordoa, concentra-se no presente e, para o tornar mais suportável, entrega-se a todos os excessos: é em vão que a consciência lhe fala do bem e do mal. Diz a si mesmo: o bem é aquilo que me faz feliz. De fato, que motivo teria para ver o bem em outra parte? Por que suportar privações? Quer ser feliz e, para ser feliz, quer gozar; gozar o que os outros possuem; quer ouro, muito ouro; a ele se apega como à sua vida, porque o ouro é o veículo de todos os prazeres materiais. Que lhe importa o bem-estar do semelhante? O seu, antes de tudo. Quer satisfazer-se no presente, por não saber se o poderá mais tarde, num futuro em que não acredita. Torna-se, assim, ávido, invejoso, egoísta e, com todos esses prazeres, não é feliz porque o presente lhe parece muito curto.

Com a certeza do futuro, tudo para ele muda de aspecto; o presente é apenas efêmero e o vê passar sem lamentar-se; é menos apegado aos prazeres terrenos, porque só lhe trazem uma sensação passageira, fugidia, que deixa vazio o coração; aspira a uma felicidade mais duradoura e, consequentemente, mais real. E onde poderá encontrá-la, senão no futuro? Mostrando-lhe, provando-lhe esse futuro, o Espiritismo o liberta do suplício da incerteza, e isso o torna feliz. Ora, aquilo que traz felicidade sempre encontra partidários.


3. — Os adversários do Espiritismo atribuem sua rápida propagação a uma febre supersticiosa que se apodera da Humanidade: o amor do maravilhoso. Antes, porém, precisariam ser lógicos; aceitaremos o seu raciocínio — se é que a isso podemos chamar raciocínio — quando tiverem explicado claramente por que essa febre atinge justamente as classes esclarecidas da sociedade, em vez das ignorantes. Quanto a nós, dizemos que é porque o Espiritismo apela ao raciocínio, e não à crença cega, que as classes esclarecidas o examinam, refletem e o compreendem. Ora, as ideias supersticiosas não suportam o exame.

Aliás, todos vós que combateis o Espiritismo, chegais a compreendê-lo? Estudastes, perscrutastes seus detalhes, pesastes maduramente todas as suas consequências? Não, mil vezes não. Falais de algo que não conheceis. Todas as vossas críticas — e não falo das tolas, vulgares e grosseiras diatribes, despidas de qualquer raciocínio e que não têm nenhum valor — refiro-me às que, pelo menos, têm aparência de seriedade, todas as vossas críticas, repito, acusam a mais completa ignorância do assunto.

Para criticar é necessário poder opor raciocínio a raciocínio, prova a prova. Será isto possível, sem conhecimento aprofundado do assunto de que se trata? Que pensaríeis de quem pretendesse criticar um quadro, sem possuir, pelo menos em teoria, as regras do desenho e da pintura? Discutir o mérito de uma ópera, sem saber música? Sabeis a consequência de uma crítica ignorante? É ser ridícula e revelar falta de juízo. Quanto mais elevada a posição do crítico, quanto mais ele se põe em evidência, tanto mais seu interesse lhe exige circunspeção, a fim de não vir a receber desmentidos, sempre fáceis de dar a quem quer que fale daquilo que não conhece. É por isso que os ataques contra o Espiritismo têm tão pouco alcance e favorecem o seu desenvolvimento, em vez de o deter. Esses ataques são propaganda; provocam exame, e o exame só nos pode ser favorável, porque nos dirigimos à razão. Não há um só artigo publicado contra a doutrina que não nos tenha proporcionado um aumento de assinaturas e de vendas de obras. O do Sr. Oscar Comettant (Vide o Siècle de 27 de outubro passado, e nossa resposta na Revista do mês de dezembro de 1859) provocou a venda, em poucos dias, na casa Ledoyen, de mais de cinquenta exemplares da famosa sonata de Mozart (que custa 2 francos, preço líquido, segundo a importante e espirituosa observação do Sr. Comettant). Os artigos do Univers, de 13 de abril e 28 de maio de 1859 (ver nossa resposta nos números da Revista de maio e julho de 1859,) esgotaram rapidamente o que restava da primeira edição de O Livro dos Espíritos, bem como outros. Mas voltemos a coisas menos materiais. Enquanto não opuserem ao Espiritismo senão argumentos desta natureza, ele nada tem a temer.


4. — Repetimos que a principal fonte do progresso das ideias espíritas está na satisfação que proporcionam a todos que as aprofundam, e que nelas veem algo mais do que um simples passatempo. Ora, como antes de tudo todos querem a felicidade, não é de admirar que se liguem a uma ideia que os torna felizes. Dissemos em algum lugar que, em se tratando de Espiritismo, o período da curiosidade passou, dando lugar ao da razão e da filosofia. A curiosidade tem tempo certo: uma vez satisfeita, muda-se o objetivo por um outro. Já não se dá a mesma coisa com quem se dirige ao pensamento sério e à razão. O Espiritismo progrediu principalmente a partir do momento em que passou a ser mais bem compreendido em sua essência íntima, desde que se viu o seu alcance, porque toca na corda mais sensível do homem: a de sua felicidade, mesmo neste mundo. Aí reside a causa de sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar.

Vós todos que atacais o Espiritismo, quereis um meio seguro de o combater com sucesso? Eu vo-lo indico. Substituí-o por algo melhor; encontrai uma solução mais lógica a todas as questões que ele resolve; dai ao homem outra certeza que o torne mais feliz, e compreendei bem o alcance da palavra certeza, porque o homem só aceita como certo o que lhe parece lógico; não”vos contenteis em dizer que isso não é, pois é muito fácil; provai, não pela negação, mas pelos fatos, que isso não é, jamais foi e não pode ser. Provai, finalmente, que as consequências do Espiritismo não tornam melhores os homens, pela prática da mais pura moral evangélica, moral. muito elogiada, mas pouco praticada. Quando tiverdes feito isso, serei o primeiro a inclinar-me perante vós. Até lá, permiti que encare vossas doutrinas, que são a negação completa do futuro, como a fonte do egoísmo, verme que corrói a sociedade e, consequentemente, como um verdadeiro flagelo. Sim, o Espiritismo é forte, mais forte do que vós, porque se apoia nos próprios alicerces da religião: Deus, a alma e as penas e recompensas futuras, baseadas no bem e no mal que se faz. Vós vos apoiais na incredulidade. Ele convida o homem à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade. Vós lhe ofereceis o nada como perspectiva e o egoísmo como consolação. Ele tudo explica, vós nada explicais. Ele prova pelos fatos e vós nada provais. Como pretendeis que se vacile entre as duas doutrinas?

Em resumo, constatamos — e cada um vê e sente como nós — que o Espiritismo deu um passo imenso no ano que findou, e esse passo é a garantia daquele que haverá de dar no ano que começa. Não somente o número de seus partidários aumentou consideravelmente, como uma notável mudança operou-se na opinião geral, mesmo entre os indiferentes. Diz-se que no fundo de tudo isso bem poderia haver alguma coisa; que não se deve ser apressado em julgá-lo; os que assim agiam, dando de ombros, começam a temer o ridículo sobre si mesmos ao ligarem o próprio nome a um julgamento precipitado, que poderá ser desmentido. Deste modo, preferem calar-se e esperar. Sem dúvida, durante muito tempo ainda haverá pessoas que, nada tendo a perder com a opinião da posteridade, procurarão denegri-lo; umas, por caráter ou por estado de ânimo; outras, por cálculo. Mas nós nos acostumamos à ideia de ir ao hospício, n desde que nos vejamos em boa companhia; e, como tantas outras, esta piada sem graça torna-se um lugar-comum, com a qual ninguém se incomoda, porque no fundo desses ataques vê-se a mais absoluta falta de raciocínio. A arma do ridículo, essa arma que se diz tão terrível, se gasta evidentemente e tomba das mãos daqueles que a empunhavam. Acaso teria perdido o seu poder? Não, contanto que não desfira golpes em falso. O ridículo não mata senão o que é ridículo em si, tendo de sério apenas a aparência, porque fustiga o hipócrita e lhe arranca a máscara; mas aquilo que é verdadeiramente sério só receberá golpes passageiros e sairá sempre triunfante da luta. Vede se uma só das grandes ideias que foram ridicularizadas em sua origem pela turba ignorante e invejosa caiu para não mais se erguer! Ora, o Espiritismo é uma das maiores ideias, porque toca na questão mais vital — a da felicidade do homem — e não se brinca impunemente com semelhante problema. Ele é forte porque tem suas raízes nas próprias leis da Natureza e responde aos inimigos fazendo, desde o início, a volta ao mundo. Alguns anos mais e seus detratores, impotentes para o combater pelo raciocínio, encontrar-se-ão de tal modo ultrapassados pela opinião dominante, de tal forma isolados, que se verão forçados a calar ou a abrir os olhos à luz.



[1] N. do T.: No original: aller à Charenton,  †  referência a famoso hospital psiquiátrico francês.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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