Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

O que é o Espiritismo.

(Segunda versão.) n
(Édition Française)

Capítulo primeiro.

Parte II.

PEQUENA CONFERÊNCIA ESPÍRITA.

1. Um segundo visitante. — Compreendo, senhor, a utilidade do estudo preliminar do qual falaste. Como predisposição pessoal, dir-vos-ei que eu não sou a favor nem contra o Espiritismo,  mas o tema por si só, excita meu interesse no mais alto grau. No círculo dos meus conhecidos encontram-se partidários, mas também os adversários; eu ouvi a este respeito argumentos muito contraditórios e me propunha apresentar-vos algumas das objeções que foram feitas em minha presença, e que me parecem ter um certo valor, para mim pelo menos, que confesso a minha ignorância.


Allan Kardec. — Será um prazer, senhor, responder às questões que me endereceis, quando elas forem feitas com sinceridade e sem segunda intenção, sem lisonjear-me, não obstante, de poder resolve-las todas. O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e onde há muito ainda a aprender; eu seria, portanto, muito presunçoso pretender resolver todas as dificuldades: eu só posso dizer o que sei.

O Espiritismo toca a todos os ramos da filosofia, da metafísica, da psicologia e da moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em poucas horas. Agora compreendeis, senhor, que ser-me-ia materialmente impossível repetir de viva voz e a cada um em especial o que escrevi sobre este assunto para o uso de todos. Numa leitura prévia, com seriedade, encontrar-se-á, além disso, a resposta à maior parte das questões que naturalmente vêm à mente; ela tem a dupla vantagem de evitar repetições inúteis e de provar um desejo sério de aprender. Se, depois disso, ainda existirem dúvidas ou pontos escuros, a explicação se torna mais fácil, porque ela se apoia em algo, e não se perde tempo ao retornar sobre os princípios mais elementares. Se mo permitir, limitar-nos-emos, portanto, até nova ordem, a algumas perguntas gerais.


2. O visitante. — Seja; queira, eu vos peço, chamar-me à ordem se eu me desviar. Eu vos pedirei primeiro dizer, que necessidade havia de criar novas palavras: espírita, Espiritismo para substituir espiritualismo, espiritualista que estão no vernáculo e que todos compreendem? Ouvi alguém tratar estas palavras de barbarismos.


A. K. — A palavra espiritualista há muito tempo tem uma acepção bem definida; é a Academia que no-la dá: ESPIRITUALISTA, aquele cuja doutrina é oposta ao materialismo. Todas as religiões necessariamente são fundadas sobre o espiritualismo. Todo aquele que acredita que há em nós outra coisa além da matéria é espiritualista, o que não implica a crença nos Espíritos e em suas manifestações. Como distingui-los daqueles que acreditam? Será necessário, portanto, empregar uma perífrase e dizer: Este é um espiritualista que acredita ou não acredita nos Espíritos. Para as coisas novas, é necessário palavras novas, se se quiser evitar os equívocos. Se tivesse dado à minha REVISTA a qualificação Espiritualista, de modo algum teria especificado seu objetivo, porque, sem falsear seu título, não teria podido dizer uma palavra dos Espíritos e nem mesmo combatê-los. Li há algum tempo num jornal, a propósito de uma obra de filosofia, um artigo que dizia que o autor havia escrito sob o ponto de vista espiritualista; ora, os partidários dos Espíritos teriam sido desiludidos singularmente se, sob a fé desta indicação, acreditassem encontrar qualquer coerência com as suas ideias. Se, portanto, adotei as palavras espírita, Espiritismo, é porque exprimem sem equívocos as ideias relativas aos Espíritos. Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas não é necessário que todos os espiritualistas sejam espíritas. Os Espíritos sendo uma quimera, ainda assim seria útil possuir termos especiais para a eles se referir, porque é necessário palavras para as ideias falsas como para as ideias verdadeiras.

Estas palavras, aliás, não são mais bárbaras que todas as que as ciências, as artes e a indústria criam cada dia; não o são indubitavelmente mais que as que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades, como: Secretividade, amatividade, combatividade, alimentatividade, afecionividade, etc. Há pessoas que, por espírito de contradição, criticam tudo o que não vem delas, e querem se dar um ar de oposição; os que levantam também miseráveis chicanas não provam senão uma coisa, é a pequenez das suas ideias. Lidar com ninharias semelhantes, é provar que estamos com falta de boas razões. Os espiritualistas que não acreditam em Espíritos devem, ao contrário, sentir prazer que uma palavra nova não permita mais confundi-los com os partidários do que eles chamam de ideias supersticiosas. n


3. O visitante. — As ideias supersticiosas, são, com efeito, o que vos acusam de reviver. Não é retornar à magia e a bruxaria da Idade Média? Não é acreditar todas as crenças populares cuja razão faz justiça?


A. K. — Aqueles que não acreditam em religião, não tratam por superstições a maior parte das crenças e das práticas religiosas? Por que, então, haveria mais superstição em acreditar que os Espíritos se manifestam, que crer na intervenção desse ou daquele santo como resultado das orações dirigidas a ele? Uma ideia não é supersticiosa senão porque é falsa; cessa de sê-lo desde o momento que é reconhecida verdadeira. A questão é, pois, saber se há ou não manifestações de Espíritos; ora, não podeis taxar a coisa de superstição enquanto não haja provado que não existem. Direis, minha razão se recusa; mas todos aqueles que creem e que não são tolos, invocam também sua razão, e mais os fatos; quais das duas razões deve prevalecer? O supremo juiz aqui é o futuro, como tem sido em todas as questões científicas e industriais  taxadas de absurdos e impossíveis à sua origem. Julgais a priori segundo vossa opinião; nós, julgamos apenas após ter visto e ter observado por muito tempo. Acrescentamos que o Espiritismo esclarecido, como o é hoje, em vez disso, tende a destruir as ideias supersticiosas, porque mostra as que são verdadeiras ou falsas nas crenças populares, e tudo o que a ignorância e o preconceito hão misturado de absurdo.


4. O visitante. — Apoiai-vos, dizeis vós, sobre fatos; mas opõe-se-vos a opinião dos sábios que os contestam, ou os explicam de forma diferente da vossa. Por que não deram atenção ao fenômeno das mesas girantes? Se eles tivessem visto algo sério, não teriam ficado em guarda, parece-me, negligenciando fatos tão extraordinários, e ainda menos repeli-los com desdém, entretanto são todos eles contra vós. Os sábios não são a flama das nações, e seu dever não é espalhar a luz? Por que teriam menosprezado uma bela oportunidade que se lhes apresentava de revelar ao mundo uma nova força?


A. K. — Traçastes o dever dos sábios de maneira admirável; mas, antes de responder a esta observação muito judiciosa, devo salientar um erro grave que cometestes dizendo que todos os sábios são contra nós. Onde o Espiritismo nasceu? Em qual classe propaga-se? Em que fileiras encontra partidários? Está entre as boas mulheres e as pessoas iletradas? De modo algum. É precisamente na classe esclarecida que ele faz a maioria dos prosélitos, e isto em todos os países do mundo; conta com um grande número de médicos em todas as nações; ora, os médicos são homens de ciência; os magistrados, os professores, os artistas, os homens de letras, os oficiais, os altos funcionários, os grandes dignitários, os eclesiásticos, etc., que se arregimentam sob sua bandeira, são pessoas às quais não se pode recusar uma certa dose de luz. Existem estudiosos não só na ciência oficial e nos corpos constituídos.

Que o Espiritismo não tenha ainda direito de cidade na ciência oficial, é um motivo para condená-lo? Se a ciência nunca tivesse se enganado, sua opinião poderia aqui pesar na balança; infelizmente a experiência prova o contrário. Não rejeitou como quimeras uma série de descobertas que mais tarde hão ilustrado a memória de seus autores? Não foi um relatório do nosso primeiro órgão científico que a França deve ter sido privada da iniciativa do vapor? Quando Fulton veio ao campo de Boulogne apresentar o seu sistema a Napoleão I que recomendou o exame imediato ao Instituto, não concluiu este que aquele sistema era um sonho impraticável e que com ele não se devia  ocupar? Devemos concluir que os membros do Instituto são ignorantes? Isto justifica os epítetos triviais, à força de mau gosto, que algumas pessoas gostam de dar-lhes? Indubitavelmente não. Não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu eminente saber, reconhecendo ao mesmo tempo apenas que eles não são infalíveis e, portanto, seu julgamento não é um último recurso, sobretudo perante ideias novas.


5. O visitante. — Admito perfeitamente que eles não sejam infalíveis; mas não é menos verdade que devido ao seu saber, sua opinião conta para alguma coisa, e que se a tivésseis de vosso lado, daria um grande peso ao vosso sistema.


A. K. — Admitis também que cada um é bom juiz apenas no que é da sua competência. Se quiserdes construir uma casa, contratareis um músico? Se estiverdes doente, far-vos-eis tratar por um arquiteto? Se tiverdes em mão um processo, tomareis o parecer de um dançarino? Finalmente, se tratardes de uma questão de teologia, fá-la-eis resolver por um químico ou um astrônomo? Não; cada um em seu ofício. As ciências ordinárias descansam sobre as propriedades da matéria que podem manipular à sua vontade; os fenômenos que produz têm como agentes as forças materiais. Os do Espiritismo têm como agentes as inteligências que têm sua independência, seu livre arbítrio e não não estão submissas aos nossos caprichos; escapam assim aos nossos métodos de laboratório e aos nossos cálculos, e, portanto, não são da alçada da ciência propriamente dito. A ciência, por conseguinte, enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como uma pilha voltaica; ela falhou, e assim devia ser, porque operou com o propósito de uma analogia que não existe; em seguida, sem ir mais longe, concluiu pela negação: julgamento temerário que o tempo encarrega-se todos os dias de reformar, como reformou outros tantos, e os que tê-lo-ão pronunciado terão vergonha de ter-se inscrito levianamente contra o poder infinito do Criador. As corporações sábias não têm e não terão jamais que se pronunciar nesta questão; não é da sua alçada decretar se Deus existe; é, portanto, um erro fazê-los juízes. Quando a opinião pública se formar a esse respeito, aceitá-lo-ão como indivíduos, e sofrerão a força das coisas. Deixem passar uma geração, e, com ela, os prejuízos do amor-próprio em que se obstina, e vereis o que será do Espiritismo, como de tantas outras verdades que foram combatidas, e que seria ridículo colocá-las em dúvida. Hoje, são os crentes que são tratados de loucos; amanhã, será a vez dos que não crerem; absolutamente como se tratavam outrora de loucos os que acreditavam que a Terra gira.

Mas nem todos os sábios julgaram do mesmo modo, e, por sábios, entendo os homens de estudo e de ciência, com ou sem título oficial. Muito fizeram o seguinte raciocínio:

“Não há efeito sem causa, e os efeitos mais vulgares podem levar ao caminho dos maiores problemas. Se Newton tivesse desprezado a queda de uma maçã; se Galvani houvesse rejeitado sua serva tratando-a de louca e visionária quando lhe falou de rãs que dançavam no prato, talvez não havíamos encontrado ainda  a admirável lei da gravitação universal, e as fecundas propriedades da pilha. O fenômeno que designa-se sob o nome burlesco de dança das mesas, não é mais ridículo que o da dança das rãs, e talvez contém também alguns destes segredos da Natureza que fazem revolução na humanidade quando se tem a chave.” Disse além disso: “Uma vez que tantas pessoas se ocupam deles, uma vez que homens sérios fizeram dele um estudo, deve haver alguma coisa, uma ilusão, uma moda passageira, se quiser, não pode ter este caráter de generalidade; pode seduzir um círculo, um pequeno grupo, mas não faz a volta ao mundo. Guardemo-nos, assim, de negar a possibilidade do que não compreendemos, com receio de receber cedo ou tarde um desmentido que não faria o elogio da nossa perspicácia.”


6. O visitante. — Muito bem; aí está um sábio que raciocina com sabedoria e prudência, e, sem ser sábio, penso como ele; mas repare que ele não afirma nada: ele duvida; ora, sobre que se baseia a crença na existência dos Espíritos, e sobretudo a possibilidade de se comunicar com eles?


A. K. — Esta crença apoia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu mesmo adotei-a apenas após maduro exame. Tendo adquirido no estudo das ciências exatas o hábito das coisas positivas, sondei, perscrutei esta ciência nova nos seus recessos mais recônditos; queria dar-me conta de tudo, porque aceito uma ideia apenas quando sei porquê e como. Esse raciocínio é precisamente aquele feito por um sábio médico outrora incrédulo, e hoje fervoroso adepto:

“Diz-se que seres invisíveis se comunicam; e porque não? Antes da invenção do microscópio, suspeitava-se da existência destes milhares de animálculos que causam tantas devastações no organismo? Onde está a impossibilidade material de que haja no espaço seres que escapam aos nossos sentidos? Teríamos por acaso a ridícula pretensão de saber tudo e de dizer a Deus que ele não pode nos ensinar mais? Se estes seres invisíveis que nos cercam forem inteligentes, porque eles não se comunicarem conosco? Se estiverem em relação com os homens, devem desempenhar um papel no seu destino, nos acontecimentos. Quem sabe? São talvez uma das potências da Natureza; um destas forças ocultas que não suspeitamos. Que novo horizonte isso abriria ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo dos invisíveis seria bem outra coisa que a dos infinitamente pequenos; seria mais que uma descoberta, seria uma revolução nas ideias. Quanta luz pode advir! Quantas coisas misteriosas explicadas! Aqueles que acreditam são ridicularizados, mas o que isso prova? Não foi do mesmo modo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi rejeitado, sobrecarregado de desgosto, tratado como insensato? Estas ideias, diz-se, são tão estranhas que não se pode acreditar; mas quem teria dito, há apenas meio século, que em poucos minutos corresponder-se-ia de uma extremidade do mundo à outra; que em cerca de horas atravessar-se-ia a França; que unicamente com o vapor de um pouco de água fervente um navio andaria contra o vento; que tirar-se-ia da água os meios de iluminação e de aquecimento; quem teria proposto iluminar toda Paris num instante só com um reservatório de uma substância invisível, ele teria rido sobremaneira. Será isso uma coisa mais prodigiosa que o espaço seja povoado de seres que pensam que, após ter vivido sobre a Terra, deixaram o seu envoltório material? Não se encontrará neste fato a explicação de uma porção de crenças que remontam à mais alta antiguidade? Semelhantes coisas valem efetivamente a pena ser aprofundadas.”

Aí estão as reflexões de um sábio, mas de um sábio sem pretensão; são também os de uma multidão de homens esclarecidos; eles viram, não superficialmente e de ânimo prevenido; estudaram seriamente e sem preconceito; tiveram a modéstia de não dizer: Não compreendemos, portanto, isso nada é; sua convicção formou-se pela observação e raciocínio. Se estas ideias tivessem sido quimeras, pensais que todos esses homens doutos tê-la-iam adotado? Que eles pudessem ser por tão longo tempo vítimas de uma ilusão?

Não há, pois, impossibilidade material que existam seres invisíveis para nós povoando o espaço, e esta única consideração deveria empenhar-nos a maior circunspecção. No passado, quem diria que uma gota d’água límpida pudesse conter milhares de seres vivos de uma pequenez que confunde a nossa imaginação? Ora, digo que era mais difícil à razão conceber seres tão tênues, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que admitir o que nomeamos Espíritos.


7. O visitante. — Sem dúvida, mas que uma coisa seja possível, não se segue que ela exista.


A. K. — De acordo; mas convireis que desde que não é impossível, já é um grande ponto, porque não tem mais nada que repugna à razão. Resta, portanto, constatá-la pela observação dos fatos. Esta observação não é nova: a história, tanto a sagrada quanto a profana, prova a antiguidade e a universalidade desta crença, que se perpetuou através de todas as vicissitudes do mundo, e é encontrada na maioria dos povos mais selvagens no estado de ideias inatas e intuitivas, gravadas no pensamento, como a do Ser Supremo e da existência futura. O Espiritismo, portanto, não é de criação moderna, longe disso; tudo prova que os Antigos conheciam-no bem, e talvez melhor do que nós; só que ele foi ensinado com precauções misteriosas que tornavam-no inacessível ao vulgo, propositalmente deixado no pântano da superstição.

Quanto aos fatos, eles são de duas naturezas: uns são espontâneos e outros provocados. Entre os primeiros, temos de colocar as visões e aparições, que são muito frequentes; os ruídos, algazarras e movimentações de objetos sem causa material e uma série de efeitos insólitos que eram considerados como sobrenaturais, e que hoje todos parecem simples, porque, para nós, não há nada de sobrenatural, já que tudo está nas leis imutáveis da Natureza. Os fatos provocados são aqueles obtidos através de médiuns.


8. O visitante. — É contra estes últimos que exerce-se sobretudo a crítica. Ponhamos de lado qualquer suposição de charlatanismo, e admitamos com total boa fé. Não se poderia pensar que são eles mesmos [os médiuns] o joguete de uma alucinação?


A. K. — Eu não sei se já hão explicado claramente o mecanismo da alucinação. Como se percebe, no entanto, é um efeito muito singular e bem digno de estudo. Como, então, os que pretendem relacioná-la aos fenômenos espíritas não podem dar a sua explicação? Há, aliás, fatos que afastam esta hipótese: quando uma mesa ou outro objeto se move, se eleva, bate; quando ela entra em uma sala à vontade sem o contato de ninguém; quando destaca-se do solo e suporta-se no espaço sem ponto de apoio e, finalmente, quando se rompe em queda, não é certamente uma alucinação. Supondo-se que o médium, por sua imaginação, acreditasse ver o que não existe, é provável que uma sociedade inteira seja tomada da mesma vertigem? Que isso se repita em todos os lados, em todos os países? A alucinação, neste caso, seria mais prodigiosa que o fato.


9. O visitante. — Se todo mundo pudesse ser testemunha destes fatos, a dúvida não seria mais permitida. Como é então que muitas pessoas não conseguiram ver nada, apesar de sua boa vontade? Opõe-se-lhes, dizem, sua falta de fé; ao que respondem com razão que eles não podem ter uma fé antecipada, e que se se quiser que acreditem é necessário dar-lhes os meios para acreditar. Perguntam, além disso, porque os Espíritos, que devem ter no coração fazer prosélitos, não se prestam melhor nem lhes proporcionam os meios de convencer certas pessoas cuja opinião seria de uma grande influência.


A. K. — É um erro acreditar que a fé seja necessária; mas a boa fé, é outra coisa: ora, há os céticos que negam até o óbvio, e que os prodígios não poderiam convencer. Há mesmo alguns  que seria bem visto o ser forçado acreditar, porque o seu amor-próprio sofreria ao concordar que eles estavam errados. Que responder às pessoas que por toda a parte não veem senão ilusão e charlatanismo? Nada; é necessário deixá-los tranquilos e dizer, conquanto queiram, que eles não viram nada, e que nada poderia faze-los ver. Além desses céticos endurecidos, há os que querem ver à sua maneira; que, tendo formado uma opinião, querem denunciar tudo; eles não compreendem que fenômenos não possam obedecer a sua vontade; não sabem ou não querem colocar-se nas condições necessárias. O que quer observar de boa fé, deve, não digo crer sob palavra, mas despojar-se de toda ideia preconcebida, não querer assimilar coisas incompatíveis; esperar, seguir, observar com uma paciência incansável: esta condição até mesmo favorece os adeptos, por que prova que sua convicção não se fez levianamente.

Mas, diz-se, por que os Espíritos não estão mais ansiosos para mostrar o que poderia convencer? É que aparentemente eles não querem, no momento, convencer certas pessoas cuja importância não medem como fazem-no elas mesmas. É pouco lisonjeiro, eu concordo, mas não podemos controlar suas opiniões; os Espíritos têm uma maneira de julgar as coisas que nem sempre é a nossa; veem, pensam e agem segundo outros elementos; enquanto que nossa vista é circunscrita pela matéria, limitada pelo círculo estreito ao meio no qual nos encontramos, abraçam o conjunto; o tempo, que nos parece tão longo, é para eles um momento; a distância é apenas um passo; certos detalhes que nos parecem extremamente importantes, para eles são infantis; e em contrapartida julgam importantes as coisas que nós não apreendemos o alcance. Para compreende-los, é necessário elevar-nos em pensamento acima do nosso horizonte material e moral, e colocar-nos no seu ponto de vista; não é rebaixá-los até nós, é elevar-nos até eles, e é isso o que nos conduz ao estudo e a observação. Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos; para eles multiplicam-se as fontes de luz; o que os afasta, não é a dúvida que nasce da ignorância, é a fatuidade dos pretensos observadores que não observam nada, que pretendem colocá-los sobre a berlinda e manobrá-los como marionetes; é sobretudo o sentimento de hostilidade e de difamação que eles trazem, sentimento que está no seu pensamento, se não estiver nas suas palavras. Para esses os Espíritos não fazem nada e se preocupam muito pouco do que eles podem dizer ou pensar, porque sua vez chegará. Eis porque eu disse que não é a fé que é necessária, mas a boa fé.


10. O visitante. — Admitindo a realidade do fenômeno das mesas girantes e estalantes, não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer, do fluido magnético, por exemplo.


A. K. — Tal foi o primeiro pensamento, e tive-o como tantos outros. Se os efeitos tivessem se limitado a efeitos materiais, não há dúvida que poderiam ser explicados assim; mas quando estes movimentos e estes golpes deram provas de inteligência; quando reconheceu-se que respondiam ao pensamento com inteira liberdade, tirou-se esta consequência: que, se qualquer efeito tiver uma causa, qualquer efeito inteligente tem uma causa inteligente. Este é o efeito de um fluido? A menos que se diga que este fluido é inteligente. Quando vedes os braços do telégrafo fazer sinais que transmitem o pensamento, sabe-se efetivamente que não são estes braços de madeira ou de ferro que são inteligentes, mas dizeis que uma inteligência os faz mover. É do mesmo modo com a mesa. Há ou não há, efeitos inteligentes? Eis a questão. Os que contestam-no são os que não viram tudo e que se apressam a concluir de acordo com suas próprias ideias e numa observação superficial.


11. O visitante. — A isto responde-se que se há um efeito inteligente, não é outra coisa senão a própria inteligência, quer do médium, quer do interrogador, quer dos assistentes; porque, diz-se, a resposta está sempre no pensamento de alguém.


A. K. — É ainda um erro, resultado de um defeito de observação. Se os que pensam assim se tivessem dado a pena de estudar o fenômeno em todas as fases, a cada passo teriam reconhecido a independência absoluta da inteligência que se manifesta. Como esta tese poderá conciliar-se com as respostas que estão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? Que contradizem suas ideias, seus desejos, suas opiniões, ou que desorientam completamente as previsões dos assistentes? Médiuns que escrevem numa língua que não conhecem, ou na sua própria língua quando não sabem nem ler nem escrever? Este parecer, em si, não tem nada de irracional, convenho, mas é desmentido pelos fatos tão numerosos e tão conclusivos, que a dúvida não é mais possível. Além disso, admitindo mesmo esta teoria, o fenômeno, longe de ser simplificado, seria muito mais surpreendente. O quê! o pensamento refletir-se-ia sobre uma superfície como a luz, o som, o calor? Em verdade, haveria nisso como exercer a sagacidade da ciência. E, em seguida, aumentar ainda mais o maravilhoso, é que, sobre vinte pessoas reunidas, seria precisamente o pensamento desse ou daquele que seria refletido, e não o pensamento de tal outro. Um sistema semelhante é insustentável. É realmente curioso ver contraditores maquinando, procurando causas cem vezes mais extraordinárias e mais difíceis de compreender que aquelas que são dadas.


12. O visitante. — Não se poderia admitir, segundo a opinião de alguns, que o médium está num estado de crise e goza de uma lucidez que lhe dá uma percepção sonambúlica, uma espécie de dupla vista, que explicaria a extensão momentânea das faculdades intelectuais; porque, diz-se, as comunicações obtidas pelos médiuns não excedem o âmbito daquelas obtidas pelos sonâmbulos?


A. K. — Aí está ainda um destes sistemas prematuros, desabrochados na origem das observações espíritas, que sobrevivem no pensamento de algumas pessoas, mas que se apagam pouco a pouco à frente de um exame mais aprofundado. Sem dúvida a analogia de certos efeitos pode dar lugar a esta confusão; mas todo aquele que não se limita a julgar as coisas de um só ponto de vista, reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade específica que não permite confundi-lo com o sonâmbulo, e a completa independência do seu pensamento é provada por fatos evidentes. Abstração feita das comunicações escritas, qual é o sonâmbulo que alguma vez fez fluir um pensamento de um corpo inerte? que produziu aparições visíveis e mesmo tangíveis? que pode manter um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio? Será por efeito sonambúlico que um médium desenhou, um dia, em minha casa, na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma jovem morta há dezoito meses e que ele nunca havia conhecido, retrato reconhecido pelo pai presente à sessão? Será por um efeito sonambúlico que uma mesa responde com precisão às questões propostas, a perguntas mentais mesmo? Indubitavelmente, se se admitir que o médium esteja num estado magnético, parece-me difícil acreditar que a mesa seja sonâmbula.

Diz-se ainda que os médiuns falam claramente apenas de coisas conhecidas. Como explicar o fato seguinte e cem outros do mesmo gênero? Um dos meus amigos, muito bom médium escrevente, pede a um Espírito dizer se uma pessoa que ele havia perdido de vista há quinze anos era ainda deste mundo. “Sim, ainda está viva, foi-lhe respondido; mora em Paris, rua tal, número tal.” Ele vai e encontra a pessoa no endereço indicado. O que há de ilusão? Seu pensamento poderia menos ainda sugerir-lhe esta resposta, devido à idade desta pessoa, havia toda a probabilidade que ela já não existisse. Se, em certos casos, viu-se respostas de acordo com o pensamento [de quem perguntou], é racional concluir que seja uma lei geral? Nisso, como em qualquer coisa, os julgamentos precipitados são sempre perigosos, porque podem ser infirmados por fatos que não foram observados.


13. O visitante. — São estes os fatos positivos que os incrédulos quereriam ver, que pedem, e que  não se pode fornecer-lhes na maior parte do tempo.


A. K. — A razão é bem simples. Eles querem ao seu comando, e os Espíritos não obedecem ao comando; é necessário esperar a sua boa vontade. Não é suficiente, pois, dizer: Mostre-me tal fato e acreditarei; deve-se estar disposto à perseverança, deixar os fatos produzirem-se espontaneamente, sem pretender forçá-los ou dirigi-los; o que desejais será talvez precisamente o que não obtereis; mas apresentar-se-ão outros, e o que quereis virá no momento em que menos o esperais. Aos olhos do observador atento e assíduo, surgem em massas que se corroboram uns aos outros; mas o que acredita que é suficiente girar uma manivela para mover a máquina, engana-se sobremaneira. O que faz o naturalista que quer estudar os hábitos de um animal? Ordena-lhe que faça isso ou aquilo para ter qualquer oportunidade de observar à sua vontade? Não; porque sabe efetivamente que ele não obedecerá; ele espia as manifestações espontâneas do seu instinto, espera-as e apreende-as de passagem. O simples bom senso mostra que com mais forte razão deve-se proceder do mesmo modo com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que a dos animais.


14. O visitante. — Suponho que a coisa seja constatada e o Espiritismo reconhecido como uma realidade, qual pode ser sua utilidade prática; e sua propagação não poderia oferecer inconvenientes?


A. K. — A questão é dupla; vamos ver a primeira. Sem dúvida o Espiritismo não pode fazer subir ou baixar a bolsa de valores; não pode ser posto em ação nem fornecer os meios de enriquecer-se. Deste ponto de vista, quantas investigações científicas seriam inúteis! Quantas há que não oferecem vantagem alguma, comercialmente falando! Para que então os sábios entregam-se a estas pesquisas, e quem ousaria dizer a eles que perdem seu tempo? Tudo o que serve para levantar um canto do véu da Natureza não ajuda o desenvolvimento da inteligência? Portanto, não é nada que todo um mundo novo se revele a nós, se sobretudo o conhecimento deste mundo nos coloca no caminho de uma série de problemas insolúveis até então; se ele nos inicia nos mistérios do além-túmulo, que estamos bem pouco interessados, já que todos, enquanto formos vivos, devemos cedo ou tarde cruzar o passo fatal? Mas há uma outra utilidade mais positiva do Espiritismo, é a influência moral que exerce pela força mesmo das coisas. O Espiritismo é a prova patente da existência da alma, de sua individualidade após a morte, de sua imortalidade, de seu destino futuro; é a destruição do materialismo, não pelo raciocínio, mas pelos fatos. Produzisse ele apenas isso, seria já um grande bem, porque o materialismo é uma praga social.


15. O visitante. — A religião não é suficiente para ensinar-nos tudo isso?


A. K. — Se a religião fosse suficiente, por que haveria tantos incrédulos, religiosamente falando? A religião nos ensina, é verdade; ela nos diz que acreditemos; mas quantas pessoas há que não acreditam! O Espiritismo prova, e faz ver o que a religião ensina pela teoria.


16. O visitante. — Há contudo muitas pessoas que consideram-no como contrário à religião, e que o repelem por este motivo.


A. K. — Não há muitos como você pensa, e esta opinião, que pode nascer como tantas outras no início, desaparece pouco a pouco à medida que se aprofunda a coisa. Se o Espiritismo negasse a existência de Deus, da alma, da sua individualidade e da sua imortalidade, das penas e das recompensas futuras, do livre arbítrio do homem; se ensinasse que cada um só deve viver para si, e não pensar senão em si, não seria só contrário à religião católica, mas a todas as religiões do mundo; seria a negação de todas as leis morais, base das sociedades humanas. Longe disso; os Espíritos proclamam um Deus único soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado e punido de acordo com o bem ou o mal que houver feito; eles colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica, e esta regra sublime ensinada pelo Cristo: agir para com os outros como quereríamos que agissem para conosco.  ( † ) Não estão aí os fundamentos da religião? Eles fazem mais: iniciam-nos nos mistérios da vida futura, que para nós não é mais uma abstração, mas uma realidade, porque são os mesmos que nós havemos conhecido que vêm descrever-nos sua situação, dizer-nos como e porque sofrem ou são felizes. O que há nisso de antirreligioso? Esta certeza do futuro, de reencontrar aqueles que amamos, não será uma consolação? Essa grandiosidade da vida espírita que é a nossa essência, comparada às mesquinhas preocupações da vida terrena, não é própria a elevar nossa alma, e a nos encorajar ao bem?


17. O visitante. — Eu concordo que para as questões gerais o Espiritismo é conforme às grandes verdades do Cristianismo: mas será o mesmo do ponto de vista do dogma? Não contradiz certos princípios que a Igreja nos ensina?


A. K. — O Espiritismo é sobretudo uma ciência, e não se ocupa das questões dogmáticas. Esta ciência tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas; estas consequências são boas ou más? Pode-se julgar pelos princípios gerais que acabo de mencionar. Algumas pessoas estão equivocadas sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. A questão é grave o suficiente para merecer alguns desenvolvimentos.

Citemos primeiro uma comparação: A eletricidade estando na Natureza, existe desde tempos imemoriais, e o tempo todo também produziu os efeitos que conhecemos, e muitos outros que ainda não conhecemos. Os homens, na ignorância da causa verdadeira, explicaram estes efeitos de forma mais ou menos bizarra. A descoberta da eletricidade e suas propriedades veio reverter uma porção de teorias absurdas lançando luz sobre mais de um mistério da Natureza. O que a eletricidade e as ciências físicas em geral fizeram por certos fenômenos, o Espiritismo fez para fenômenos de uma outra ordem.

O Espiritismo funda-se na existência de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que povoam o espaço, e que são nada menos que as almas dos que viveram sobre a Terra ou em outros mundos onde deixaram o seu invólucro material. São a estes seres que damos o nome de Espíritos. Estes seres nos cercam constantemente e exercem sobre os homens e sem o seu conhecimento uma grande influência; desempenham um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo está, portanto, na Natureza, e pode-se dizer que, numa certa ordem de ideias, é uma potência, como a eletricidade e a gravitação o são sob outro ponto de vista. Os fenômenos cuja fonte são o mundo invisível, devem, assim,  ter-se produzido e com efeito produziram-se em todos os tempos; aí está porque a história de todos os povos faz menção a eles. Apenas, por sua ignorância, como para a eletricidade, os homens atribuíram a estes fenômenos causas mais ou menos racionais, e deram sobre eles livre curso à sua imaginação. O Espiritismo, melhor observado desde que se popularizou, vem lançar luz sobre uma série de questões até agora insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é, então, o de uma ciência, e não de uma religião; e a prova disso é que conta entre seus membros homens de todas as crenças, que não têm por isso renunciado às suas convicções: católicos fervorosos que não praticam menos todos os deveres do seu culto, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas e bramanistas. Repousa, portanto, sobre princípios independentes de qualquer questão dogmática. Suas consequências morais são as do Cristianismo, porque o Cristianismo é, de todas as doutrinas, a mais iluminada e a mais pura, e é por esta razão que, de todas as religiões do mundo os cristãos são os mais aptos a compreendê-lo na sua verdadeira essência. Podemos lhe censurar [o Espiritismo] por isso? O Espiritismo, portanto, não é uma religião, caso contrário ele teria seu culto, seus templos, seus ministros. Qualquer um sem dúvida pode fazer de suas opiniões uma religião, interpretar à vontade as religiões conhecidas, mas disso à constituição de uma nova Igreja há enorme distancia. [v. “O Espiritismo é uma religião?”]


18. O visitante. — Não fazem contudo evocações de acordo com uma fórmula que tem um caráter religioso?


A. K. — Di-lo-ei primeiro, senhor, que não há uma fórmula sacramental; para os Espíritos o pensamento é tudo e a forma nada. Chamamo-los em nome de Deus, é verdade; porque acreditamos em Deus, e sabeis que nada se faz neste mundo sem sua permissão; procedemos aos nossos trabalhos com calma e recolhimento, porque é uma condição necessária para as observações, e em segundo lugar, porque conhecemos o respeito que devemos aos que não vivem mais sobre a Terra, qualquer que seja a sua condição, feliz ou infeliz no mundo dos Espíritos; fazemos um apelo aos bons Espíritos, porque, sabendo que há bons e maus, não queremos que estes últimos venham se misturar fraudulentamente às comunicações que recebemos. O que tudo isto prova? Que nós não somos ateus, mas isso não implica de modo algum que sejamos religiosos.


19. O visitante. — Eu não conheço bastante o Espiritismo para raciocinar a fundo e não sou senão um eco. Parece-me, portanto, pelo que ouvi dizer, que ele contesta certos pontos fundamentais do dogma católico, e é isso o que espanta as consciências timoratas.


A. K. — Eu sou obrigado, para vos responder, retomar as coisas um pouco mais acima.

Seria um erro acreditar que os Espíritos, deixando seus corpos materiais, são subitamente atingidos pela luz da verdade. Seu progresso não pode ser alcançado senão gradualmente e às vezes bem lentamente. Nesse número, e isso depende da sua depuração, há aqueles que veem as coisas de um ponto de vista mais justo do que ao longo da vida; outros pelo contrário, têm ainda as mesmas paixões, os mesmos preconceitos e os mesmos erros, até que o tempo e as novas provas lhes permitam esclarecerem-se. Noteis bem que isto é um resultado da experiência, porque é assim que eles se nos apresentam em suas comunicações. Este é, portanto, um princípio elementar do Espiritismo, que entre os Espíritos, há-os de todos os graus de inteligência e moralidade: há os sublimes, assim como os há miseráveis; os muito esclarecidos e os muito ignorantes; os muito bons e os muito maus; os levianos, os perturbados, os mentirosos, os traiçoeiros, os hipócritas, os maldosos; uns nos conduzem ao bem, outros ao mal; há também entre eles falsos sábios, filósofos, polemistas, sistemáticos: todas as opiniões políticas e religiosas têm os seus representantes. Em matéria de dogma, católico, judeu ou islamita, como em qualquer outra coisa, uns criticarão o que outros preconizarão. É por isso que não devemos acreditar cegamente em tudo o que os Espíritos dizem; porque, se não tivermos cuidado, há os bastante hábeis  para nos fazer de trouxas.


20. O visitante. — Se for assim, percebo uma imensa dificuldade. Neste conflito de opiniões diversas, como distinguir a verdade do erro? Eu não vejo que os Espíritos nos sirvam a grande coisa, e o que temos a ganhar na propagação do Espiritismo.


A. K. — Também não disse que era uma ciência fácil, e bem presunçoso seria o que pretendesse conhecê-lo em poucas horas, ou que a visse toda inteira numa mesa que gira, ou num médium que escreve. Como todas as ciências filosóficas, ela exige longos estudos e meticulosas observações; e é então que aprendemos a distinguir a verdade da impostura, e os meios de afastar os Espíritos enganadores. Acima desta turba de baixo escalão, há os Espíritos superiores que não têm em vista senão o bem, e que têm por missão conduzir os homens no bom caminho; cabe-nos saber apreciá-los e compreende-los. Estes nos ensinam grandes coisas; mas não acredito que o estudo dos outros seja inútil; para conhecer um povo é necessário vê-lo sob todas as suas faces.


21. O visitante. — É uma pena que não possamos confiar em todos os Espíritos; e esta divergência encontrada entre eles pode ser uma causa de erros. Por que não são todos perfeitos?


A. K. — Porque os Espíritos são as almas dos homens, e os homens não são perfeitos. É lamentável, sem dúvida; mas já que é assim, é necessário aceitá-lo como é, sem pedir contas a Deus por seus atos. Que mérito também teríamos de fazer o bem, se ele não nos custasse alguma coisa? Quanto aos erros que possam surgir da divergência de opinião entre os Espíritos, eles desaparecerão por si mesmos à medida que aprendermos a distinguir os bons dos maus, os sábios dos ignorantes, os sinceros dos hipócritas, absolutamente como entre nós; então o bom senso fará justiça às falsas doutrinas.


22. O visitante. — Minha observação subsiste sempre do ponto de vista das questões científicas e outras que podemos submeter aos Espíritos. A divergência de suas opiniões sobre as teorias que dividem os sábios deixa-nos na incerteza. Eu compreendo que nem todos são instruídos no mesmo grau, eles não podem saber tudo; mas, então, que peso pode ter para nós a opinião de quem sabe, se não pudermos verificar quem está certo ou errado? Tanto faz dirigir-nos aos homens como aos Espíritos.


A. K. — Esta reflexão é ainda um resultado da ignorância do verdadeiro caráter do Espiritismo. Aquele que crê encontrar uma maneira fácil de saber tudo, descobrir tudo, está em grande erro. Os Espíritos não estão encarregados de vir trazer-nos qualquer ciência pronta; seria, com efeito, demasiado cômodo se tivéssemos apenas que pedir para ser servido e, assim, poupar-nos do trabalho de pesquisa. Deus quer que trabalhemos, que nosso pensamento se exercite: adquiriremos a ciência apenas a esse preço; os Espíritos não vêm nos livrar desta necessidade; eles são que são; o Espiritismo tem por objetivo estudá-los, a fim de saber por analogia o que seremos um dia, e não para fazer-nos conhecer o que nos deve ser oculto, ou revelar-nos coisas antes do tempo. Os Espíritos não são também adivinhos, e todo aquele que se gaba de obter certos segredos se prepare para colher decepções por parte dos Espíritos zombeteiros; numa palavra, o Espiritismo é uma ciência de observação, e não uma ciência de adivinhação ou de especulação. Estudamo-lo para conhecer o estado dos indivíduos do mundo invisível, as relações que existem entre eles e nós, sua ação oculta sobre o mundo visível e não pela utilidade material que podemos tirar. Deste ponto de vista, não há nenhum Espírito cujo estudo seja inútil; aprendemos alguma coisa com todos; suas imperfeições, seus defeitos, sua insuficiência, sua ignorância mesma são outros tantos assuntos de observação que nos iniciam na natureza intrínseca deste mundo; e quando não são eles que nos instruem palestrando, somos nós que instruímo-nos estudando-os, como fazemos quando observamos os costumes de um povo que não conhecemos.

Quanto aos Espíritos esclarecidos, eles nos ensinam muito, mas dentro dos limites do possível; e não devemos pedir-lhes o que eles não podem ou não devem nos revelar; é preciso se contentar com o que nos dizem; querer ir além é expor-se às mistificações dos Espíritos levianos, sempre prontos a responder a qualquer experiência, ensinando-nos, assim, a julgar o grau de confiança que podemos dar a eles.


23. O visitante. — Pois bem! que dizem os Espíritos superiores a respeito da religião? Os bons nos devem aconselhar e  guiar. Suponha que eu não tenha nenhuma religião, que queira escolher uma. Se eu pedir-lhes: Aconselhai-me a fazer-me católico, protestante, anglicano, quacre (quaker), judeu, muçulmano ou mórmon, que responderão?


A. K. — Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais, comuns a todas, e os princípios particulares de cada uma. Os primeiros são aqueles de que falamos há pouco; estes, todos os Espíritos os proclamam, seja qual for sua categoria. Quanto aos segundos, os Espíritos vulgares, sem serem maus, podem ter preferências, opiniões; podem preconizar essa ou aquela forma; os Espíritos superiores não se preocupam das questões de detalhe; limitam-se a dizer: “Deus é bom e justo; não quer senão o bem; a melhor de todas as religiões é, portanto, aquela que não ensina senão o que é conforme à bondade e justiça de Deus; que dá de Deus a maior e a mais sublime ideia, e não o rebaixa atribuindo-lhe as pequenezes e paixões da humanidade; que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a amarem-se todos como irmãos; que condena todo o mal feito a seu próximo; que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja; que não prescreve nada contrário às leis imutáveis da Natureza, porque Deus não pode contradizer-se; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade e de caridade; aquela que procura melhor combater o egoísmo não exaltando o orgulho e a vaidade dos homens; aquela, enfim, em cujo nome se cometa menos mal, porque uma boa religião não pode servir de pretexto a um mal qualquer, não deve deixar-lhe  nenhuma porta aberta, seja diretamente ou por meio de interpretação. Vede e julgai.”


24. O visitante. — Supondo que certos pontos da doutrina católica sejam contestados pelos Espíritos que considerais superiores; supondo mesmo que estes pontos sejam errôneos; aqueles para quem eles são, com ou sem razão, artigos de fé, e que praticam, portanto, esta crença, poderia ser isso, segundo estes mesmos Espíritos, prejudicial à sua salvação?


A. K. — Indubitavelmente não, se esta crença não os desviar de fazer o bem, se ela não lhe excitar o contrário; enquanto que a crença melhor fundada prejudicar-lhes-ia evidentemente se fosse para eles uma ocasião de fazer o mal, de faltar com a caridade para com o seu próximo; de torná-los duros e egoístas; porque então não agiriam segundo a lei de Deus, e Deus considera o pensamento antes dos atos. Quem ousaria sustentar o contrário?

Pensais, por exemplo, que um homem que acreditasse perfeitamente em Deus, e que, em nome de Deus, cometesse atos desumanos ou contrários à caridade, sua fé ser-lhe-ia mui vantajosa? Não seria ainda mais culpado pois que tem mais meios de ser esclarecido?

Os Espíritos superiores, os que têm por missão o progresso da humanidade, levantam-se contra todos os abusos que possam retardar esse progresso, qualquer que seja sua natureza e sejam quais forem os indivíduos ou classes da sociedade que deles se aproveitem. Ora, não negareis que a religião nem sempre esteve isenta [de abusos]; se entre os seus ministros há aqueles que desempenham sua missão com um devotamento inteiramente cristão, que a fazem grande, bela e respeitável, convireis que nem sempre todos compreenderam a santidade do seu ministério. Os Espíritos desvanecem o mal por toda a parte onde se encontre. Assinalar os abusos da religião, é atacá-la?  Ela não tem maiores inimigos do que aqueles que os defendem, porque são estes abusos que fazem nascer o pensamento que qualquer coisa melhor pode substituí-la. Se a religião corresse um perigo qualquer, dever-se-ia ir atrás daqueles que dão dela uma falsa ideia,  e fazem-na uma arena das paixões humanas, explorando-a em proveito da sua ambição.


25. O visitante. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas e, no entanto, admite certos pontos combatidos pela Igreja, tais como, por exemplo, a reencarnação, a presença do homem sobre a Terra antes de Adão; nega a eternidade das penas, a existência dos demônios, o fogo do Inferno.


A. K. — Estes pontos vem sido discutidos há muito tempo, e não foi o Espiritismo que os colocou em questão; são opiniões, algumas das quais são mesmo controversas em teologia, e que o futuro julgará; um grande princípio sobrepõe-se a todos: a prática do bem, que é a lei maior, a condição sine qua non do nosso futuro, assim como no-lo prova o estado dos Espíritos que se comunicam conosco. Até que a luz seja lançada para vós sobre estas questões, acreditem, se quiserem, nas chamas e nas torturas materiais, se isso puder impedi-los de fazer o mal: isso, porém, não as tornarão mais reais, se não existirem; acreditem que temos apenas uma existência corporal, se isso vos agradar: isso não vos impedirá de renascer aqui ou noutro lugar, se assim deve ser, malgrado vosso; acreditem que o mundo foi criado em sua totalidade em seis vezes vinte e quatro horas,  ( † ) se for essa vossa opinião: isso não impedirá a Terra de ter escrito em suas camadas geológicas a prova em contrário; acreditem, se quiserem, que Josué parou o sol,  ( † ) isso não impedirá a Terra de girar; acreditem que o homem está na Terra há apenas 6.000 anos, isso não impedirá os fatos de mostrar sua impossibilidade; e que dirão se, um belo dia, esta inexorável geologia venha demonstrar, por vestígios patentes, a precedência do homem, como demonstrou tantas outras coisas? Acreditem, portanto, em tudo que quiserem, até mesmo no diabo, se esta crença puder tornar-vos bom, humano e caritativo para com o vosso semelhante. O Espiritismo, como doutrina moral, não impõe senão uma coisa: a necessidade de fazer o bem e de não fazer o mal. Se fosse uma religião, formularia um culto e um programa de artigos de fé; é uma ciência de observação que, repito-o, tem consequências morais, e estas consequências são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto às questões secundárias, deixa-as à consciência de cada um.

Observe bem, senhor, que alguns dos pontos divergentes que falaste há pouco, o Espiritismo não os contesta em princípio; se tivésseis lido tudo o que eu tenho escrito sobre isso, teríeis visto que ele [o Espiritismo] se limita a dar-lhes uma interpretação mais lógica e mais racional que aquela que dão-lhe vulgarmente. É assim, por exemplo, que ele não nega o purgatório, demonstra ao contrário sua necessidade e justiça; mas faz mais, define-o. O Inferno tem sido descrito, é verdade, como uma imensa fornalha, mas será assim que o entende a alta teologia? Evidentemente não; ela diz muito bem que é uma figura; que o fogo que queima é um fogo moral, símbolo das maiores dores. Quanto à eternidade das penas, se isso fosse possível ir à voto para se conhecer a opinião íntima de todos os homens capazes de raciocinar e compreender, ver-se-ia de qual lado está a maioria, porque a ideia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita misericórdia de Deus. O Espiritismo explica a origem desta crença [v. As penas futuras segundo o Espiritismo]; vemos os Espíritos infelizes e sofredores; mas no círculo estreito de suas ideias, eles não veem o termo dos seus sofrimentos; acreditam sofrer sempre, e isso é para eles um castigo. Além disso, não há um limite assinalado às angústias dos Espíritos inferiores; a estrada da melhoria está aberta para eles, mas esta estrada pode ser longa; e quando enlanguescem na pena durante séculos, como já os vimos, eles podem dizer que é eterna, como quando dizemos a nós mesmos para os males passageiros da vida.

Os Espíritos não negam, pois, as penas futuras, longe disso, uma vez que eles descrevem seus próprios sofrimentos; e este quadro nos impressiona mais do que o das chamas perpétuas, porque é perfeitamente lógico; compreende-se que isso é possível, que deve ser assim, que esta situação é uma consequência muito natural das coisas; pode ser aceita pelo pensador filósofo, porque não há nada que repugna a razão; eis porque as crenças espíritas trouxeram ao bem uma multidão de pessoas, até mesmo materialistas, que o temor do Inferno tal como no-lo retratam não os surpreendeu.


26. O visitante. — Observai, senhor, que nas minhas objeções, estou apenas repetindo o que eu já ouvi; mas, admitindo ao mesmo tempo o vosso raciocínio, não pensais que o vulgo precisa de imagens mais marcantes que de uma filosofia que ele não pode compreender?


A. K. — Este é um erro que fez mais de um materialista, ou pelo menos desviou mais de um homem da religião; chega um momento em que estas imagens não impressionam mais, e então as pessoas que não aprofundam [seus conhecimentos], rejeitando uma parte, rejeitam o todo, porque dizem: Se me ensinaram como verdade incontestável um ponto que é falso, se foi-me dado uma imagem, uma figura pela realidade, quem me diz que o resto é mais verdadeiro? Se, ao contrário, a razão, crescendo, não repele nada, a fé fortifica-se. A religião ganhará sempre acompanhando o progresso das ideias; se jamais devesse periclitar, é que os homens têm avançado, e que ela teria permanecido atrás. Felizmente, conta em suas fileiras homens assaz esclarecidos para preservá-la deste perigo.


27. O visitante. — A questão dos demônios, sabeis, é muito controversa. Vós não os admitis, enquanto que outros acreditam, ao contrário, que todas as comunicações que obtêm são obra sua.


A. K. — O Espiritismo não admite os demônios no sentido vulgar da palavra, mas admite os maus Espíritos que não são melhores, e que fazem igualmente o mal suscitando maus pensamentos; apenas diz que não são seres à parte, criados para o mal e perpetuamente dedicados ao mal, espécie de párias da Criação e algozes do gênero humano; são seres atrasados, ainda imperfeitos, mas aos quais Deus reserva o futuro.  Nisso está de acordo com a Igreja católica grega que admite a conversão de Satanás, alusão à melhoria dos maus Espíritos, e que rejeita, portanto, a eternidade das penas. Observai ainda que a palavra demônio não implica a ideia de Espírito mau, que lhe foi dada pela acepção moderna, porque a palavra grega daimôn significa gênio, inteligência. Seja como for, não a tomamos hoje senão em seu mau sentido; ora, admitir a comunicação dos maus Espíritos, é reconhecer em princípio a realidade das manifestações; a questão é saber se são os únicos que se comunicam. Aqui invocamos o raciocínio e os fatos. Se os Espíritos, quaisquer que sejam, se comunicam, somente o fazem com a permissão de Deus; compreender-se-ia que ele não os permitisse senão aos maus? Como! enquanto ele deixa a estes plena liberdade de vir enganar os homens, proibiria aos bons de virem fazer contrapeso, de neutralizar suas perniciosas doutrinas? Crer que seja assim, não seria por em dúvida o seu poder e a sua bondade? A Bíblia, o Evangelho, os Pais da Igreja reconhecem perfeitamente a possibilidade da comunicação com o mundo invisível, e deste mundo os bons não são excluídos; por que então sê-lo-iam hoje? Além disso a Igreja, admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos, exclui, por isso mesmo, a ideia de que não se pode lidar senão com os maus Espíritos. Esta opinião é uma das que se formaram no início das recentes manifestações, enquanto a observação ainda não tinha lançado luz sobre a natureza dos seres incorpóreos; alguns pensaram que os Espíritos deviam ter a soberana ciência e a soberana sabedoria: eles acreditavam também cegamente em tudo que lhes foi dito; outros, que não encontraram em o seu caminho senão a borra do mundo espiritual, que não viram senão as torpezas, concluíram que todos os Espíritos são maus. Os que hão visto tudo sabem que há bons e maus; ora, certamente, quando as comunicações não contêm senão boas coisas, quando não pregam senão a mais pura e mais sublime moral evangélica, a abnegação, o desinteresse e o amor ao próximo; quando extingue o mal, de qualquer forma que se apresente, será racional acreditar que o Espírito maligno venha assim proceder? Esta opinião, além disso, começa a tornar-se ridícula, e tem o destino de todos os sistemas exclusivos. Há também quem tenha tanta confiança em suas próprias luzes, que a seus olhos os Espíritos que lhes contradizem só podem ser maus Espíritos; e é ainda pior se estes Espíritos atacarem os abusos em que vivem.


28. O visitante. — Relevemos a questão dos demônios; sei que pode-se combatê-los com as mesmas armas da Igreja; mas o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de justificar, porque não é outra coisa senão a metempsicose renovada de Pitágoras.


A. K. — Não é aqui o momento de tratar esta questão na sua totalidade. Direi apenas duas palavras. Pode haver certos pontos de contato entre esta doutrina e a que Pitágoras tomou dos Indianos e dos Egípcios; mas é suficiente comparar os dois sistemas para ver uma diferença radical. Pitágoras admite a transmigração da alma do homem nos animais, que implicaria uma degradação; enquanto que os Espíritos nos dizem que a alma progride incessantemente, e é um atributo exclusivo da espécie humana. Quanto à pluralidade das existências corporais, a antiguidade desta doutrina não pode logicamente ser invocada contra ela; sua universalidade nos tempos antigos, e a autoridade dos homens que professavam-na, são antes argumentos a seu favor; ora, de duas uma: ou é, ou não é. Se for, todas as negações do mundo não o impedirão de sê-lo. Para nós, ela está demonstrada pelo raciocínio e pelos fatos. Abstração feita da revelação dos Espíritos, revelação feita a muitos outros como a mim, é a única solução possível para uma série de problemas morais, psicológicos e antropológicos que eu desafio qualquer outra doutrina filosófica resolve-los. Para os fatos, eu os tenho patentes, material que farei conhecer um dia, e que são de natureza a remover todas as dúvidas. Os que a negam [a doutrina da reencarnação], é que não a compreendem; julgam a priori sobre uma primeira impressão; mas quando ela for bem compreendida e livre dos prejuízos que faz com que a vejam sob um falso aspecto, vereis que será vista como a âncora de salvação que Deus, na sua justiça, tem dado aos homens para resgatar as faltas que os afastam da felicidade eterna.


29. O visitante. — Como pode o homem aproveitar da experiência de suas existências anteriores e resgatar suas faltas se ele não tem delas a lembrança? Eu concebo que as tribulações da vida sejam uma lição para ele, se se recordasse que foi o que pode atraí-las; mas desde não se recorda, cada existência é para ele como se fosse a primeira, e está, assim, sempre a recomeçar. Suponhamos que todos os dias quando acordamos, perdemos a memória do que fizemos na véspera, nós não seríamos mais avançados aos sessenta do que aos dez anos.


A. K. — Compreendei, senhor, que esta objeção não deixou de apresentar-se ao meu pensamento; ora, eis a resposta dos Espíritos:

“A cada nova existência, o homem tem mais inteligência e pode melhor distinguir o bem e o mal. Quando o Espírito retorna à sua vida primitiva (a vida espírita), toda a sua vida passada se desenrola diante dele; ele vê as faltas que cometeu e que são a causa de seu sofrimento, e o que poderia tê-lo impedido de cometer; compreende que a posição que lhe é dada é justa, e procura então a existência que poderia reparar aquela que acabou de terminar. Procura provas análogas àquelas pelas quais passou, ou as lutas que ele crê apropriadas ao seu adiantamento, e pede aos Espíritos que lhe são superiores ajudá-lo nesta nova tarefa que empreende, pois ele sabe que o Espírito que lhe será dado para guia nesta nova existência, procurará fazer-lhe reparar suas faltas dando-lhe uma espécie de intuição daquelas que cometeu. Esta mesma intuição é o pensamento, o desejo criminoso talvez, que vos vem muitas vezes, e ao qual resistis instintivamente, que atribuis a maior parte do tempo aos princípios que recebestes, enquanto é a voz da consciência que vos fala, e esta voz é a lembrança do passado pela qual vós sois advertido de não recair nas faltas que já cometestes. O Espírito uma vez entrado nesta nova existência, se ele sofrer estas provas com coragem e se ele resistir, se eleva e sobe na hierarquia dos Espíritos, quando ele para aí retornar novamente.”

Disso resulta que, se nós não tivermos, durante a vida corporal, uma lembrança precisa do que fomos, e do que fizemos de bem ou de mal nas nossas existências anteriores, nós temos a intuição, e as nossas tendências instintivas que são uma reminiscência do nosso passado, às quais a nossa consciência, que é o desejo que temos de não mais cometer as mesmas faltas, nos adverte para resistir.

O Espírito procura as provas que possam reparar as faltas da existência que vem de se escoar, resulta ainda que as provas que sofremos tem sempre uma relação com a causa que pode motivá-las, e que assim, seja pelo estudo das provas que sofremos, ou pelas nossas tendências instintivas, podemos, até um certo ponto, conhecer, não a nossa individualidade anterior, mas nosso gênero de existência, ou pelo menos as causas que nos valeram nossa existência presente.

Notai mesmo que este esquecimento das nossas individualidades passadas é um benefício da Providência e uma prova da sua sabedoria. Esta lembrança teria para nós gravíssimos inconvenientes; poderia, em certos casos, humilhar-nos singularmente, ou, então, exaltar nosso orgulho e, assim, entravar o nosso livre arbítrio. Deus deu-nos, para melhorar-nos, justamente o que nos é necessário e para nós é suficiente: a voz da consciência e as nossas tendências instintivas; tira-nos o que poderia prejudicar-nos. Acrescenteis ainda que se tivéssemos a lembrança dos nossos atos anteriores, teríamos igualmente a dos atos dos outros, e que este conhecimento poderia ter os mais deploráveis efeitos sobre as relações sociais; não podendo sempre nos glorificar do nosso passado, muitas vezes é uma felicidade que um véu seja lançado sobre ele. Isto concorda perfeitamente com a doutrina dos Espíritos sobre os mundos superiores ao nosso. Nestes mundos onde reina apenas o bem, a lembrança do passado não tem nada de penosa; razão pela qual se poderia lembrar da sua existência precedente como recordamo-nos do que fizemos na véspera. Quanto à [lembrança da] estadia que fizemos nos mundos inferiores, não é mais que um sonho ruim.


30. O visitante. — Verdadeira ou falsa, a doutrina da reencarnação é contrária ao dogma católico, e não será jamais admitida pela Igreja.


A. K. — Vós, senhor, fazeis, sem querer sem dúvida, a maior injúria que possa ser feita à Igreja; dizer que, verdadeira ou falsa, esta doutrina não será jamais admitida por ela, não é acusá-la de repelir a evidência? Como! Rejeitaria obstinadamente algo que é demonstrado ser verdadeiro! Não será justificar o reproche que alguns lhes fazem de ser inimiga das luzes! Teria a religião ganhado se a Igreja, devido ao texto bíblico, persistisse em negar o movimento da Terra? Não, senhor, a Igreja não é tão hostil ao progresso como supondes: ela sabe muito bem sacrificar a letra ao espírito dos textos, quando fica demonstrado que a letra havia sido mal interpretada. Existe um texto mais específico na aparência do que aquele dos seis dias da Criação! E portanto, agora que a ciência veio demonstrar o que são estes seis dias, não há mais que escolas de aldeia onde se ensina ainda que o mundo foi feito em seis vezes vinte e quatro horas. Quando tomamos ao pé da letra a alegoria do pomo de Adão, do fogo material [do Inferno] e da prensa sob a qual são esmagados os danados. Quando os fatos hão dado razão à ciência, foi necessário render-se, e reconhecer, não que a Bíblia tivesse se enganada, mas que tivesse sido mal compreendida, e a religião, que acreditava-se em perigo, não sofreu; longe disso, ela ganhou não endurecendo contra a evidência. Será do mesmo modo com a reencarnação, que não é também, como se poderia acreditar, contrária à doutrina cristã, do que é fácil encontrar provas nas mesmas Escrituras. Além disso, se for demonstrado que certas coisas são materialmente impossíveis sem a reencarnação, será necessário efetivamente admitir que ela está nas leis da Natureza.

Sem entrar a fundo na questão, acrescentarei apenas, para aqueles que a ideia de retornar sobre a Terra não seduz, que isso não é uma necessidade; é possível que aí estejam pela primeira vez, como eles podem não voltar jamais; o universo é assaz grande e suficientemente povoado de mundos para deixar a liberdade da escolha. Depende, portanto, deles de aí não voltar a viver e de se assegurar uma estadia mais feliz, mas não é se agarrando [aos bens materiais] como fazem-no durante sua vida.


31. O visitante. — Eu já ouvi algumas pessoas dizer o seguinte: Eu acredito na autoridade da Igreja e, portanto, no que ela ensina, sem me inquietar se está ou não de acordo com a ciência; eu acho que é o suficiente para minha salvação e não vou além; temo perturbar minha consciência modificando minhas crenças ou acrescentando algo.


A. K. — Quem é que pensa obrigá-las? Quem é que diz que elas não podem fazer a sua salvação permanecendo o que são? — Elas não serão jamais espíritas? Quem o disse? No início dos transportes ferroviários quantas pessoas disseram: Eu nunca porei os pés aí! Mais tarde, quando viram que ninguém havia morrido, fizeram como todo mundo.


32. O visitante. — Aqueles que não acreditam em Espíritos e em suas manifestações, serão eles, no dizer dos Espíritos, menos bem aquinhoados na vida futura?


A. K. — Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens, o que seria de todos aqueles que desde que o mundo existe não foram capazes de tê-la, e daqueles que, por muito tempo ainda, morrerão sem tê-la: Pode Deus fechar-lhes a porta do futuro? Não! Os Espíritos que nos instruem são mais lógicos que isso. Eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom, e não impõe condições impossíveis.


33. O visitante. — Então permiti-me dizer-vos que, a partir do momento que os Espíritos não nos ensinam senão os princípios morais que encontramos no Evangelho, eu não vejo de que utilidade pode ser o Espiritismo, uma vez que antes dele podíamos alcançar nossa salvação, e podemos ainda alcançá-la sem ele. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas, alguns destes princípios que mudam a face do mundo, como fez o Cristo. Ao menos o Cristo estava só, sua doutrina era única, enquanto que vossos Espíritos são milhares que se contradizem; alguns dizem branco, outros negro; donde resulta que desde o começo seus partidários formam já muitas seitas. Não seria melhor deixar os Espíritos tranquilos, e ficarmos com o que já temos?


A. K. — Vós sois uma prova, senhor, do inconveniente que há em refletir sobre alguma coisa com alguém que não a conhece. Se houvésseis estudado a fundo, ainda que somente em teoria, vós não falaríeis assim. Eu não vos posso fazer numa sessão  um curso completo de Espiritismo, não mais do que eu vos poderia fazer um de física, de astronomia, de filosofia ou de teologia. Quando houverdes visto tudo, profundamente, então poderemos discutir. De antemão, levantarei sumariamente alguns dos erros que incorreis.

O primeiro está na confusão que estabeleceis sempre entre o Espiritismo e a religião. O segundo está na qualificação de seitas que destes acerca das divergências de opiniões a respeito dos fenômenos espíritas. Não é de se estranhar que no início de uma ciência, enquanto muitas observações sejam ainda incompletas, tenha surgido teorias contraditórias; mas estas teorias repousam sobre pontos de detalhe e não sobre o princípio fundamental. Elas podem constituir escolas que encaram a coisa sob esse ou aquele ponto de vista, que explicam os fatos à sua maneira, mas não são mais seitas do que os diferentes sistemas que partilham nossos sábios sobre as ciências exatas: em medicina, física, etc. Riscai, pois, a palavra seita que é completamente imprópria no caso em questão. Mas admitamos mesmo o ponto de vista religioso sobre o qual retornais incessante e erradamente; então, o Cristianismo, desde sua origem não tem dado nascimento a uma porção de seitas? Por que a palavra do Cristo não teve bastante poder para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que é ela suscetível de interpretações que ainda hoje dividem os cristãos em diferentes Igrejas, todas pretendendo só elas possuir a verdade necessária à salvação; detestando-se  cordialmente e anatematizando-se em nome do seu divino mestre que não pregou senão o amor e a caridade? A fraqueza dos homens, direis? Que seja. Por que quereis que o Espiritismo triunfe subitamente desta fraqueza e transforme a humanidade como por encanto?

Vamos à questão da utilidade. Dizeis que o Espiritismo não nos ensina nada de novo. É um erro: ele ensina, ao contrário, muito, àqueles que não param na superfície. Dizeis que poder-se-ia passar e viver tranquilamente sem ele; de acordo; como também se poderia passar sem uma porção de descobertas científicas. Os homens, certamente, se saíam igualmente bem antes das descobertas dos novos planetas, antes de sabermos que é a Terra que gira e não o sol; antes que os eclipses fossem calculados; antes que se conhecesse o mundo microscópico e uma centena de outras coisas; o camponês, para viver e fazer crescer o seu trigo, não tem necessidade de saber o que é um cometa, e, portanto, não negareis que todas essas coisas estenderam o círculo das ideias e nos fizeram penetrar mais fundo as leis da Natureza. Ora, o mundo dos Espíritos é uma destas leis da Natureza que o Espiritismo nos faz conhecer; ele nos ensina a influência que exerce sobre o mundo corporal; suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade, já não seria muito a revelação de um tal poder, abstração feita de qualquer doutrina moral?

Vejamos agora sua influência moral. Admitamos que ele não ensine absolutamente nada em matéria religiosa. Qual é o maior inimigo da religião? O materialismo, porque o materialista não acredita em nada; ora, o Espiritismo é a negação do materialismo, que não tem mais razão de ser. Não é mais pelo raciocínio, pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo termina com seu corpo, é pelos fatos; mostrando-os, fazendo-o tocar com seus dedos e ver com seus olhos. É isso um pequeno serviço prestado à humanidade, à religião? Mas isso não é tudo: a certeza da vida futura, o quadro vivo dos que nos hão precedido, mostram a necessidade do bem e as consequências inevitáveis do mal. Aí está porque, sem ser ele mesmo uma religião, o Espiritismo leva essencialmente às ideias religiosas; desenvolvem-nas nos que não a têm, fortifica-as naqueles em quem elas são incertas. A religião encontra, assim, um apoio nele, não para estas pessoas de vistas estreitas, que a veem toda inteira na doutrina do fogo eterno, na letra mais que no espírito, mas para aqueles que a veem de acordo com a grandeza e a majestade de Deus. Numa palavra, o Espiritismo cresce e eleva as ideias; combate os abusos engendrados pelo egoísmo, pela cupidez, pela ambição; mas quem ousaria defende-lo e declarar seus campeões? Se ele não é indispensável à salvação, facilita-a firmando-nos na estrada do bem. Qual é, além disso, o homem sensato que ousaria argumentar que a falta de ortodoxia é mais repreensível aos olhos de Deus que o ateísmo e o materialismo? Ponho respectivamente as seguintes questões a todos os que combatem o Espiritismo sob o aspecto das consequências religiosas:


1° Quem será menos favorecido na vida futura, aquele que não acredita em nada, ou aquele que acreditando em verdades gerais, não admite certas partes do dogma?


2° O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que o ateu e o materialista?


3° Aquele que não é ortodoxo no rigor da palavra, mas que faz todo o bem que possa, que é bom e indulgente para com seu próximo, leal em suas relações sociais, sua salvação estará menos segura do que aquele que crê em tudo, mas que é duro, egoísta, e falta com a caridade?


4° Qual será melhor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem os deveres da ortodoxia, ou a prática destes últimos sem a da moral?


Ainda uma vez, o Espiritismo está fora dessa ou daquela crença particular, com a qual não tem que se preocupar; ele traz às ideias religiosas gerais aqueles que estavam afastados: a Igreja que os repele comete uma imprudência, porque isso poderia fazer voltarem-se para ela, que lhes estende seus braços. Aqueles que se esforçam para faze-lo passar por uma nova religião, fazem-no por ignorância da coisa, ou por um cálculo que posso chamar inábil.


34. O visitante. — Os abusos são campeões ocultos mais perigosos que os adversários confessos, e a prova disso é a dificuldade que se tem em desarraigá-los. Não temeis a influência dos que estão interessados em mantê-los? Não são para vós pessoalmente inimigos, e não podem eles asfixiar o Espiritismo em seu nascimento, não somente aqueles que vivem dos abusos, mas também aqueles que, sem ou com razão, acreditam ver inconvenientes em sua propagação?


A. K. — Para o que diz respeito a mim pessoalmente, vos direi, senhor, que embora não seja rico, tenho o necessário; que meu gênero de vida poderia ser visto, por muitos, como mais que modesto, não peço nada e nada ambiciono; eu me contento com o pouco que me deixaram, sem o querer, os que me despojaram do supérfluo, e aos quais perdoo. Eu prefiro o meu lugar no mundo dos Espíritos que o seu, porque não faço mal a ninguém; presto tantos serviços quanto posso, e se lamento uma coisa, é a exiguidade dos meus recursos que me limita no bem que eu gostaria de fazer; espero que Deus me levará em conta a intenção. Não aspirando, assim, a nada, não temo que me cortem a grama sob os pés; não procurando elevar-me, não temo cair. O Espiritismo não é para mim um estribo, sua ruína, se ela fora possível, não me privaria de nada. O que eu tenho, então a temer dos meus inimigos? Eles me tornarão em ridículo? O que me importa? O ridículo recai sobre aqueles que riem das coisas sérias. Tratar-me-ão de louco? Muitos outros que valiam cem vezes mais que eu foram tratados do mesmo modo. Perseguições? Não estamos mais na Idade Média; além disso, sabemos muito bem que as perseguições são o estimulante das ideias novas. Deixemos pra lá, portanto, o que a mim se refira.

O mau querer de alguns pode asfixiar o Espiritismo? Se é uma quimera, cairá por si mesmo sem dar tanta dificuldade para abatê-lo; se o perseguem, é que o temem, e não se teme senão o que é sério. Se é uma realidade, está, como já disse, na Natureza, e não se revoga uma lei da Natureza com um traço de pena. Se as manifestações espíritas fossem privilégio de um homem, ninguém duvida que pondo este homem de lado, se poria fim às manifestações; infelizmente para os adversários, elas não são um mistério para ninguém; não há nada de secreto, nada de oculto, tudo se passa ao clarão do dia; elas estão à disposição de todos, e está em uso desde o palácio até à mansarda. Pode-se proibir o exercício público; mas sabe-se precisamente que não é em público que se produzem melhor: é na intimidade; ora, cada um pode ser médium. Quem pode impedir de ter comunicações com os Espíritos uma família no seu interior, um indivíduo no silêncio de seu gabinete, o prisioneiro sob custódia, às vistas e sob a barba mesmo dos esbirros? Admitamos, no entanto, que um governo seja assaz forte para impedi-lo, impedi-lo-á nos seus vizinhos, no mundo inteiro, dado que não há um país em nenhum continente onde não haja médiuns? Ficariam muito surpresos se soubessem, como eu, quão longe eles têm penetrado, e quais são os personagens que deles se ocupam sob o selo do segredo, não ousando ainda fazê-lo abertamente. Mas um dia virá, menos afastado do que se acredita, onde qualquer escrúpulo será banido, e então, o que dirão seus contraditores quando virem certos nomes arvorar ostensivamente a bandeira do Espiritismo? De qual lado estarão os que riem? Se há algum delito, os verdadeiros delinquentes são os Espíritos, que, felizmente para eles, são de uma natureza pouco impressionáveis; e como são verdadeiras potências, mais para temer do que se crê, eles poderiam ainda, como já o fizeram, fazer pesar seu braço sobre os que os desprezam. Se soubessem o que pode resultar tê-los para inimigos, não pensariam duas vezes.


35. O visitante. — Credes, então, que os Espíritos possam ser a causa de certas calamidades?


A. K. — Não só creio, como tenho certeza, porque tenho provas. Eles alcançam a todos, e o castigo não espera sempre a vida futura: não se esqueça que estamos no purgatório.


36. O visitante. — Contudo, como os bons Espíritos podem se prestar a fazer o mal?


A. K. — Eles não o fazem; aconselham o bem; suscitam bons pensamentos; se não são ouvidos, deixam a turba dos maus Espíritos correr solta sobre os culpados, alguns dos quais são atingidos em seus afetos, decepcionando outros em suas esperanças, humilhados no seu orgulho, enganados na sua ambição, vítimas dos seus próprios excessos, sem prejuízo do que os aguarda no outro mundo.


37. O visitante. — Eu acreditava que só Deus tinha o poder de punir e recompensar; então ele compartilha seu poder com os Espíritos?


A. K. — Deus fez a lei; os Espíritos executam-na ou fazem-na executar. Eles são os agentes mais ou menos subalternos do seu poder.


38. O visitante. — Como então explicar os infortúnios que atingem frequentemente o homem de bem?


A. K. — Eu teria que voltar a certos princípios que seria demasiado longo desenvolver aqui. Quando houverdes estudado a fundo a Doutrina Espírita, compreendê-la-ás. Então, senhor, sobre este ponto, como sobre muitos outros, eu estarei mais do que disposto a responder às vossas questões, quando me provar que haveis meditado seriamente.


39. O visitante. — Permiti-me, portanto, ainda uma última pergunta. Certas pessoas consideram as ideias espíritas como susceptíveis de perturbar as faculdades mentais, e é por este motivo que elas acham prudente parar sua propagação.


A. K. — Conheceis o provérbio: Quando se quer matar seu cão, diz-se que ele está raivoso. Não é, portanto, surpreendente que os inimigos do Espiritismo busquem apoiar-se sobre todos os pretextos; como este pareceu-lhes próprio a despertar temores e suscetibilidades, eles o apanharam avidamente; mas ele cai ante o mais ligeiro exame. Segui, pois, sobre esta loucura o raciocínio de um louco [o raciocínio de Allan Kardec].

Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura: as ciências, as artes, a religião mesmo, fornecem o seu contingente. A loucura tem por princípio um estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento: estando o instrumento desorganizado, o pensamento fica alterado. A loucura é, pois, um efeito consecutivo, do qual a causa primeira é uma predisposição orgânica que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões; e isto é tão verdadeiro que encontrareis pessoas que pensam muito e que não se tornam loucas; e outras tornar-se sob o império da menor sobre-excitacão. Existindo uma predisposição à loucura, esta tomará o caráter da preocupação principal, que então se torna uma ideia fixa. Esta ideia fixa poderá ser a dos Espíritos naqueles que com eles se ocuparam, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita, se o Espiritismo tivesse sido sua preocupação dominante. Um jornal disse, é verdade, que, só numa localidade da América, cujo nome não me recordo mais, havia quatro mil casos de loucura espírita; mas sabe-se que nossos adversários têm a ideia fixa de acreditarem-se os únicos dotados de razão, e esta é uma mania como qualquer outra. Aos seus olhos, somos todos dignos das Casas de Misericórdia, e, por conseguinte, os quatro mil espíritas da localidade em questão deviam ser vistos como loucos. Nesta conta, os Estados Unidos sozinho possuem vários milhões, e todos os outros países do mundo um número muito maior. Esse gracejo começa a desgastar-se uma vez que se vê essa loucura ganhar os mais altos escalões da sociedade. Fazem grande barulho de um exemplo conhecido, o de Victor Hennequin; mas se esquecem de que antes de ocupar-se com os Espíritos, ele já tivesse dado provas de excentricidade nas ideias; se as mesas girantes não tivessem vindo, que, de acordo com um jogo de palavras bem espirituoso dos nossos adversários, lhe fizeram girar a cabeça, sua loucura haveria tomado outro curso.

Eu digo, pois, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio a esse respeito; mas vou mais longe: digo que, bem compreendido, é um preservativo contra a loucura.

Entre as causas mais numerosas de sobre-excitacão cerebral, é necessário contar as decepções, os infortúnios, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais frequentes de suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista mais elevado, elas lhe parecem tão pequenas, tão mesquinhas para o futuro que o espera; a vida é para ele tão curta, tão fugaz, que as tribulações não são para ele senão incidentes desagradáveis de uma viagem. O que, em outro, produziria uma violenta emoção afeta-o mediocremente. Sabe, aliás, que as tristezas da vida são provas que servem ao seu adiantamento se as sofrer sem murmúrio, porque será recompensado segundo a coragem com a qual tê-las-á suportado. Suas convicções dão-lhe, pois, uma resignação que o preserva do desespero e, por conseguinte, de uma causa incessante de loucura e de suicídio. Sabe, além disso, pelo espetáculo que dão-lhe as comunicações com os Espíritos, o destino dos que abreviam voluntariamente os seus dias, e este quadro é bem feito para fazê-lo refletir; também o número dos que foram presos nessa encosta fatal é considerável. Este é um dos resultados do Espiritismo. Que os incrédulos riem enquanto quiserem; desejo-lhes as consolações que ele traz para todos aqueles que se deram ao trabalho de sondar-lhe as misteriosas profundezas.

Entre as causas de loucura é necessário ainda colocar o medo, e o medo do diabo perturbou mais de um cérebro. Sabe alguém o número de vítimas que se tem feito, impressionando imaginações fracas com este quadro que se esforça para se tornar mais assustador por hediondos detalhes? O diabo, dizem eles, não assusta senão as crianças pequenas; é um freio para torná-las melhor; sim, como o bicho-papão e o lobisomem, e quando não têm mais medo, elas são piores do que antes; e por este belo resultado não se contam o número de epilepsias causadas pelo abalo de um cérebro delicado. A religião seria bem fraca se por falta do medo seu poder pudesse ser comprometido; felizmente não é assim; ela tem outros meios de agir sobre as almas; o Espiritismo lhe fornece os mais eficazes e os mais sérios, se souber colocá-los em prática; ele mostra a realidade das coisas, e assim neutraliza os efeitos desastrosos de um medo exagerado.


40. O visitante. — Eu vos perguntaria ainda uma coisa, senhor: é o ponto de partida das ideias espíritas modernas; serão elas de fato uma revelação espontânea dos Espíritos ou o resultado de uma crença prévia em sua existência? Compreendeis a importância da minha pergunta; pois, neste último caso, se poderia acreditar que a imaginação não lhe é estranha.


A. K. — Esta questão, como dizeis, senhor, é importante deste ponto de vista, embora seja difícil admitir, supondo que estas ideias se originaram na crença inicial de que a imaginação poderia produzir todos os resultados materiais observados. Com efeito, se o Espiritismo fosse fundado sobre o pensamento preconcebido da existência dos Espíritos, se poderia, com alguma aparência de razão, duvidar da sua realidade; porque se a causa for uma quimera, as consequências devem, elas mesmas, ser quiméricas; mas as coisas não se passaram assim. Observeis primeiramente que esta conclusão seria totalmente ilógica; os Espíritos são uma causa e não um efeito: quando se vê um efeito, pode-se procurar a causa; mas não é natural imaginar uma causa antes de ter visto os efeitos. Não se poderia, portanto, conceber a idéia de Espíritos se não fossem apresentados efeitos que encontravam sua explicação provável na existência de seres invisíveis. Pois bem! não foi mesmo desta maneira que este pensamento veio; ou seja, não é uma hipótese imaginada visando explicar certos fenômenos; a primeira suposição que se fez foi de uma causa toda material. Falo das ideias espíritas modernas, pois sabemos que esta crença é tão antiga quanto o mundo. Aqui está o curso das coisas.

Produziram-se fenômenos espontâneos, tais como ruídos estranhos, batidas, movimentos de objetos, etc., sem causa ostensiva conhecida, e estes fenômenos puderam ser reproduzidos sob a influência de certas pessoas. Até agora nada autorizava procurar a causa em outros lugares que não na ação de um fluido magnético ou outro qualquer cujas propriedades eram ainda desconhecidas. Mas não se demorou a reconhecer nestes ruídos e nestes movimentos um caráter intencional e inteligente, onde se concluiu, como já o tenho dito, que se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. Esta inteligência não poderia estar no objeto em si, porque a matéria não é inteligente. Seria o reflexo de uma pessoa ou das pessoas presentes? Foi o primeiro pensamento, como disse-o igualmente; só a experiência  podia dizer, e a experiência demonstrou por provas irrecusáveis, em muitas circunstâncias, a completa independência desta inteligência. Ela estava, portanto, fora do objeto e fora da pessoa. Quem era ela? Foi ela mesma que respondeu: declarou pertencer à ordem dos seres incorpóreos, designados sob o nome de Espíritos. A ideia dos Espíritos, portanto, não preexistiu; ela não foi sequer consecutiva; numa palavra, não saiu do cérebro: ela foi dada pelos próprios Espíritos, e tudo quanto se aprendeu sobre eles, foram eles que nos ensinaram.

Uma vez revelada a existência dos Espíritos e os meios de comunicação estabelecidos, foi possível ter entrevistas seguidas e obter informações sobre a natureza destes seres, as condições da sua existência, o seu papel no mundo visível. Se se pudesse assim interrogar o mundo dos seres infinitamente pequenos, quantas coisas curiosas não se aprenderia sobre eles! Suponhamos que antes da descoberta da América um fio elétrico existisse através do Atlântico, e que em sua extremidade europeia se observasse sinais inteligentes; ter-se-ia concluído que na outra extremidade havia seres inteligentes que procuravam se comunicar; teríamos podido questionar e eles teriam respondido; teríamos assim adquirido a certeza da sua existência, o conhecimento dos seus costumes, os seus hábitos, a sua maneira de ser, sem jamais tê-los visto; foi do mesmo modo nas relações com o mundo espírita; as manifestações materiais foram como sinais, meios de advertência que nos puseram na via de comunicações mais regulares e mais seguidas. E, coisa notável, à medida que meios mais fáceis de se comunicar estão à nossa disposição, os Espíritos abandonam os meios primitivos, insuficientes e incômodos, como o mudo que recobrando a palavra renuncia à linguagem dos sinais.

Quais eram os habitantes deste mundo? Eram seres à parte, fora da humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência que se encarregou de resolver estas questões; mas até que observações numerosas lançassem luz sobre este assunto, o campo das conjeturas e dos sistemas estava aberto, e Deus sabe quantos surgiram! Uns acreditaram ser Espíritos superiores em tudo, outros não viram neles senão demônios; era por suas palavras e por seus atos que poderíamos julgar. Suponhamos que entre os desconhecidos habitantes além do atlântico que acabamos de falar, uns tenham dito coisas muito boas, enquanto outros ter-se-iam feito observar pelo cinismo da sua linguagem, pode-se concluir que entre eles haja bons e maus; foi o que aconteceu com os Espíritos; foi assim que se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e de maldade, de ignorância e de sabedoria. Uma vez bem edificado sobre os defeitos e as qualidades que neles se encontram, cabia à nossa prudência separar o bom do mau, a verdade do falso em suas relações conosco, absolutamente como fazemo-lo em relação aos homens.

A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos Espíritos, mas também sobre a sua natureza, e sobre o que poderíamos chamar o seu estado fisiológico. Soube-se, por estes Espíritos mesmos, que uns estão muito felizes e outros muito infelizes; que não são seres à parte, de uma natureza excepcional, mas que são as almas dos que viveram sobre a Terra, onde deixaram o seu invólucro corporal; que eles povoam os espaços, cercam-nos e nos acotovelam incessantemente; e, entre eles, cada um pode, por sinais incontestáveis, reconhecer seus parentes, seus amigos, e aqueles que conheceram aqui embaixo; podemos segui-los em todas as fases da sua existência de além-túmulo desde o momento em que deixam seus corpos, e observar sua situação de acordo com o gênero de morte e a maneira como haviam vivido sobre a Terra. Finalmente soube-se que não são seres abstratos, imateriais no sentido absoluto da palavra; têm um envoltório, ao qual damos o nome de perispírito, espécie de corpo semimaterial, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal, mas que, em certos casos, e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular, pode tornar-se temporariamente visível e mesmo tangível, e, portanto, fica explicado o fenômeno das aparições e dos toques; este envoltório existe durante a vida corporal: é a ligação entre o Espírito e a matéria; com a morte do corpo, a alma, ou o Espírito, que é a mesma coisa, não se despoja senão do invólucro grosseiro, conservando o segundo, como quando despimos um vestuário exterior conservando apenas o de abaixo; como o germe de um fruto se despoja do invólucro cortical e conserva apenas o perisperma. É este envoltório semimaterial do Espírito que é o agente dos diferentes fenômenos por meio dos quais manifesta a sua presença.

Tal é, em poucos palavras, senhor, a história do Espiritismo; bem vedes, e reconhecê-lo-eis ainda melhor quando o tiverdes estudado a fundo, que tudo nele é o resultado da observação e não de um sistema preconcebido.


41. O visitante. — Falastes dos meios de comunicação [com os Espíritos]; poderíeis dar-me uma ideia, porque é difícil compreender como estes seres invisíveis podem conversar conosco?


A. K. — De boa vontade; fá-lo-ei contudo resumidamente, porque isto exigiria longos desenvolvimentos que encontrareis notadamente nas Instruções práticas que publiquei; mas o pouco que vos disser será suficiente para vos colocar na via do mecanismo, e servirá sobretudo para fazer-vos melhor compreender algumas das experiências às quais podereis assistir até vossa iniciação completa.

A existência deste envoltório semimaterial, ou perispírito, já é uma chave que explica muitas coisas, e mostra a possibilidade de certos fenômenos. Quanto aos meios [de comunicação], são muito variados e dependem, quer da natureza mais ou menos depurada dos Espíritos, quer das disposições particulares às pessoas que lhes servem de intermediárias. A mais vulgar, aquela que podemos dizer universal, consiste na intuição, ou seja, nas ideias e nos pensamentos que eles nos sugerem; mas este meio é bem pouco apreciável na generalidade dos casos: há outros mais materiais.

Certos Espíritos se comunicam por batidas, respondendo por sim e por não, ou designando as cartas que devem formar as palavras. As batidas podem ser obtidas pelo movimento de balanço de um objeto, uma mesa, por exemplo, que bate o pé. Muitas vezes, eles são ouvidos na própria substância dos corpos, sem movê-los. Este modo primitivo é demorado e dificilmente se presta a comunicações de uma certa extensão: foi  substituído pela escrita, que é obtida de diferentes maneiras. Primeiro serviu-se, e serve-se ainda, algumas vezes, de um objeto móvel, como uma pequena prancheta, uma cesta, uma caixa, nas quais se adapta um lápis cuja ponta repousa sobre o papel. A natureza e a substância do objeto são indiferentes. O médium coloca as mãos sobre este objeto ao qual transmite a influência que recebe do Espírito, e o lápis traça os caracteres. Mas este objeto não é, propriamente falando, senão um apêndice da mão, uma espécie de porta-lápis. Depois reconheceu-se a inutilidade deste intermediário, que não é senão um complicador, cujo único mérito é constatar de maneira mais material a independência do médium; este último pode escrever segurando ele mesmo o lápis.

Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir os seus pensamentos por sons articulados que ressoam no ar, ou no ouvido; pela voz do médium, pela vista, por desenhos, pela música, e outros meios que um estudo completo fará conhecer. Os médiuns têm para estes diferentes meios [de comunicação] aptidões especiais que dependem de sua organização; temos assim médiuns de efeitos físicos, ou seja, os que são aptos a produzir fenômenos materiais, como batidas, movimento de corpos, etc.; os médiuns audientes, os falantes [psicofônicos], videntes, desenhistas, músicos, escreventes [psicógrafos]. Esta última faculdade é a mais comum, a que se desenvolve melhor pelo exercício; é também a mais preciosa, porque é aquela que permite comunicações mais seguidas e mais rápidas.

O médium escrevente apresenta duas variedades muito distintas; para compreende-las, devemos estar cientes da maneira como opera-se o fenômeno. O Espírito age às vezes diretamente sobre a mão do médium à qual dá um impulso febril, completamente independente da sua vontade, e sem que este tenha a menor consciência do que escreve: é o médium escrevente mecânico. De outras vezes, age sobre o cérebro; seu pensamento combina-se com o do médium que, então, embora escrevendo de maneira involuntária, tem consciência mais ou menos nítida do que escreve: é o médium intuitivo; seu papel é exatamente o de um intérprete que transmite um pensamento que não é o seu, e que, no entanto, deve compreender. Embora, neste caso, o pensamento do Espírito e o do médium se confundam algumas vezes, a experiência ensina facilmente a distingui-los. Obtêm-se comunicações igualmente boas por estes dois gêneros de médiuns; a vantagem dos que são mecânicos é sobretudo para as pessoas que ainda não estão convencidas; além disso, a qualidade essencial de um médium está na natureza dos Espíritos que o assistem e nas comunicações que recebe, bem mais que nos meios de execução.

Resta-me dizer duas palavras sobre a natureza dos Espíritos que se manifestam e das condições nas quais o fazem.

Pode-se comunicar com os Espíritos de todas as ordens, com seus parentes e seus amigos, com os Espíritos mais elevados como com os mais vulgares; mas eles vêm mais ou menos de boa vontade segundo as circunstâncias e, sobretudo, em razão de sua simpatia para com as pessoas que os chamam; não lhes sendo porém sempre possível fazê-lo.

Os Espíritos sérios não vêm senão nas reuniões sérias onde são chamados com recolhimento e por motivos sérios; não se prestam a qualquer questão de curiosidade, de prova, ou tendo um propósito fútil, nem a qualquer experiência.

Os Espíritos levianos vão por toda a parte; mas nas reuniões sérias calam-se e conservam-se afastados para ouvir, como fá-lo-iam os alunos numa assembleia de doutores. Nas reuniões frívolas eles fazem suas troças, divertem-se com tudo, zombam frequentemente de nós, e respondem a tudo sem se preocuparem com a verdade. Eles são às vezes muito alegres, muito espirituosos, embora sejam superficiais, finos, mordazes e satíricos.

Os Espíritos ditos batedores têm uma aptidão de certa forma especial para os efeitos materiais, e geralmente todos os que produzem manifestações físicas, são de uma ordem inferior, sem serem, por isso, essencialmente maus; os Espíritos superiores não se ocupam com estas coisas, mais que os nossos sábios em fazer exibição de força; se tiverem necessidade, servem-se destes Espíritos, como servimo-nos de mão-de-obra especializada para as tarefas pesadas.


42. O visitante. — Conheço muitas pessoas, e sou do número delas, que fariam de boa vontade um sacrifício para serem testemunhas de fatos patentes, bem convincentes; elas dizem, com uma certa razão, me parece, que antes de se entregarem a um estudo de longo fôlego, quereriam ter a certeza de não perder seu tempo, certeza que lhes daria um fato concludente, mesmo obtido à custa de dinheiro.


A. K. — Aquele que não se quer dar o trabalho de estudar, há mais curiosidade que o desejo real de instruir-se; ora, os Espíritos não gostam dos curiosos que eu também não gosto. Além disso a cupidez é para eles sobretudo antipática, e eles não se prestam a qualquer coisa que possa satisfazê-la; seria necessário fazer uma ideia bem falsa acreditar que se põem às ordens do primeiro vindo a tanto por hora. Não, senhor, as comunicações de além-túmulo são uma coisa muito séria, e que exige muito respeito, para servirem de exibição. Não conheço ninguém, na França pelo menos, que faz este comércio; e se conhecesse, não daria dois centavos para vê-lo; gostaria mais de ir ao espetáculo de um hábil prestidigitador. Deve-se reconhecer que certos fenômenos podem ser imitados: imita-se coisas bem mais difíceis; mas se existe vinho adulterado, não se segue que não haja vinho puro. Os saltimbancos não têm, nestes últimos anos, encontrado  um meio muito engenhoso para simular a lucidez sonambúlica a ponto de iludir? Daí se concluiu que o sonambulismo não existe? Sabemos que os fenômenos espíritas não funcionam como as rodas de um fuso; então se poderia, com razão suspeitar de um médium interesseiro dar uma ajudazinha quando o Espírito não daria, porque deveria, acima de tudo, ganhar o seu dinheiro. O desinteresse absoluto em matéria espírita é, assim, a melhor garantia de sinceridade, abstração feita de que haveria vileza e profanação atrair os Espíritos por dinheiro, supondo que consintam, que é o mais duvidoso; de outros casos, não haveria senão Espíritos de baixo nível, pouco escrupulosos sobre os meios, e que não merecem nenhuma confiança; e ainda esses mesmos teriam um prazer perverso em superar as combinações e os cálculos do seu cornaca [guia]. Pode-se, por conseguinte, ter como princípio que todo médium que disponibiliza sua faculdade por um preço pode ser suspeito de fraude, e que, se sua faculdade existe, ela não pode ser assistida por Espíritos sérios. Em consequência deste princípio, qualquer remuneração oferecida a uma pessoa honrada seria uma ofensa.

A garantia de sinceridade não está tão somente no desinteresse, está também na honorabilidade quer do médium, quer dos membros da reunião, quer dos responsáveis das casas onde se fazem as experiências; poder-se-ia no máximo acreditar que elas são ilusão; mas nestas circunstâncias haveria uma suspeita de fraude voluntária, o que seria uma injúria e não poderia ser expressa sem provar uma absoluta falta de boas maneiras. Não há senão uma coisa a dizer a estes visitantes mal-educados, é lhes perguntar quanto pagaram para ver a sessão, e se eles sabem como o malabarismo se relaciona com a reunião.


43. O visitante. — Os fatos são um poderoso elemento de convicção, vós não deveis vos surpreender com o desejo que manifestam de testemunhá-los.


A. K. Acho muito natural; apenas, como procuro que sejam aproveitados, explico em quais condições convêm se colocar para melhor observá-los, e sobretudo para compreendê-los; ora, quem não quiser colocar-se nestas condições é que não há nele desejo sério de se esclarecer, e então creio seja inútil perdermos tempo com ele.

Os elementos de convicção não são os mesmos para todos; o que convence uns não produz nenhuma impressão sobre outros: é por isso que é preciso um pouco de tudo; mas é um erro acreditar que as experiências físicas sejam o único meio de convencer; vi fenômenos os mais notáveis que não puderam abalar, e onde uma simples resposta escrita triunfou. Quando se vê um fato que não se compreende, quanto mais extraordinário seja, mais ele parece suspeito, e pensando nisso procura-se sempre por uma causa vulgar; se for compreendido, admitimo-lo bem mais facilmente, porque ele tem uma razão de ser: o maravilhoso e o sobrenatural desaparecem. Certamente as explicações que acabo de vos dar nesta entrevista estão longe de serem completas; mas, por mais sumárias que sejam, estou persuadido que elas vos farão refletir; e, se as circunstâncias vos fizerem testemunhar alguma ocorrência de manifestação, vê-la-eis de forma menos prevenida, porque podereis sustentar um raciocínio fundamentado.

Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações, e a doutrina filosófica; ora, sou todos os dias visitado por pessoas que ainda nada viram e que creem tão firmemente como eu, unicamente pelo estudo que fizeram da parte filosófica; para elas o fenômeno das manifestações é acessório: o essencial é a doutrina, a ciência; elas a veem tão grande, tão racional, que nela encontram tudo que pode satisfazer as suas aspirações interiores, independente da ocorrência das manifestações; onde concluem que supondo que as manifestações  não existissem, a doutrina não deixaria de ser a que melhor resolve uma porção de problemas considerados insolúveis. Quantos me disseram que estas ideias tinham germinado em seus cérebros, mas que eram confusas; o Espiritismo veio formulá-las, dar-lhes um corpo, e foi para eles como um raio de luz: é o que explica o número de adeptos que tem feito somente pela leitura do Livro dos Espíritos. Acreditais que seria assim se não se tivesse saído das mesas girantes e falantes?


44. O visitante. — Tínheis razão de dizer, senhor, que das mesas girantes há saído uma doutrina filosófica; e eu estava longe de suspeitar as consequências que poderiam surgir de uma coisa que era encarada como mero objeto de curiosidade. Vejo agora quanto é vasto o campo aberto pelo vosso sistema.


A. K. — Aqui vos paro, senhor; fazeis-me muita honra atribuindo-me este sistema, porque ele não me pertence. Ele foi totalmente deduzido do ensino dos Espíritos; vi, observei, coordenei, e procuro fazer os outros compreender o que eu mesmo compreendo: aí está toda a parte que me toca. Há entre o Espiritismo e os outros sistemas filosóficos esta diferença capital, que estes últimos são todos obra de homens mais ou menos esclarecidos, enquanto que naquele que me atribuis não tenho o mérito da invenção de um único princípio. Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; não se dirá: a doutrina de Allan Kardec, e felizmente, porque que peso teria um nome obscuro como o meu numa questão assim tão séria? O Espiritismo tem auxiliares muito mais preponderantes junto aos quais não sou senão um átomo.


45. O visitante. — Tendes uma sociedade que se ocupa destes estudos; ser-me-ia possível fazer parte dela?


A. K. — Certamente que não, não no momento; porque se para ser recebido não é necessário ser doutor em Espiritismo, é necessário pelo menos ter sobre este assunto ideias mais bem formadas que as vossas. Como não quer ser perturbada nos seus estudos, ela não pode admitir os que viessem lhe fazer perder tempo com questões elementares; nem aqueles que não simpatizando com os seus princípios e suas convicções lançariam a desordem por discussões intempestivas ou por espírito de contradição. É uma sociedade científica como tantas outras, que se ocupa em aprofundar os diferentes pontos da ciência espírita, que procura se esclarecer; mas não é uma escola, nem um curso de ensino elementar. Mais tarde, quando as vossas convicções estejam formadas pelo estudo, ela verá se há lugar para vos admitir. Entretanto, podereis assisti-la no máximo por uma ou duas vezes como ouvinte, com a condição de não fazer nenhuma reflexão de natureza a ofender alguém, sem o que eu, que vos teria introduzido, me incorreria na censura por parte dos meus colegas e a porta vos seria jamais franqueada. Vereis uma reunião de homens sérios e de boa sociedade, cuja maioria se recomenda pela superioridade do seu saber e da sua posição social, e que não sofreria senão com aqueles que benquistamente queira admitir se se afastassem, seja no que for, das conveniências; não creiais, pois, que convide o público, e que chame o primeiro vindo às suas sessões; como não faz demonstrações para satisfazer a curiosidade, ela afasta com cuidado os curiosos; os que, portanto, creiam haver encontrado uma distração e algum tipo de espetáculo, ficarão desapontados, e fariam melhor não se apresentar. Aí está porque ela recusa admitir, mesmo como simples ouvintes, aqueles que não conhece, ou cujas disposições hostis são notórias.


46. O visitante. — Ela não se tem apresentado como uma assembleia religiosa?


A. K. — Apenas uma  palavra responde a esta pequena malícia de certos adversários que acreditam que, assim, podem torná-la suspeita: seu regulamento lhe proíbe que se ocupe de questões religiosas. Se formasse seita, isso seria a negação da sua existência. Aí estão as contradições nas quais caem os que falam de uma coisa sem conhecê-la. Foi-se ainda bem mais longe; aqueles que querem a toda força que o Espiritismo seja uma religião nova, pretendem que todos os médiuns sejam padres. Isso é realmente abusar do direito de gracejar e dizer coisas ridículas.




Dissemos que o melhor meio de se esclarecer sobre o Espiritismo é primeiro estudar a teoria; os fatos virão em seguida naturalmente, e compreendê-lo-ão, qualquer que seja a ordem na qual sejam trazidos pelas circunstâncias. As nossas publicações são feitas com o objetivo de favorecer este estudo; aí está, para esse propósito, a ordem que aconselhamos. A primeira leitura a ser feita é a deste resumo que apresenta o conjunto e os pontos mais destacados da ciência; com isso já se pode fazer uma ideia e convencer-se que no fundo há algo sério. Se este primeiro exame der o desejo de saber mais, leia o Livro dos Espíritos, onde os princípios estão completamente desenvolvidos; depois a Instrução prática sobre as manifestações espíritas, destinado a servir de guia aos que querem operar por si mesmos e tornarem-se médiuns. Finalmente vem a Revista Espírita, que é, de certa forma, um curso de aplicação pelos numerosos exemplos que contém e pela explicação que dá dos diversos fenômenos.

Este estudo concluído, colocamo-nos à disposição de todas as pessoas sérias que nos farão a honra de vir conferir conosco os pontos de detalhe que não teriam compreendido suficientemente.



[1] Nesta segunda versão deste livro, publicado em 1860, o autor apresenta O que é o Espiritismo sob um novo ponto de vista.


[2] Estas palavras, além disso, têm hoje direito de cidade; estão no suplemento da edição de 1859 do Pequeno dicionário dos dicionários franceses, extraído de Napoleão, Landais, obra com tiragem de vinte mil exemplares. Aí se encontra a definição e a etimologia das palavras: erraticidade, medianímico, médium, mediunidade, perispírito, pneumatografia, pneumatofonia, psicógrafo, psicografia, psicofonia, reencarnação, sematologia, espírita, Espiritismo, espiritista, estereótito, tiptologia. Em breve estarão num grande Dicionário completo.


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