Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Instruções práticas.

(Édition Française)

Capítulo XI.


INFLUÊNCIA DO ESPIRITISMO.

Inicialmente os adversários do Espiritismo empregaram contra ele a arma do ridículo e tacharam, sem cerimônia, de loucos todos os seus partidários. Esta arma não só perde força, mas começa a tornar-se ridícula, tanto pelo aumento do número desses pretensos loucos em todos os países, quanto pela necessidade de enviar-se aos hospícios os homens mais eminentes, quer por seu saber, quer por sua posição social. Então mudaram suas armas e, assumindo um tom mais sério, apiedaram-se da sorte reservada à Humanidade por essa doutrina, cujos perigos exaltaram, sem refletir que proclamar o perigo de uma coisa é constatar a sua realidade. Se o Espiritismo é uma quimera, por que tanto trabalho em combatê-lo? É bater-se contra moinhos de vento. Deixai-o tranquilo e ele morrerá de morte natural.

Mas eis que, em vez de morrer, ele se propaga com incrível rapidez e seus adeptos se multiplicam em todos os pontos do globo, a tal ponto que, se isto continuar, em breve haverá mais loucos do que pessoas sensatas. Ora, quem contribuiu para esse resultado? Foram os próprios adversários que fizeram propaganda sem o quererem. Suas diatribes produziram o efeito do fruto proibido. Já que se obstinam tanto contra esse monstro, deduziram as pessoas, é porque deve haver, então, um monstro. Raciocínio muito lógico! E, excitadas pela curiosidade, quiseram ver, mesmo que fosse através dos dedos, tapando os olhos. E foi o que fez muita gente que, sem isto, talvez não tivesse ouvido falar do Espiritismo ou, pelo menos, com ele não se teria ocupado. Se o Espiritismo é uma realidade, é porque está na Natureza; não é uma teoria, uma opinião, um sistema: são fatos. Se for perigoso, é preciso dar-lhe uma direção. Não se suprime um rio, dirige-se-lhe o curso. Vejamos, pois, em poucas palavras, quais são esses supostos perigos.

Diz-se que ele pode produzir uma impressão deplorável sobre as faculdades mentais. Já nos explicamos suficientemente no curso desta obra sobre a verdadeira origem desse perigo, que parte justamente dos que julgam combatê-lo inoculando nos cérebros fracos a ideia do diabo ou do demônio. A exaltação — é verdade — também pode vir em sentido oposto. Contudo, pondo-se de lado qualquer ideia de Espiritismo, não se veem alguns cérebros perturbados por uma falsa apreciação das coisas mais sagradas? Recentemente, os jornais relataram o caso de uma jovem do campo que, tomando ao pé da letra estas palavras do Evangelho: Se tua mão é causa de escândalo, corta-a ( † ) decepou o punho a golpes de machado. Dever-se-á concluir, por isto, que o Evangelho é perigoso? E aquela mãe que matou os filhos para fazê-los entrar mais depressa no paraíso, prova que a ideia do paraíso é perigosa?

Em apoio desta acusação contra o Espiritismo, citam-se algarismos e diz-se, por exemplo, que nos Estados Unidos, numa só região, contam-se quatro mil casos de loucura causados por essas ideias. Aos que adiantam fatos deste gênero, perguntamos, primeiramente, em que fonte os foram colher, e se a estatística que estabelecem é de fato autêntica. Nós a julgamos tirada de alguns jornais do país que, como todos os adversários, crendo ter o monopólio do bom senso, tratam de cérebros malucos todos quantos creem nas manifestações dos Espíritos. Não admira que, com semelhante sistema, se tenham encontrado quatro mil casos. Esta cifra nos parece mesmo muito modesta, pois é por centenas de milhares que se os contam hoje. Edificai, pois, hospícios para toda essa gente! Mas, basta deste assunto, que não merece um exame mais sério. Vejamos uma acusação muito mais grave.

Dizem certas pessoas que o Espiritismo destrói a religião. Tem-se muita razão em dizer que nada é mais perigoso do que um amigo desatinado. Essas pessoas não pensam que, dizendo isto, elas mesmas atacam a religião em sua base fundamental: sua eternidade. Como! uma religião estabelecida pelo próprio Deus estaria comprometida por alguns Espíritos batedores! Acreditais, então, no poder desses Espíritos que, outras vezes, em vossa opinião, não passam de quimeras? Ficai, pois, ao menos de acordo convosco mesmos. Se esses Espíritos são mitos, que tendes a temer? Se eles existem, de duas uma: ou os julgais muito poderosos ou julgais muito fraca a religião. Escolhei! Mas, direis, nós não tememos os Espíritos, não cremos neles; não receamos senão as falsas doutrinas daqueles que as preconizam. Seja! Mas, a vosso ver, os que creem nos Espíritos são loucos. Receais, então, que loucos abalem a Igreja? Escolhei outra vez. Quanto a nós, diremos que os que empregam essa linguagem não têm fé, pois não é ter fé no poder de Deus julgar vulnerável por causas tão frágeis uma religião da qual Jesus teria dito: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela”.  ( † )

Vejamos, no entanto, em que a Doutrina é contrária aos princípios religiosos. Que ensinam esses Espíritos tão perigosos? Dizem isto: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao vosso próximo como a vós mesmos.  ( † ) Amai-vos uns aos outros como irmãos. Perdoai aos vossos inimigos; esquecei as injúrias; fazei a outrem o que quereríeis que vos fizessem; não vos contenteis em não fazer o mal, fazei o bem; suportai com paciência e resignação as penas da vida; bani do vosso coração o egoísmo, o orgulho, a inveja, o ódio, o ciúme”. Eles ainda dizem: “Deus vos dá os bens da Terra para fazerdes bom uso deles e não para gozá-los como avarentos; a sensualidade vos rebaixa ao nível dos animais”. Mas Jesus disse tudo isso; a moral deles é, pois, a do Evangelho.

Ensinam os Espíritos o dogma da fatalidade? Não! Eles proclamam que o homem é livre em todas as suas ações e responsável por suas obras. Dizem que pouco importa o comportamento aqui na Terra e que o destino é o mesmo depois da morte? Absolutamente! Reconhecem as penas e as recompensas futuras; fazem mais: tornam-nas patentes, pois são os próprios seres, felizes ou desgraçados, que vêm nos descrever seus sofrimentos e suas alegrias. E verdade que eles não os explicam exatamente como se faz entre nós; que não admitem um fogo material para queimar eternamente almas imateriais. Mas, que importa a forma, se o fundo existe? A menos que se pretenda que a forma deva prevalecer sobre o fundo, o sentido figurado sobre o sentido próprio.

As crenças religiosas não se modificaram em muitas passagens das Escrituras, notadamente nos seis dias da Criação, que se sabe muito bem não serem mais seis vezes vinte e quatro horas, mas, talvez, seis vezes cem mil anos? na antiguidade do globo terrestre, no movimento da Terra em redor do Sol? O que outrora era encarado como heresia digna do fogo terrestre e celeste, e como a subversão da religião, não é hoje admitido pela Igreja, desde que a ciência positiva veio demonstrar, não o erro do texto, mas a falsa interpretação que lhe tinham dado? Dá-se o mesmo com o inferno, que ela não coloca mais nas entranhas da Terra, depois que ali se lançou um olhar investigador. A alta Teologia admite perfeitamente a existência de um fogo moral; ela não assinala mais um lugar determinado para o purgatório, depois que se sondaram as profundezas do espaço, e pensa que ele poderia estar em toda parte, mesmo ao nosso lado. A religião, longe de sofrer com isso, ganhou em não se obstinar contra a evidência dos fatos. Não se deve julgá-la pelo que se ensina ainda nas escolas de aldeia, onde doutrinas superiores não seriam compreendidas. O alto clero é mais esclarecido do que o julga geralmente o mundo, e provou, em muitas ocasiões, que sabe, em caso de necessidade, abandonar as situações difíceis da tradição e dos preconceitos. Mas há pessoas que querem ser mais religiosas que a religião e que a rebaixam pela mesquinhez de sua visão. Para elas a forma é tudo, acima mesmo da moral do Evangelho, que praticam muito pouco. Eis as pessoas que prejudicam mais a Igreja.

Em que, pois, a Doutrina Espírita lhes seria perniciosa? Ela explica o que era inexplicável, demonstra a possibilidade do que se tinha julgado impossível, prova a utilidade da prece. Apenas diz que a prece do coração é a única eficaz e que a dos lábios é um vão simulacro. Quem ousaria sustentar o contrário?

A não eternidade das penas! A reencarnação! Eis a dificuldade. Mas se algum dia esses fatos se tornarem tão patentes e tão vulgares quanto o movimento da Terra em redor do Sol, terão que se render à evidência, como fizeram com o restante. E, então, pesquisando com cuidado desde agora, talvez seja mais fácil chegarem a um acordo do que se pensa. Que não se apressem, pois, em pronunciar um julgamento que poderia ser demasiado precipitado e aproveitem as lições da História.

O maior inimigo da religião é o materialismo, e este não tem mais rude adversário do que a Doutrina Espírita. O Espiritismo já reconduziu ao espiritualismo numerosos materialistas obstinados que, até então, haviam resistido a todos os argumentos teológicos. É que o Espiritismo faz mais do que argumentar: torna as coisas patentes; é, portanto, o mais poderoso auxiliar das ideias religiosas, pois dá ao homem a convicção de seu destino futuro, devendo, por esse motivo, ser acolhido como um beneficio para a Humanidade.

Ele reavivou em mais de um coração a fé na Providência; fez brotar a esperança no lugar da dúvida. Fez melhor: arrancou algumas vítimas ao suicídio, restabeleceu a paz e a concórdia nas famílias, acalmou os ódios, arrefeceu as paixões brutais, desarmou a vingança e levou a resignação à alma do sofredor. É subversivo da ordem social e da moral pública? Uma doutrina que condena o ódio e o egoísmo, que prega o desinteresse, o amor ao próximo, sem exceção de seitas ou castas, não pode excitar paixões hostis e seria de desejar para a tranquilidade do mundo e a felicidade do gênero humano. Se todos os homens compreendessem e praticassem os seus princípios, nada teriam a recear uns dos outros.

Eis para onde conduz a loucura do Espiritismo naqueles que, aprofundando esses mistérios, veem nas manifestações algo mais do que mesas girantes e demônios que dão batidas.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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